Correio do Minho

Braga, segunda-feira

... uma viagem ao livro de Olivier Reboul “O que é aprender”: chegando a bom porto

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Escreve quem sabe

2013-03-26 às 06h00

Cristina Palhares

Terminamos a nossa viagem pelo livro de Reboul, à terceira e última tese do autor que se encontra no seu capítulo sétimo sobre os poderes do docente. Se o ensino está ao serviço do aluno, a forma de assegurar ao aluno este serviço está distribuída por quatro poderes que Reboul atribui: disciplina, programação, avaliação e motivação. Disciplina é então entendida como “a ordem, sem a qual não existe nem liberdade, nem justiça, nem criatividade”.

E esta ordem quando estabelecida já não necessita de intervenção. A ordem não humilha, não pune. A ordem não prova autoridade mas antes competência. “Graças a ela, o aluno aprende o domínio de si, o respeito pelos outros, a autonomia”.

Um outro dos poderes atribuídos ao professor é a programação que se poderia resumir nas suas palavras: “… é ao docente que compete programar, dentro do programa oficial, o seu próprio ensino, adaptá-lo ao nível dos alunos e às suas necessidades. Se, por rotina ou por constrangimento, se limitar a seguir um programa estabelecido de fora, abandona a sua função de docente na mesma medida que se ensinasse sem programa”.

Esta ideia é também partilhada por estudos de Maslow quando confronta os níveis de programação com os níveis de desenvolvimentos pessoais. “Já foi observado que nos níveis pré-escolares ou nos de pós-gradução mais elevados, a pessoa é mais desenvolvida do que em quaisquer outros níveis do sistema escolar. Talvez isso seja porque naqueles dois níveis há uma menor institucionalização do trabalho escolar e, portanto, maior flexibilidade para se atender às pessoas ali envolvidas, em seus interesses e suas necessidades individuais”.

Há claramente uma “desinstitucionalização” que se torna necessária, ou seja, entender o programa oficial como um quadro, mas que no interior do qual o professor tem a possibilidade de o adaptar aos seus alunos e às suas necessidades. Já relativamente à avaliação o professor encontra-se numa situação difícil: ter que avaliar permanentemente sem nunca estar certo da sua avaliação.

Se por um lado renunciar à avaliação é uma verdadeira falta de justiça para com o aluno, avaliá-lo terá que necessariamente estar ao serviço do aluno: deve sublinhar os fracassos mas também os seus êxitos; não deve incidir no indivíduo mas nos seus atos; e a sua finalidade deveria ser a auto-avaliação. “… é necessário que o aluno chegue a poder dispensar a avaliação do professor para se avaliar a si próprio.

Não será o fim da educação transformar-se em auto-educação?”. O último poder do professor para Reboul é a motivação que também tem sido alvo, desde Rousseau, de grandes reflexões. Entendendo então a motivação como uma transação (pedagogia da transação) entre a procura espontânea do aluno e as exigências do ensino, Reboul descreve-as: despertar curiosidade e alegria na compreensão, ajudar a vencer dificuldades que levam ao prazer de se vencer a si próprio, entender a necessidade de crescimento como aprendizagem, utilizar o prazer lúdico como forma de auto-educação, fomentar o interesse pela matéria estudada, e, finalmente, como motivação mais completa, levar o aluno a sentir o prazer de criar algo.

“O professor dispõe do poder de encorajar ou desencorajar, de estimular ou de bloquear, de suscitar as perguntas ou de as abafar. É ele, primeiro, que pode fazer do ensino coisa diferente da de uma seleção contínua.” Reboul deixa-nos um legado: a consciência de quão poderosos somos! Saibamos honrá-lo.

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