Correio do Minho

Braga, terça-feira

Verdade ou Consequência? O jogo para além do marketing…

O que nos distingue

Ideias

2012-05-06 às 06h00

Carlos Pires

Caro(a) leitor, a propósito do episódio da semana - a corrida desenfreada às 369 lojas do Pingo Doce, por milhares de portugueses, em pleno feriado do dia do Trabalhador -, venho propor-vos que joguemos o “Verdade ou Consequência”, enunciando fatos (“verdade”) e correspondentes leituras (“consequência”), de forma instintiva e comum, sem nos preocuparmos com rigores técnicos, sejam eles provindos da economia, da gestão ou do direito.
Pois bem, passo a lançar os dados:
1 - VERDADE: ao longo dos últimos e recentes anos, a cadeia de hipermercados Pingo doce sempre garantiu que, nas suas lojas, os clientes não encontrariam 'talões e complicações' (referindo-se à prática comum em alguma concorrência, nomeadamente a cadeia “Continente”), ostentando, em cartazes publicitários, que “a palavra promoção aqui não existe', porque “já vendemos mais barato o ano inteiro”.
CONSEQUÊNCIA: o Pingo Doce, no passado, ou estava enganado ou mentiu aos clientes! A campanha realizada no dia 1 de Maio é ostensivamente contrária às mensagens que o hipermercado sempre veiculara junto da sua clientela.
2 - VERDADE: no dia 31 de Dezembro de 2011, a família Soares dos Santos, que controla o Grupo Jerónimo Martins (dono da cadeia Pingo Doce), mudou a sede da sua holding para a Holanda, país que tem um tratamento fiscal mais favorável. Isto significou que os impostos sobre os lucros gerados passarão a ser pagos neste país (Holanda). No dia 1 de Maio, na televisão, um dos Directores do Pingo Doce, Luís Araújo, afirmou que a operação de vendas com desconto de 50% fora motivada pelo desejo de ajudar os consumidores e cidadãos num momento em que tanto precisam.
CONSEQUÊNCIA: o Pingo Doce, se quer tanto ajudar o nosso país, atentos os momentos de dificuldade que estamos a viver, que volte a deslocar a sede do grupo empresarial para Portugal, aqui pagando os impostos, nomeadamente aqueles que forem devidos por eventuais lucros resultantes das vendas maciças da passada 3ª-feira… Recomenda-se coerência!
3 - VERDADE: no final do mês de Abril, o Governo criou uma taxa a aplicar aos estabelecimentos de comércio alimentar (grandes superfícies), destinada a financiar um fundo sanitário e de segurança alimentar. O Grupo Jerónimo Martins reagiu contra a medida, considerando uma medida “injustificada, inoportuna e socialmente injusta', referindo que “será sobre o consumidor final que esta taxa acabará por incidir também, por via indirecta, na medida em que os preços não poderão deixar de reflectir o impacto económico desta medida”. CONSEQUÊNCIA: a capacidade financeira mostrada pelo Grupo empresarial para conseguir reduzir margens de lucro, caso contrário não teria promovido uma tão agressiva campanha de descontos, é a prova de que a grande distribuição tem meios para suportar a nova taxa criada.
4 - VERDADE: o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) emitira um pré-aviso de greve para o dia 1 de Maio, para que os funcionários dos hipermercados pudessem comemorar o feriado, aproveitando para acusar os hipermercados de ameaçarem os funcionários que não fossem trabalhar no feriado.
CONSEQUÊNCIA: o Pingo Doce ganhou o braço de ferro feito com os sindicatos! Os seus trabalhadores sentiram-se desmotivados a usar do direito à greve, face à anunciada campanha promocional e ao interesse (irrecusável!) que provocou nos consumidores, optando aqueles por trabalhar, num dia ainda mais penoso, no meio do caos generalizado, filas e incidentes de toda a ordem.
5 - VERDADE: os portugueses, que vivem a contar os tostões, obrigados a gerir apertadíssimos orçamentos, correram em massa para o Pingo Doce no 1º de Maio, enchendo as suas dispensas como há muito tempo não o faziam.
CONSEQUÊNCIA: e quando se fizerem as contas, será que se poupou verdadeiramente? Ou, como pode acontecer, quando se fazem compras por impulso, será que se gastou o que não se podia e no que não se devia? O consumismo em excesso traz inevitavelmente alienação e erro.
O jogo termina aqui, podendo cada um de vós lançar novos dados. No final, poderemos obter o retrato do estado de um país. Um país com medo, sem dúvida. Mas, por outro lado, um país que parece não ter aprendido com alguns erros do passado e que facilmente cai na tentação… Um país em que a falta de honestidade intelectual continua a reinar; um país em que o desespero de muitos é utilizado por alguns em proveito próprio. Não é este o país queremos e que merecemos ser.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

19 Dezembro 2018

Parabéns ao IPCA

18 Dezembro 2018

O seu a seu dono!

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.