Correio do Minho

Braga, terça-feira

.... uma viagem ao livro de Olivier Reboul “O que é aprender”: saindo do porto

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Escreve quem sabe

2013-01-29 às 06h00

Cristina Palhares

“Aprender a ser é a própria fórmula de sageza, cujo fim não é tornarmo-nos mais sábios, mas sim felizes e livres”. Assim introduz Reboul o seu livro “O que é aprender”. Nele irá defender três teses. A primeira tese, exposta nos primeiros capítulos trata de uma forma clara e esclarecedora, como se de um romance se tratasse, os valores da informação, da aprendizagem e da compreensão. Informação - “… serve para viver e não para saber; é por natureza pragmática; por outras palavras, a sua verdade reduz-se à sua utilidade. Saber que e saber para que.”

Partilho plenamente com o autor: reduzir o ensino ao saber é apostar na passividade, a aprender sem compreender. Daí que a informação tenha valor se: não constituir um fim em si (só informar em caso de necessidade criando ao mesmo tempo a necessidade de se informar); se utilizar a informação de maneira crítica (proporcionar aos alunos todos os meios de a questionar, desenvolvendo o espírito de análise, a ideia de confrontar as informações entre si e de procurar provas); se ensinar as pessoas a informarem-se (que cada pessoa seja capaz de recolher, de interpretar e de classificar todas as informações disponíveis sobre qualquer problema que lhe diga respeito. No próprio ensino, ensinar a informar-se é uma condição para ensinar a aprender).

“A aprendizagem distingue-se da informação por implicar a atividade do sujeito e por não ser possível senão através dela”. Ou seja, a aprendizagem é uma construção pessoal, porque se entende como um processo, como um percurso, e não como um acúmulo de saberes que apenas perspetivam mudanças de comportamento. Reboul define aprendizagem como aquisição de um saber-fazer, quer dizer, de uma conduta útil ao indivíduo ou outras pessoas, e que pode reproduzir à vontade se a situação o permitir. Assim, a inteligência de um saber-fazer existe quando não há somente a reprodução de condutas adquiridas mas a “...aptidão de as adaptar a casos novos, de as modificar em função de situações insólitas”.

De uma forma irónica, a aprendizagem é apresentada também como um paradoxo. Porquê irónica? Porque se esboceja um sorriso quando relembramos Aristóteles: “As coisas que temos de aprender para as fazermos, é fazendo-as que as aprendemos”. É este o paradoxo que revela a essência da aprendizagem e que o autor de uma forma eloquente, quase que primária, nos leva a descobrir. Passa pelo adestramento pavloviano, da imitação, repetição, do tateio, do método (analítico e global, passivo e ativo) para chegar finalmente ao que ele entende por um “saber-fazer”.

O que é um saber-fazer então? Simples: para o autor. E que nos faz sentir tão pouco reflexivos, tão pouco críticos. Porque nos mostra, ao sabor do correr da escrita, o quanto a formação ultrapassa a informação: O saber-fazer é um poder real, quer dizer permanente. O saber-fazer é poder fazer de novo, quando se quer e como se quer. O saber-fazer é poder adaptar a sua conduta à situação, fazer frente a dificuldades imprevistas. O saber-fazer é poder improvisar lá onde os outros se limitam a repetir. O saber-fazer bem é poder agir inteligentemente. E termina apelando ao educador que tome consciência da distinção que existe entre uma aprendizagem humana ao serviço do indivíduo e uma aprendizagem puramente técnica ao serviço da sociedade.

“Uma aprendizagem humana é aquela que consegue chegar a determinado “saber-fazer”, capaz de permitir a aquisição de outros múltiplos “saber-fazer” e, desta forma, educa-se a personalidade inteira. Por outras palavras, uma aprendizagem humana é aquela em que se aprende a aprender e, por iso mesmo, a ser.” Encerra em si tudo aquilo que entendo por “ensinar”: formar a competência geral dos alunos, num ensino que ultrapasse o estádio da informação e não caia na doutrinação, em que o aluno deve aprender a aprender.

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