Correio do Minho

Braga,

'Viagem Braga-Chaves em 1949'

Antecedentes… (parte II)

Conta o Leitor

2013-07-07 às 06h00

Escritor

Narciso Alves Pires

A estrada Braga-Chaves era naquele tempo um verdadeiro martírio de curvas, poeira e buracos. Nalguns pontos mesmo, a condução tinha que ser bastante cuidada, pois o bordo exterior da estrada aluía com facilidade sob o peso dos veículos e o espectáculo à altura daquelas ravinas e barrancos, conquanto de grande beleza, não era muito tranquilizador.

Percurso moroso e arrastado, embora de raras paragens, proporcionava apesar de todas as incomodidades, paisagens extraordinárias. Desde os píncaros agressivos do Gerês, até ao bucolismo dos ribeiros e fios de água, deslizando docemente centenas de metros abaixo, a paisagem ora nos surgia empolgante, ora se apresentava melancólica e quase chocante na sua pureza.

Trepidante, a camioneta ruminava os quilómetros, deixando ver de longe em longe as ruínas de qualquer casebre, umas vezes por outras uma capelinha perdida num cerro, raramente uma povoação. Povoação onde a passagem da ‘carreira’, embora todos os dias repetida, parecia assumir um ar de acontecimento e novidade misteriosa. A verdade é que o espanto e a surpresa maiores eram dos passageiros, vindos de longes terras, perante as estranhas casas e lugares que se lhe iam deparando.

Os próprios tipos humanos, angulosos e primitivos, como que talhados em madeira escura e rija, sugeriam figuras da Idade Média. Depois também, os trajos, as alfaias, o descuido da apresentação, o tosco das casas, tudo contribuía para nos sentirmos noutra época e noutro mundo.

Indiferente a tudo isto, a camioneta arrancava e lá seguia perante o ar pasmado de uns e vagamente suspeitoso de outros, até que, quilómetros além, se nos deparava um quadro igual.
Claro que para a maior parte dos passageiros, os sítios, as pessoas e as coisas por que passávamos, eram vulgares, uniformes e chatamente vistos, enquanto para outros, - e também para mim, cujas recordações de infância o tempo tinha delido -, tudo era estranho e invulgar, mesmo surpreendente.

Assim, enquanto uns se iam afazendo àquelas realidades, tentando aprofundar-lhe as razões e esforçando-se por compreendê-las, outros, demonstrando uma indiferença pesada, mal deixavam deslizar sobre a paisagem, as pessoas e as coisas, um olho baço e desprendido, do mais absoluto desinteresse.

A estes últimos, obviamente pessoas daqueles termos ou que por ali passavam com frequência, nada os impressionava o primitivismo das gentes, o aspecto rudimentar das casas, ou as fugidias cenas entrevistas.
Estranho deveria eu parecer-lhes, com o meu fato de citadino, a gravata garrida, os sapatos luzentes.

Entretanto cada volta da estrada era como nova cena de um filme, horizontes cada vez mais amplos, aqui e além uma capela numa lomba, uma ou duas vacas tasquinhando num monte, uma ou outra fonte de chafurdo marginando o caminho.

E de vez em quando, repentinamente, o salto brusco das águas sob as pontes que atravessávamos, o sol reflectindo-se, as pedras externas falando de um passado remoto.
Do Minho para Trás os Montes as terras iam pouco a pouco perdendo o seu revestimento frondoso e verde, mostrando-se cada vez mais nuas, até finalmente parecerem apenas um conjunto ciclópico de arestas, picos e rochas.

Foi num cenário destes que atingimos a barragem da Venda Nova, então em fase de acabamento, e onde, quase ao lume da água se descortinavam ainda as casas submersas da antiga povoação.
Como era impressionante e comovente, no silêncio apenas quebrado pelo ruído da camioneta, aperceber sob as águas claras as paredes ainda erguidas daquelas casas que durante séculos haviam sido o lar de alguém!

Entretanto iam-se-nos deparando algumas povoações mais, quase todas de pouca importância, exceptuando talvez Vila da Ponte, terra onde muitos anos antes eu tomara com minha avó a camioneta para Braga, de regresso da minha primeira viagem.
Também aí uma saudade pungente me assaltou, ao recordar essa primeira viagem, o largo então circundado de árvores, agora desaparecido, todos esses momentos da infância distante em que um pequeno eu assombrado tinha ainda uma avó, a sua avó que se fora!

Enfim, chegava-se ao Barracão após cerca de cinco horas de viagem, depois de respirar e engolir o pó levantados pelo rodado da camioneta no seu percurso de pouco mais de cem quilómetros.
No Barracão, decerto antiga estação da mala-posta, havia ainda que mudar para outra camioneta que faria a ligação a Montalegre, 12 quilómetros além, enquanto aquela seguia a caminho de Chaves, destino último da viagem.

Com ela seguia a maior parte dos que até ali me haviam sido companheiros de viagem, uns olhando com ar curioso, outros nem por isso. No fundo éramos para eles aquilo que todos os outros deixados ao longo do percurso haviam sido para nós - minúsculos fragmentos que o rio da vida arrastava e dispersava para diferentes e talvez nunca mais encontrados destinos.

(escrito algures nos anos 80)

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