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Uma questão de Confiança

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Uma questão de Confiança

Ideias Políticas

2020-01-28 às 06h00

Pedro Sousa Pedro Sousa

Há semanas escrevi, aqui, sobre cidades centradas nas pessoas, comunidades centradas no humano, naquela que é hoje a tendência mais forte de quem investiga o desenvolvimento das cidades, assumindo-se como uma concepção que redesenha o conceito das Cidades Criativas através de um conjunto de orientações comunitárias mais éticas, humanistas, tolerantes, inclusivas e sustentáveis.
Foi pois neste quadro, no contexto desta visão que marca a actualidade de todo o debate em torno do pensamento sobre o futuro das cidades, que, na passada Sexta-Feira, a maioria de direita que governa a Câmara e a Assembleia Municipal de Braga, decidiu vender, decidiu alienar a Fábrica Confiança, um extraordinário edifício e exemplar único de uma memória industrial que marcou de forma indelével uma época da cidade e do concelho e o último grande projecto político que nos últimos anos foi capaz de colocar todos os partidos, à data com representação nos órgãos municipais, de acordo e a partilhar uma visão comum.

A tal visão comum passou pela decisão da Câmara de Braga adquirir, em 2012, a Fábrica Confiança, opção defendida entusiasticamente por Ricardo Rio, na altura líder da Oposição, a fim de aí instalar um conjunto de valências culturais, recreativas, sociais, criativas, ao mesmo tempo que se garantia a preservação de tão importante edifício, das suas histórias e memórias e, a partir dali, ganharmos um centro nevrálgico de produção artística, de ensino aprendizagem de processos criativos, de formação artística partilhada, de diálogo entre as artes, de talento, de livre criação, cultura e demais indústrias criativas, capaz de nos ajudar a desenhar um novo modelo de desenvolvimento estratégico para a cidade e para o concelho.
Mais extraordinário, porque absolutamente sem sentido, até porque é impossível adivinhar-lhe alguma coerência, é a decisão de vender a Fábrica Confiança ao mesmo tempo que a Câmara de Braga está, e bem, a preparar um programa de candidatura a Capital Europeia da Cultura, em 2027.

Poucos são, para além da Confiança, claro, os edifícios aptos a assumir o papel de sala de estar desta estratégia, a assumir-se como o coração desse pulsar de Braga Capital Europeia da Cultura. Poderia, por essa Europa fora, dar como exemplos o Mezrab, em Amsterdão, o Matadero, em Madrid, mas também aqui ao lado, em Gaia, com o excelente projecto da Companhia de Fiação de Crestuma - CFC, hoje casa de uma das mais vibrantes bienais de arte organizadas em Portugal.
Estes exemplos, todos eles, de entre muitos outros que poderíamos referir, têm em comum duas dimensões: todos eles, todos sem excepção, foram instalados em antigos edifícios industriais e todos, todos sem excepção, contribuíram muito para a valorização e para a qualificação das cidades, dos territórios e das comunidades onde foram instalados.

Regressando à Fábrica Confiança, importa dizer que a opção pela alienação da mesma e pela sua não reabilitação assenta, segundo Ricardo Rio e seus pares, no facto de não haver fundos europeus disponíveis para intervir satisfatoriamente na mesma, assumindo também o Sr. Presidente da Câmara que o Município que, inclusive tem usado a Fábrica Confiança, e o atraso na sua alienação, como bode expiatório para o não cumprimento, por parte da Câmara, de um conjunto de obrigações para com empresas e prestadores de serviços, de bastantes e avultados financeiros que a mesma autarquia deveria, alguns há meses/ /anos, ter liquidado.

A verdade é que nos seis anos da liderança da actual maioria, gastaram-se já milhões, muitos milhões de euros em coisas muito menos importantes (voltas a portugal em bicicleta, certames mil, rallys, festas, feiras, foguetes e, também, estudos, consultorias de qualidade duvidosa e que poderiam, perfeitamente, ser realizados pela estrutura técnica da Câmara Munici- pal), muito menos prioritárias que a Confiança, a questão política que, nos últimos anos, mais manifestações genuínas gerou da parte de milhares de bracarenses anónimos, de cidadãos preocupados com a sua terra, poderia significar quer como preservação da nossa memória colectiva, quer, sobretudo, pelo que poderia significar no futuro que desejamos construir.
Muito pior do que não ter dinheiro (ou pelo menos repetir, alto e muitas vezes, que não se tem, apesar de para muitas coisas haver sempre dinheiro de sobra), é não ter boas ideias e não vislumbrar as prioridades certas, até porque estas, infelizmente, não se compram com dinheiro.

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