Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

União Europeia ‘à la carte’

Uma nova direita para Portugal

Ideias

2014-02-20 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

A construção da União Europeia teve na sua génese a paz como principal objectivo. O sucesso foi de tal ordem que todos (ainda que precipitadamente) consideramos a paz como absolutamente adquirida. Esquecemo-nos depressa que na última guerra mundial, só na Europa, morreram mais de 55 milhões de pessoas!
Nem sempre temos consciência que a União Europeia é no mundo o espaço onde há a maior produção de riqueza e se respeita a diversidade, a dignidade humana e a diferença, onde há liberdade, preocupações ambientais e direitos sociais. Somos 500 milhões, 28 Estados-Membros e com vários outros países a pretenderem aderir para poderem partilhar estes valores.
Mas, já aqui o escrevi, a UE nasceu com base no medo. Foi o medo da guerra. Não foi por convicção e partilha de um ideal sentido e comum dos cidadãos.
Aliás, os cidadãos de cada Estado-Membro vêem a União Europeia de forma diferente. É necessário acabar com os rótulos. Temos o centro, o norte e os periféricos, os que se consideram virtuosos, os contribuintes líquidos e os beneficiários de fundos europeus. .
Apesar destas diferentes visões, a integração e a solidariedade (ainda que ténue) têm acontecido.
Mas precisamos de uma União Europeia em que cada cidadão a sinta como sua.
Face à crise, os profetas da desgraça anteviam o fim do euro e taxas muitíssimo mais elevadas de desemprego do que as que ainda existem, e uma espiral recessiva. Enganaram-se.
A UE avançou, desta vez com medo do contágio, com novos instrumentos de solidariedade como o Mecanismo Europeu de Estabilidade que permite, na prática, financiar Estados-Membros que estejam em dificuldade. Reforçou a prevenção de forma a evitar novas crises e a coordenação da política económica.
Num mundo onde temos desafios como a globalização, escassez de recursos naturais, alterações climáticas, demografia e migrações, e numa Europa envelhecida e dependente em termos energéticos, só venceremos se estivermos unidos e actuarmos de forma concertada, concretizando uma estratégia comum.
Considero que o “orgulhosamente sós” não funciona. Por isso, espanto-me com aqueles que entendem que devíamos sair da União Europeia ou abandonar o euro.
Cada Estado-Membro, cada região, município ou cada um de nós prega a solidariedade, mas, quando chega a hora de a praticar, é o egoísmo que, por vezes, fala mais alto. Cada um de nós concorda que é necessário reformar o Estado, rever a sua dimensão, proceder a fusões, mas com a condição de que tal não nos afecte a nós próprios! Cada Estado-Membro procura sempre tirar o máximo partido da União Europeia dando o mínimo. Há mesmo vozes em Estados-Membros, como é exemplo o Reino Unido, que defendem uma UE ‘à la carte’, em que, se pudesse, escolheria só o que desse jeito e interessasse. Pretendem só o ‘filet mignon’.
A Suíça não faz parte da UE. Mas tem acordos que lhe permitem usufruir do mercado único, de programas e de fundos europeus. Também tem obrigações, deveres, compromissos com a livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços. A Suíça, através de referendo, decidiu limitar a entrada de cidadãos da União Europeia. À Suíça interessa-lhe concorrer a projectos comuns da UE, vender e participar no mercado único, mas em simultâneo impedir a livre circulação. Note-se que a Suíça está com pleno emprego e com um crescimento económico que tem sido potenciado precisamente por mão-de-obra imigrante. O resultado do referendo não é, portanto, consequência de qualquer tipo de crise ou dificuldade na Suíça. O nacionalismo e o egoísmo nacional é que são os responsáveis. Fico triste quando este resultado é aplaudido por portugueses já instalados na Suíça. Esses esquecem-se que as normas, como aquelas que agora defendem, os teriam impedido de ter ficado a trabalhar na Suíça. Estou convencido que a Suíça vai fazer marcha atrás e procurar anular o resultado do referendo. Tal acontecerá, mais uma vez, por egoísmo. É que a Suíça tem mais a perder em rasgar os acordos que tem com a UE do que a ganhar. Mais de 74% dos suíços opõem-se à anulação dos acordos com a União Europeia (UE), que incluem o princípio da livre circulação de pessoas! Curiosamente, os cantões suíços com mais imigrantes foram aqueles que votaram contra as limitações à reintrodução do sistema de quotas e contingentes.
O nacionalismo, o populismo e os sinais de egoísmo são cada vez mais visíveis na UE, como prova o aumento dos extremismos de direita e esquerda. Repare-se que em França a extrema-direita pode vencer as eleições para o Parlamento Europeu. A xenofobia, a intolerância, o nacionalismo, o “orgulhosamente sós” estão a ganhar terreno. Mas o único caminho de sucesso é o da solidariedade. O que se tem de defender é mais Europa e mais partilha, os direitos sociais e os valores europeus que, apesar de tudo, ainda nos distinguem. Portugal só tem a ganhar com um projecto europeu que derrote os extremismos e os egoísmos nacionais.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.