Correio do Minho

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Uma nova esperança

Decisões que marcam

Uma nova esperança

Ideias

2020-12-29 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

“É um marco histórico para todos nós, é um dia importante depois de um ano tão difícil para a maioria de nós, para os portugueses, para os europeus em geral”. Estas palavras, repletas de emoção mas também de esperança, foram proferidas no passado sábado pela ministra da Saúde, na altura em que foi recebido o primeiro lote de vacinas contra a Covid 19.
Marta Temido sabe, como poucos, quão difícil tem sido “lidar com tanta incerteza, com tantas circunstâncias novas", e, também por essa razão, acredita e confia que o resultado do trabalho incansável dos cientistas que, em tempo record, conseguiram produzir a vacina por que todos ansiávamos, constitui o tal “marco histórico”.
A ministra, a quem as circunstâncias colocaram um desafio verdadeiramente ciclópico, sem qualquer paralelo com aqueles que os seus antecessores defrontaram, tem motivos de sobra para agora se mostrar confiante em alcançar a luz do fundo do túnel. Mas não tenhamos ilusões: para que tal suceda, todos teremos que colaborar, todos teremos de ser responsáveis, todos teremos de ser solidários.
O combate, que não será fácil, ainda está no seu início, ou não estivéssemos nós a começar o Inverno. Creio, contudo, que não restarão quaisquer dúvidas quanto à janela de esperança que a vacina nos abre, não direi de uma forma escancarada mas pelo menos de um modo seguro. Ou seja, o pesadelo em que temos estado a viver, praticamente durante todo o ano de 2020, poderá ter os dias contados se formos responsáveis e aderirmos massivamente ao plano de vacinação.
Esperança será, pois, a palavra-chave com que encerraremos um ano atípico mas sobre o qual não deveremos limitar-nos a lançar, de uma forma simplista, um manto de esquecimento. Porque, mau grado todo o negativismo que o marcou, não obstante todas as desgraças que nos trouxe, todos os prejuízos que nos provocou, também teve aspectos que não devemos desaproveitar.
Desde logo, porque muitas das dramáticas situações que se nos colocaram foram determinantes para uma mudança de atitude perante o nosso semelhante. Os medos do desconhecido e a constatação de que o nosso estilo de vida teria forçosamente de passar por profundas alterações parecem ter reforçado os laços de solidariedade, ao mesmo tempo que aumentaram a postura reflectiva de muitos. Será suficiente? Claro que não. Mas a verdade é que se experimentaram algumas melhorias, por exemplo, na qualidade ambiental e em algumas soluções de mobilidade suave.
Aliás, numa nota divulgada há dias, a associação ambientalista Zero considerou que a paragem económica causada pela pandemia “permitiu vivenciar uma qualidade ambiental como há décadas não era possível”. Notou ainda o “aumento muito significativo da procura de bicicletas, no seguimento da disponibilização de incentivos a soluções de mobilidade suave, por parte de algumas autarquias”.
Ou seja, a pandemia contribuiu para uma maior consciencialização das problemáticas ligadas ao ambiente, acabando, inclusive, por trazer alguns benefícios nessa área. E isso é tanto mais importante quanto é certo que esta será, porventura, a derradeira oportunidade para a reflexão, na busca da mais adequada compatibilização entre economia e sustentabilidade do planeta.
Também do ponto de vista da solidariedade e das relações humanas, creio que se registaram avanços relevantes. O maior e mais significativo exemplo será o dos profissionais de saúde, protagonistas incansáveis e tantas vezes incompreendidos, de uma tarefa hercúlea em prol do seu semelhante. Mas felizmente há muitos mais, noutras áreas de intervenção e um pouco por toda a geografia nacional. São os grupos quase espontâneos de pessoas ou as diferentes associações, são os clubes ou as paróquias, são as autarquias, enfim, é uma vasta rede que a pandemia gerou para auxiliar o outro, para ajudar quem momentaneamente necessita de apoio. E essa deverá ser também uma conquista que não devemos permitir que se perca, até para ajudar a minimizar as desigualdades sociais que, entretanto, se agravaram.
É reconfortante verificar que deste ano que agora vai terminar sobejam factos tão positivos quantos estes a que me referi. Constata-se que afinal a pandemia não provocou apenas acontecimentos negativos, embora tenha de reconhecer com grande mágoa que, de um modo geral, estes se sobrepuseram aqueles.
Como escrevia o cardeal José Tolentino de Mendonça logo no início da pandemia, em Março, quando “confinados a um isolamento, compreendemos talvez melhor o que significa ser – e ser de forma radical – uma comunidade.” E acrescentava que a certeza de que “a nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas, (porque) todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência”, será porventura a maior virtualidade dessa convicção.
A adopção das medidas de higiene das mãos e da etiqueta respiratória por parte da esmagadora maioria dos cidadãos constitui, neste particular, um dos paradigmas do enorme civismo dos portugueses mas vai também ao encontro das preocupações de Tolentino Mendonça, designadamente no que concerne à interdependência pessoal como ponto fulcral da nossa vivência em comunidade.
E aqui chegados, ganhamos a certeza de que teremos de prosseguir a caminhada em comunhão de esforços, com o espírito de solidariedade que evite deixar alguém pelo caminho, enfim, com a expectativa de estarmos a construir algo melhor. Com essa esperança, resta-me desejar um óptimo ano de 2021!

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