Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

Vamos aprender a viver com robôs sociais?

Beco sem saída

Ideias

2016-11-11 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Segundo a Federação Internacional de Robótica, a população mundial de robôs não para de aumentar, superando já em número a população portuguesa atual, e atingirá previsivelmente até ao final da década os 12 milhões.
A sua maior presença faz-se sentir no Japão, que é, de longe, o país com maior experiência de convivência com estes seres artificiais. Quem não se lembra do mais célebre dos animais de estimação virtuais, o Tamagotchi, lançado nos mercados comerciais pela gigante dos brinquedos e videojogos Bandai em 1996?

Mas no ano em curso estamos a assistir ao provável início do boom dos chamados robôs sociais ou afetivos nos circuitos de consumo globais, embora eles tivessem sido antecipados pela ficção tecnocientífica - e.g., Gigolo Joe (pelo ator Jude Law) no filme Inteligência Artificial realizado por Stanley Kubrik em 2001 - e por protótipos de programas de pesquisa experimental - e.g., a cabeça robótica Kismet desenvolvida por Cynthia Breazeal no MIT em finais da década de 1990 capaz de aparentar emoções.

Eis três exemplos recentes. O Sota, comercializado pela companhia de telecomunicações japonesa NTT.

Trata-se de um robô interativo vocacionado para dar apoio na prestação de cuidados de saúde a idosos, que é capaz de comunicar verbalmente com os beneficiários desses serviços e de interagir com dispositivos “vestíveis” (wearable) por eles para, entre outras funções, monitorizar a sua pressão sanguínea e o seu ritmo cardíaco. O Buddy, um pequeno robô desenvolvido pela Blue Frog Robotics, uma empresa sediada em Paris, destinado sobretudo à companhia doméstica, capaz de manter uma afável conversação sobre a meteorologia local e exibir uns passos de dança para entretenimento dos interlocutores.

E o robô humanoide Pepper, da francesa Aldebaran Robotics (que também criou em 2007 o pequeno Nao (~58 cm), para substituir o Aibo da Sony na Robocup, e o gigante Romeo (~140 cm) para acompanhamento de pessoas que vão tendo perda de autonomia em diferentes graus), poliglota (fala japonês e francês e, em breve, chinês e inglês) e dotado da capacidade de “ler” emoções. São todos robôs sociais vendidos a preços que rondam os 1000 euros e, por isso, bons candidatos a virem a ser amplamente adotados.
Estaremos preparados para este novo cenário em que teremos de coabitar diariamente com robôs, em especial com os do referido tipo humanoide e capazes de inteligência social e afetiva?

Salientarei somente uma inquietação complexa - porque intrinca aspetos metafísicos e aspetos éticos - implicada nesta questão. Ela pode ser formulada do seguinte modo: se o grau de autonomia de um robô for tanto maior quanto mais se assemelhar a um humano, provocando o esbater e, em última instância, o eliminar da fronteira natural/ artificial - ou, como Joseph Decken argumentou em Silico Sapiens (1985) fazer com que quando se tornarem completamente autónomos os robôs adquiram o estatuto de uma nova espécie - e se isso não puder ser concretizado sem que estejam capacitados para reconhecer e reagir a emoções assim como convincentemente as simularem, então, a partir do momento em que possuam tal atributo, poderão ser usados para recolher dados sobre a vida mental de cada um de nós e estabelecer perfis psicológicos e padrões comportamentais com base neles, ameaçando desse modo destruir a esfera da nossa privacidade e deixando-nos vulneráveis a insidiosa manipulação emocional. Muito cuidado, portanto, da próxima vez que um robô lhe sorrir e falar pois poderá estar a mentir-lhe descaradamente!

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

17 Setembro 2021

Pensar o futuro

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho