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Viver na tempestade

As bibliotecas e as leituras no verão

Viver na tempestade

Escreve quem sabe

2022-02-06 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Não pode repetir-se a escrita, não pode o texto de hoje decalcar o de ontem, como um sonho inquietante que regressa, maculando as nossas aspirações. A tais cuidados não se presta a realidade, melhor dizendo, aqueles que a controlam, que impõe a agenda de um urgente ainda que fictício.
Vai para oito anos, florescia o primeiro conflito russo-ucraniano, trouxe a estas crónicas visão minha, espelhando simpatias a Leste, deplorando desavenças entre russos e ucranianos, cisão que me parecia espúria. Que ganhariam ucranianos a Ocidente, que mais não perdessem de caminho com divórcio de irmãos?
Bem sei que tensões houve, que parte não negligenciável de ucranianos ficou lado dos Brancos, nesses idos da revolução bolchevique, que fomes mortais tiveram lugar. Sim, tanto foi o que houve, convindo que se reconte e não esqueça, mas o que me confunde é que de alemães não se cobrem vergonhas na proporção das infâmias que protagonizaram.

Estrutural assimetria em que o papel odioso recai sempre sobre os mesmos ombros. Entrevistado pelo Figaro, dizia Scholz, a semana passada, que errara a Europa ao não aceitar a parceria proposta por Putin na entrada deste século. Sim? E se revertêssemos o erro?
Como refiro, não quero alongar-me em repetições, valha por isso a conclusão andadeira de que a Rússia é execrada ainda de antes do comunismo. Passou o sarampo, e execranda continuou, porque constituíssem uma máfia sombria. Depois foram os plutocratas. Depois foi Putin, e continua, mais os ciberataques, e eu só não entendo como é que os ases de cá não batem os valetes de lá, ou não é do nosso lado que está a inovação, a ciência de ponta?
E eis que os russos invadem a Ucrânia, ou a tal se preparam. Bélico horror e admoestações a horas certas. Todo um continente suspenso de desvario quase procurado, quase provocado. Que sabe o Ocidente da constituição territorial da Ucrânia? Que sabe o Ocidente do deixar-correr de russos face a ucranianos, em tempo de mandato de Krustchiov? A quais, dos useiros de comentário de cartilha, soam familiares os conceitos de Malorrosiya e Novorrossiya?

Serve-nos a História do que nos adita e do que com aversão jogamos para debaixo da mesa. Imaginamo-nos santos, ou beatos, na medida em que outros demonizamos, guardando em armário alheio os nossos piores fatos. Quem abdica de razões, em querela em que cada contendor tira para si? Até quando, ou até onde, espera o Ocidente que a Rússia se retraia de boa cara?
Seja eu ingénuo, veja eu pomba pacífica em corvo russo, seja eu maledicente, veja eu abutre carniceiro em gaiato pica-pau americano, mas onde estão esses elementos documentais de concentração extraordinária de tropas russas e maquinaria junto às linhas de fronteira? Vejamos, não se ufanam os americanos de possuir tecnologia de último grito em vigilância de satélite? Não dispõem de olhos de águia de longuíssimo alcance? Alguma vez se coibiria o estado-maior da Nato de chapar na imprensa o que tivesse e deixasse russos de mentira colada nos lábios? Farão uns bluff, anunciando manobras que não executam, e outros bluff dobrado, dizendo ver em massa o que releva da consistência das brumas?

Vivemos uma fábula de mau gosto. Ninguém acredita numa guerra, e menos ainda na capacidade americana de intervir vitoriosamente, ou não foi essa superpotência que saiu de rabo entre as pernas ainda há dias? A menos que a agitação militar, com o seu cortejo de mortos e destruição, aproveite a quem a fomenta longe de portas. Só que desta vez será mesmo à nossa porta.
Por mor de correntes de ar, e se batêssemos uma porta?

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