Correio do Minho

Braga, terça-feira

'Viemos adorá-lo', por Hercus Santos

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2010-07-07 às 06h00

Escritor

Muito, muito antigamente, tempo na terra de Timor, havia um “dadolin” que se contava de geração em geração, sobre um rei poderoso que iria nascer para governar e salvar todos os homens de qualquer tipo de escravidão. Eis o “dadolin”:

Um rei das Alturas
Todo-poderoso e sagrado
Santo é o seu nome
É Rei de todos os tempos
Faz-se Homem
E que vai descer para governar
Que vai descer para salvar todos os povos
De qualquer tipo de sofrimentos.

Vinde a Ele
Todos os que estais fatigados e oprimidos
Ele vos aliviará.

Quando este Rei vier, não haverá mais ninguém que seja escravizado. Cada homem se restaurará à verdadeira dignidade humana. Não sabemos quem é que começou a contar ou quem é que criou o “dadolin”. Disseram que este “dadolin” já estava escrito quando começou a Criação do Mundo e espalhou-se por todo o território.

Muita gente não dava nenhuma importância a este “dadolin”. Sobretudo os reis que gostavam muito de poder. Eles não queriam que os seus poderes ou as suas boas posições na sociedade fossem substituídos por alguém. Por isso, nos seus reinos eles proibiam toda a gente de falar sobre o “dadolin”. Eles até matavam os que dele falavam.

O povo estava em silêncio e quase se perdeu a vontade de saber novidades sobre o novo Rei. Para o povo, mais valia pensar como é que se ia sustentar a vida e como encher a barriga, do que pensar numa coisa que levaria para a morte.

Entre a multidão que não ligava ao “dadolin”, três reis sábios procuravam saber o sentido daquele poema. Os três reis sábios eram os reis de “Loro Monu”, “Rai Klaran”, e de “Loro Sa’e”.

Os três reis enviaram um dos seus homens em que tinham mais confiança. E, em segredo, percorreram o território de Timor para procurar saber onde e quando é que este grande Rei iria nascer. Depois de um ano, os homens de confiança regressaram para os seus superiores sem nenhuma novidade.

Os três reis mandaram outra vez cada um dos seus melhores guerrilheiros com a ideia de que estes já tinham experiência de guerra e teriam capacidade para procurar uma informação mais concreta e rápida. Antes de os guerrilheiros partirem dos seus reinos, eles fizeram uma cerimónia de “biru”, receberam “malus” do seu “uma lisan” e “huta” nas suas testas com o significado de que eles teriam sucesso na sua missão. Eles procuraram de lugar em lugar, subindo e descendo a montanha, passaram os rios, mas não encontraram nada. Os três guerrilheiros regressaram, então, cada um para o seu reino, sem notícia alguma.

Num suco que ficava longe da cidade, morava um velho “Lia-na’in”. Ele tinha ouvido que três reis estavam á procura de notícias do novo Rei, pois estava escrito no “dadolin” a vinda do novo Rei. O “lia-na’in” não era qualquer “lia-na’in”, mas sim um “lia-na’in” especial. Disseram que descendia do senhor da estrela, da lua, da pedra, da natureza e seria o senhor “aparecido”. Por isso ele tinha um grande poder. Toda a gente sabia bem que o velho “lia-na’in” era então uma pessoa sagrada.

Ele mandou os três homens para a casa dos três reis para informar de que ele estava disposto a ajudar. Os três reis ao saberem desta notícia ficaram muito alegres.

Apesar de terem estudado muito e lerem vários livros, os três reis não descobriam o sentido do “dadolin”; não havia nenhuma explicação nos livros. Os três reis chegaram à conclusão de que a inteligência humana não basta para descobrir o segredo da vida. Mas a experiência da vida é que pode ensinar muitas outras coisas. O “lia-na’in” tinha muita idade. Ele sabia muitas coisas. E por isso é que eles deixaram os seus reinos para o encontrar.

O “lia-na’in” recebeu-os muito bem. Pediu-lhes para se sentarem perto da fogueira onde estavam as coisas sagradas. Depois o “lia-na’in” pôs “bua malus” em cima da pedra sagrada e voltou o olhar para cada um deles e perguntou:

- Os senhores são reis, porque é que ainda querem saber sobre o novo Rei?

Respondeu o rei do “Loro Monu”:

- É verdade. Sou rei do “Loro Monu”. No meu reino há uma gripe que ataca toda a população. Como rei eu tenho a obrigação de cuidar da população.

Disse o rei da “Rai Klaran”:

- No meu reino, morrem muitas pessoas. O povo vai desaparecer.

Queixou-se o rei “Loro Sa’e”:

- As almas lançaram uma maldição sobre o meu reino. A maldição dá-se quando o povo chora e o som não sai. Gritam, choram mas a voz não se ouve.

O velho “lia-na’in” estava então muito assustado ao ouvir as dificuldades dos três reis. Respirou profundamente e disse-lhes:

- Bom. As questões dos senhores são muito complicadas. Esperemos que haja possibilidades de encontrar as soluções. Recebam o “malus” e “bua”, mastiguem e depois dêem-me para eu ver.

Os três reis mastigaram “bua” e “malus” e depois entregaram o “mama” para o “lia-na’in”. O velho “lia-na’in” verificou com muito atenção o “mama” de cada um. Depois de os verificar, ele pô-los em cima da pedra sagrada e disse:

- Vi os vossos três “mama” que indicam o mesmo sinal. Isto é, uma estrela vai indicar-vos o caminho para que possais encontrar o novo Rei. É verdade que só este Rei vai libertar os homens de todos os sofrimentos. E Ele pode também ajudar os vossos reinos. Os “mama” são redondos mas esta parte dos “mama” dos senhores - ele indicou para os “mama” - sobressai. Isso é um sinal de que quando os senhores partirem de casa, vão encontrar imediatamente a estrela.

Vejam! O velho “lia-na’in” põe os “mama” na sua palma e aconselhou: «Três “mama” da mesma cor. Cor vermelha clara, significando que a estrela não é uma estrela qualquer. A estrela que vai guiar os senhores para encontrar o novo Rei é uma estrela mais brilhante do que as outras. Sigam esta estrela; não sigam outra! Levem também os meus presentes para oferecer ao menino.» O velho “lia-na’in” deu um “tais mane”, uma parte de sândalo muito perfumado e um “belak” de ouro.

Depois de receberem os presentes do senhor, nessa mesma noite, os três reis sábios regressaram aos seus reinos. No meio do caminho, assustaram-se por verem uma estrela mais brilhante do que as outras. Eles pensaram logo nas palavras do velho “lia-na’in”. Não perguntando mais nada, seguiram a estrela.

Chegaram a uma colina, no curral dos cabritos, e a estela desapareceu. Espantados, questionaram-se sobre a razão desse misterioso desaparecimento num lugar tão pobre. Será que um grande Rei ia nascer fora da cidade e não num palácio? De repente ouviram a voz do menino chorando. Assustaram-se mais ainda e ficaram com muito medo de que talvez esta voz fosse a voz das almas ou dos fantasmas. Com muita atenção, eles aproximaram-se desta voz.

Entre árvores e ervas em que se escondiam, não tão perto, nem tão longe, eles puderam ver claramente um homem que estava a tapar um menino com fraldas de pano muito delgado, numa área fria como aquela, e o homem pôs o menino numa manjedoura. O menino continuava a chorar. Talvez por causa do frio ou porque ele já previa que a vida humana não o favoreceria.

Um dos três reis que recebeu o “tais-mane” teve compaixão daquele menino. Por isso ele pegou no “tais-mane” e aproximou-se para dá-lo ao pai do menino.

- Tape-o com este “tais-mane”. - exclamou este.

O pai do menino assustou-se muito. Tirou a catana aproximou-se da sua mulher e do seu filho.

- O que é que o senhor quer? - disse o homem com a catana na mão, preparando-se para algum perigo. Os dois reis que estavam escondidos saíram do esconderijo:
- Viemos adorá-lo. - responderam, ajoelhando-se e oferecendo os presentes, um “tais-mane”, uma parte do sândalo muito perfumado e um “belak” de ouro.

- Adorá-lo? - questionou, assustado, o chefe de família, aclamando de seguida. - Não nos façam mal! Eu conheço muito bem os senhores. Os senhores são reis!

- É verdade. Nós já vimos a estrela do seu menino. De acordo com um “lia-na’in”, que nos disse que quando víssemos uma estrela mais brilhante do que as outras, significaria que esta estrela ia guiar-nos para um rei que vem libertar-nos de qualquer tipo de escravidão. Ele vai ajudar-nos e também aos nosso reinos. O nosso reino é deste mundo mas o seu Reino não é deste mundo. Ele é o caminho, a verdade, a vida e o verdadeiro Rei. Por isso viemos adorá-lo.



Dadolin : Poema tradicional de Timor.
Lia-na’in : Ancião que tem como função dirigir a oração em “uma-lisan”.
Biru : Amuleto.
Malus : Folhas de bétel.
Bua : Areca.
Huta : Quando um ancião cospe “mama” na testa de uma pessoa, tem como
objectivo dar-lhe protecção.
Mama : Massa que se faz na boca mastigando folhas de bétel, um pedaço de areca e
um pouco de cal.
Tais-mane : Pano de fabrico tradicional para o homem.
Belak : Medalhão timorense.
Uma-Lisan : Casa sagrada (casa onde se guardam os objectos sagrados).
Loro Monu : Parte oriental de Timor-Leste.
Rai Klaran : Parte central de Timor-Leste.
Loro Sae : Parte Ocidental de Timor-Leste.

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