Correio do Minho

Braga, terça-feira

Uma nova década - Uma outra Guerra

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2011-09-11 às 06h00

Carlos Pires

1. As imagens estão encerradas na minha memória: eram quase 14 h e, em plena hora de almoço, acompanhava as notícias que o telejornal diário de um dos canais de televisão transmitia.

De repente, o pivot interrompe o noticiário para anunciar uma notícia “de última hora”, com um directo de imagens - uma das torres do World Trade Center, em Nova Iorque, expelia uma densa coluna de fumo negro, denunciando um incêndio. Lembro-me de ter fixado o olhar na TV, pois tinha estado, alguns anos antes, no topo daquela torre; de imediato, pressenti que aquele aparente “incidente” escondia uma enorme tragédia.

Subitamente, um avião surge a voar demasiado baixo e embate sobre a outra das duas torres. Mas que raio está a acontecer? A interrogação do jornalista que legendava as imagens era também a minha! Não, não se tratava de uma emergência resultante de um mero incêndio; parecia claro tratar-se de um ataque terrorista com alcance desconhecido. Por momentos, confesso, receei tratar-se de um início de uma guerra com proporções apocalípticas.

No centro da maior potência mundial, os Estados Unidos da América, dois dos seus mais notáveis ícones foram violentados e desmoronaram. Cerca de 3.000 pessoas morreram. O mundo assistiu, atónito e impotente. Num discurso catártico, George W. Bush comprometeu-se a tudo fazer para que os terroristas nunca mais dormissem tranquilos. Seguiram-se 10 anos de guerra contra o terrorismo, com palcos de luta divididos entre o Iraque e o Afeganistão.

Osama Bin Laden, o cabecilha confesso dos ataques contra o mundo ocidental, foi finalmente morto em Maio do presente ano; contudo, feitas as contas, todas estas investidas feriram de morte tanto a América como os países aliados: milhares de soldados pereceram, anónimos, numa guerra financiada com créditos que fizeram explodir a dívida americana, o que agravou ainda mais a crise económica.

O grupo dos países aliados, o chamado “eixo do bem”, não venceu esta “guerra santa”. O mundo falhou na sua obstinada tentativa de pôr um fim ao terrorismo - prendeu-se; torturou-se; assassinou-se, tudo “em nome da justiça”. Por outro lado, parece evidente que o temor de novos atentados, cada vez mais inusitados, persiste. Disso é paradigma o recente massacre na ilha de Utoeya, na Noruega, o qual nos põe diante dos olhos a possibilidade de inesperados ataques, perpetrados por “gente da terra”.

2. O “11 de Setembro” foi e é um acontecimento marcante, mas não está na origem imediata das mudanças maiores que o mundo atravessa, uma década depois. Assim, desde logo, no campo geopolítico, a ordem global deixou de pertencer ao Ocidente.

De resto, constituiu uma mera coincidência que a 'primavera árabe', caracterizada pelos recentes movimentos de libertação dos povos islâmicos - recentemente, a pólvora da liberdade alastrou à Líbia - tenha ocorrido no mesmo ano do 10.º aniversário da tragédia ocorrida a 11 de Setembro 2001; o dealbar desta primavera ficou a dever-se, isso sim, à influência das redes sociais na mobilização de consciências e não tanto às lutas armadas que na última década abundaram naqueles territórios.

No campo geoeconómico, o crescimento da China, da Índia ou do Brasil, a par da escalada do desemprego e do envelhecimento da população, darão o seu contributo para debilitarem mais a América e a Europa do que o próprio Bin Laden. O fracasso do sistema bancário e a crise da dívida soberana mostraram um mundo no qual o Ocidente deixou de ser senhor da globalização.

Dez anos passaram desde esse fatídico dia que marcou o início do século XXI. Para muitos, parece que foi ontem que tudo ocorreu. Para muitos outros, os atentados ocorridos a 11/09/2001 já fazem parte da História, daquela que é ensinada nos manuais académicos. Contudo, poucos esqueceram. Uma década passou, um verdadeiro período de transição, conotado pela perda do poderio norte-americano para um novo mundo multipolar, cujas regras e nuances ainda desconhecemos, mas que é necessariamente diferente e polifónico.

Dez anos que marcam a ' epopeia contra o terrorismo', sendo que hoje a maior ameaça contra a segurança e a superpotência ocidental poderá advir de uma outra frente - o desemprego; a estagnação da actividade económica. O impacto nas nossas vidas gerado pelos destroços das Torres Gémeas há uma dezena de anos é, actualmente, o mesmo que é gerado pelos “destroços” do Lehman Brothers. Há que fechar, sem esquecer, o capítulo do “11 de Setembro” para nos concentrarmos numa nova batalha: a do desemprego e pobreza. Sem margem para derrotas.

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