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Vida e Obra de Paulo Freire – Parte III

Caro Professor!

Vida e Obra de Paulo Freire – Parte III

Voz às Escolas

2024-05-22 às 06h00

Maria das Dores Ramos de Passos Silva Maria das Dores Ramos de Passos Silva

Carlos Núñez Hurtado considera que o pensamento de Paulo Freire se estrutura em quatro eixos: o seu compromisso ético, o seu compromisso político, o seu marco epistemológico e a sua proposta pedagógica, ou seja, aquilo que consideramos como o seu “método de alfabetização”. É precisamente sobre este último eixo da sua obra que vamos procurar refletir.
Paulo Freire idealizou um método, designado psicossocial, criado especificamente para a educação de adultos, que tinha em linha de conta as vivências e a experiência trazida pelos alfabetizandos, ou seja, a sua “leitura do mundo” com o objetivo de acabar com o analfabetismo e democratizar a sociedade brasileira.
Este método foi inicialmente aplicado nos Círculos de Cultura dos Movimentos de Cultura Popular do Recife, no final dos anos 50 e, só depois, foi utilizado em programas de alfabetização. Os conteúdos não eram os mesmos dos textos utilizados na alfabetização das crianças, nem eram estabelecidos a priori, sem a participação das populações - partia-se da realidade do educando. Assim, a primeira etapa do método consistia na investigação descritiva. Delimitavam a área em que iam trabalhar e procuravam conhecê-la através de fontes secundárias e da integração de voluntários do local (círculo de investigação). Isto proporcionava-lhes um conhecimento do universo vocabular e temático daquela população o que permitia, num primeiro momento, assinalar um grande conjunto de palavras-chave. Posteriormente, escolhiam (voluntários e equipa externa) de quinze a dezoito palavras, atendendo a vários critérios como: a sua riqueza silábica (deveriam ter no conjunto todas as letras do alfabeto), a sua crescente dificuldade fonética e o seu conteúdo prático-existencial. Num segundo momento, designado tematização programática, eram elaboradas as codificações, ou seja, representações de uma situação existencial (gráfico, desenho, foto, etc.) colocando em destaque alguns dos elementos integrantes e a sua relação. Era, então, a fase de conceção e organização do material didático a ser utilizado nas sessões de alfabetização. Este trabalho era também realizado pela equipa externa e os voluntários. Por fim, surgia a problematização pragmática. Constituía-se o Círculo de Cultura, com mais ou menos vinte pessoas, além do coordenador, e fazia-se a apresentação geral do programa de trabalho. Em seguida, a partir da situação existencial retratada pelas fotos ou desenhos, iniciavam-se os diálogos descodificadores. Por descodificação entende-se a análise crítica da situação que está a ser trabalhada, envolvendo a passagem do abstrato ao concreto.
Paulo Freire considerava que os alfabetizandos não deviam aprender pela repetição alienante de palavras, sem qualquer significado para si, mas deviam partir da leitura que faziam do seu mundo para a leitura da palavra, o que os poderia levar para uma nova forma de ver a realidade permitindo-lhes a sua mudança ou transformação.
O diálogo era, para Paulo Freire, essencial em todo este processo. Ele diz-nos que para o humanismo não há outra via senão o diálogo e «o diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos».
Mas esse diálogo não deve ser promovido de cima para baixo, mas deve acontecer numa relação horizontal considerando que «ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo». Embora o saber dos alunos seja o ponto de partida, o professor/animador/coordenador não pode ficar preso a esse conhecimento, mas deve ultrapassá-lo, de forma a possibilitar aos educandos a emersão da realidade, o seu desvelamento, para a sua libertação e posterior participação na transformação da sociedade. Nesta fase «estão alfabetizando-se, politicamente falando». ?

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