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Vamos escutar as VIDAS!

2021: o ano da oportunidade

Vamos escutar as  VIDAS!

Voz às Escolas

2020-12-02 às 06h00

Flora Monteiro Flora Monteiro

Iniciei este dia 1 de dezembro de 2020 - o mais estranho primeiro de dezembro de toda a História de que eu tenho memória - com um café de amizade e de trabalho. Uma partilha sobre escola, a vida, os sentimentos, a solidariedade, o altruísmo, o egoísmo, o egocentrismo, o pessimismo, a resignação, o desprezo, a arrogância e a urgência do ensino de valores na Escola… E essa reflexão com um amigo da vida e um companheiro de trabalho levou-nos a falar de vidas… das expostas e das escondidas, das assumidas e das reservadas, das aparentes e das reais, das egocêntricas e das solidárias, das excêntricas e das humildes. Conversamos sobre tantos dos nossos alunos e das suas famílias. E sentimos que “vemos” as dificuldades nos seus olhares, ou melhor, no seu “baixar de olhos”, porque as dificuldades são cada vez mais complexas.

Chegamos à conclusão de que, se temos a certeza que a escola é a segunda casa para quase toda a comunidade escolar, temos que nos esforçar, ainda mais, para transformá-la num palco de crescimento humano, de despertar do espírito generoso, de acordar para a realidade e para as vidas complicadas que existem a metros de cada um de nós, de ser solidariedade ativa, de saber olhar nos olhos do outros, mas acima de tudo de saber escutar...
Um outro amigo e companheiro de vida motivou-me a organizar o meu tempo para ouvir o Papa Francisco. Grata pelo presente, pelo momento proporcionado… Assim o fiz, no meio de reuniões, de visita à vila, de telefonemas Covid, de azáfama do dia-a-dia, e da paz num encontro com a natureza e o GRANDE Papa Francisco, Ele “disse-me” que - “o mundo está surdo”! Está sim, sua Santidade! Cada pessoa ouve-se a si própria e esquece-se de ouvir os outros. Todos falam, mas ninguém se ouve. Não têm tempo para escutar. Temos de saber ouvir VIDAS. Esta é uma das urgências que temos de plantar e fazer germinar. Ouvir, num clima de proximidade, escutar… efetivamente, porque, como nos diz Francisco, “quando somos generosos a acolher as pessoas, ficamos enriquecidos”. Essa é uma missão da educação.

Se não escutarmos, sobretudo o silêncio que os outros nos gritam, só nos conseguimos ouvir a nós próprios. E a partir deste alzheimer afetivo, dos pequenos contextos em que nos fechamos, das piadas onde nos escondemos, dos memes onde nos mascaramos, das lamúrias que repetimos, vamo-nos afastando dos outros e ficamos cada vez mais surdos.
Tantas vezes nos perguntam… Como estamos? Como vamos indo? Como nos sentimos? O que nos apoquenta?

Quando nos colocam ou nos colocamos estas questões, temos resposta. Pronta, imediata! Respondemos e reagimos com desespero, angústia, insatisfação, ansiedade… - “Vamos indo! Não estou nada bem! O trabalho é um tormento! Estou assoberbado de tarefas! Sinto-me exausto! Não consigo lidar com a ansiedade!” - Tudo certo! Somos humanos, frágeis, a viver uma situação impensável e tão desconhecida!
Mas esta esquizofrenia existencial tem solução com a procura da serenidade, da sabedoria, da solidariedade, do SABER escutar as VIDAS!
Mas temos de mudar o foco! À nossa volta tantos precisam de nós! Os problemas são efetivamente superiores. Há pessoas ao lado a passar fome, há crianças com medo, há jovens ansiosos, há muitos em estado real de depressão. Tudo porque falta o essencial… a comida na mesa, a ajuda para pequenas/grandes dificuldades, uma companhia, um emprego, um sorriso, um bom dia, um abraço. E sem isto, como nos diz sua Santidade, perde-se a dignidade.

O país começou a cair, em níveis diversos.
Estou mal porque tenho muito trabalho?!! Às vezes estou, sim!! Mas arrependo-me rápido! Há tantos e tantas que estão mal porque não têm trabalho e daí não poderem colocar os bens essenciais na casa de família, não poderem vestir ou calçar os filhos, não poderem conviver, não poderem sonhar, não gostarem de pensar ou dizer Natal.
Sabemos os valores que queremos passar, dia a dia, em cada turma, em cada aluno, em cada colega, em cada agente da escola. Podemos fazer, podemos agir. Muitos são os movimentos de ajuda em cada comunidade. No Agrupamento já está a ser preparada a árvore da partilha (de bens alimentares de todos, para os que realmente precisam).

Pelo nosso concelho, “Eu sou de Amares, Eu compro em Amares” surge como um movimento que pretende dar algum novo fôlego ao comércio local. Um bem-haja aos seus criadores que geraram um sentimento de partilha e apoio coletivo.
Os jovens estão a aderir. O Agrupamento está integrado, já assimilou na sua missão, no seu projeto, no seu trabalho, no seu quotidiano.
Cada elemento da comunidade, ao despertar para estes projetos, sabe que está a ajudar um amarense, um familiar de um aluno, de um docente, de um assistente, a sua própria família e amigos… Todos juntos podemos fazer muito mais. Podemos ser mais VIDA.

Este confinamento é a todos os níveis superior em malefícios ao que vivemos no 3º período do final do ano. Estávamos todos no mesmo barco! Estávamos todos sob as mesmas circunstâncias (não nas mesmas condições pois as desigualdades acentuaram-se cada vez mais). Porém, isso será outro artigo.
Para a nossa comunidade educativa – para vós – que sabeis quem sois - a minha gratidão, porque esta serenidade e esperança também vem de vós e de tudo o que me apresentam no crescimento destas escolas e no cuidar uns dos outros. Porque uma comunidade só poderá crescer se escutar as VIDAS. E AJUDAR!
Um doce NATAL para todos, com três grandes S: Serenidade, Sabedoria e Segurança. Teremos o Natal possível, com a esperança de, no próximo ano, termos o Natal desejado.

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