Correio do Minho

Braga, terça-feira

Viagem

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2014-07-29 às 06h00

Escritor

Susana Campos

Era dia 2 de junho de 2012, data da viagem que pretendo que permaneça na memória.
Levantei-me cedo. Dormi à pressa. Queria ser a primeira na bilheteira antes que os bilhetes esgotassem. Como poderiam esgotar, o dia 02 que não poderia ser importante para todos! Seria demasiada a coincidência. Mesmo assim preparei tudo com muito cuidado para nada falhar.
Abri o armário, mil cores saltaram mas nada agradou ao primeiro olhar, a minha ânsia infinita toldava a escolha.
Puxei, puxei peça por peça ao ponto de ficar rodeada das cores, os pés tapados, quentes tentavam soltar-se delas.

Observava o arco-íris formado em mim. Vermelho, cor que me agrada, azul cor do mar. Para calçar, escolhi umas sandálias práticas, sem grande altura.
Arrumei tão cuidadosamente a chave do carro, que não a encontrava. Lembrei-me de todos os detalhes passados no dia anterior mas nenhum detalhe me conduzia ao passado.
Na cozinha, consegui elevar uma maçã até aos lábios sem baton e ao som de uma dentada observo a chave mesmo em cima da mesa.
- Bom diaaaaaaaaa!!! - dizia eu à vizinha que espantada tentava saber o meu destino. Entrei no meu bólide, fiel amigo e liguei o rádio procurando a música adequada ao momento. Muse!! Pode ficar... e em rumo à estação, sigo as flores na berma da estrada, sigo o sol que me orienta o caminho, sigo sorrindo, para mim.

Os vidros abertos permitiam que o vento soprasse no meu cabelo encaracolado que ao mesmo tempo fugia pela janela fazendo cócegas no rosto.
Tudo era perfeito!
Como era cedo, consegui o melhor estacionamento do parque. Óptimo. Como todos os dias o meu amigo iria permanecer naquele local, por isso o considerava tão especial.
Rumo à estação saltitava nos carris, avistei a entrada para a bilheteira e num salto só dirigi-me com um Bommmmm Diaaaaaaa!!! bem disposto?? ao funcionário que tinha cara de poucos amigos. Queria contagiar todos com a minha alegria.

Sou assim!!!!. Pedi um bilhete perto da janela e na primeira carruagem (como se chegasse mais depressa) no Alfa das 09.00 horas.
Era cedo ainda, o relógio de ponteiros grandes situado mesmo na entrada da estação, marcava 08.00. O funcionário sorriu, olhou-me de perfil dizendo:
- Sim menina, percebi tudo mas qual o destino????

Confusa.... sorri. Como todos poderiam saber o destino? isso não estava escrito nos meus lábios, sorriso, na pele. A ânsia sim, a saudade, a alegria que transbordava pelos poros.
- Desculpe, o meu destino é o lugar mais belo, onde posso correr livremente sem preconceitos, de braços abertos abraçando o vento, onde posso dormir com os pássaros e a lua. Onde os meus olhos brilham mais. E o céu é mais azul. Onde posso abrir as janelas e admirar o infinito.
- Sim menina e esse paraíso existe?
- Existe no meu coração e numa aldeia perto do sol. Idanha-a-Nova. Onde o verde sabe a verde e as luzes parecem pirilampos.
- Aqui está, retorquio o funcionário.

Os minutos pareciam anos, a saudade apertava no peito. Até acho que se, as pessoas estivessem atentas, o conseguiriam ouvir.
Olhei o relógio inúmeras vezes. Ficava bem permanecer quieta, mostrar um ar adequado à minha idade.
Soltei-me da cadeira, li e re-li as entrelinhas dos posters colocados nas janelas e paredes. Mexi no telemóvel, fui ao facebook dizer um olá, modernices.... Telefonei a algumas amigas como se estivesse a despedir por muitos dias. Estava feliz!!!.

A hora chegou, toda tremia ao ponto de a camisola vermelha sair do lugar. Ajeitei-a, puxei as calças e subi para a carruagem, a primeira e com o lugar à janela, como havia recomendado.
Os sonhos voavam como um filme a rebobinar através do pulsar de mim.
Estava um dia lindo, o sol abraçava-me pela vidraça, as nuvens haviam recolhido e os pássaros voam parados pela imensa velocidade como que se fosse a vida a correr.
Os campos soltavam-se, as árvores pequenas diziam-me adeus, as letras nos muros fugiam, não conseguindo ler e os desenhos não se percebiam mas já sentia o perfume das flores dentro de mim.

Tentei dormir juntinho à cadeira colocando a cabeça, junto ao sol, acalmando as veias pulsantes, o amor, o abraço que teimava em sair. Tentava acalmar os meus olhos e as pestanas já cansadas, batiam nas lentes dos óculos escuros e cuidadosamente escolhidos. Fechei os olhos e com um ouvido à escuta, o tempo ia passando.
Faltavam 5 minutos, fui para a porta, os meus olhos fitavam as janelas, ajeitei a camisola vermelha enrugada, puxei as calças, e permaneci na porta na tentativa de ser a primeira a sair e a primeira a chegar.

Para te conseguir ver, como se soubesse que roupa trazias, como se soubesse o teu perfume, como se soubesse o cheiro do teu abraço.
Como se.... Saltei os degraus num só, olhei, olhei e a estação ia ficando cheia.
Bati o pé firmemente, rodei-o fazendo com que o corpo o acompanhasse. O teu perfume, as tuas mãos, a tua face, os teus olhos saltavam da minha mente, o azul de céu estava mais encantador, o sol forte abraçava-me firmemente mostrando a sua perseverança que só ali, eu sentia.
Sinto um toque, um calor diferente, um sussurro, um suspiro no meu ouvido, um perfume!!!! Sonhava ou eras tu!!!!

Virei tão depressa que bati com o meu nariz no teu. Teus lábios húmidos colaram-se aos meus, teu cheiro ia-se misturando no meu. Os caracóis tapavam os teus braços fortes, morenos, lindos. Em pontas dos pés puxei-te ainda mais para mim, como se fosse a última vez que te via. A batida do coração já se confundia. O calor sugava a nossa pele, as emoções. Olhos nos olhos, almas translucidas em uníssono. Tu e eu. NÓS que sempre fez sentido.
Os teus dedos sobrevoavam o meu corpo mesmo ali, onde todos poderiam observar o nosso reencontro, a nossa paixão, o nosso amor.
Não importava porque era ali era o momento, o local, o toque certo.
O Dia 02 de Junho de 2012 onde o céu era mais azul, onde reencontrei o teu abraço, onde o verde era mais verde. Onde me reencontrei. Onde me senti novamente. Onde me completei.

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