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Vozes em Saúde

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Vozes em Saúde

Escreve quem sabe

2025-01-14 às 06h00

Analisa Candeias Analisa Candeias

Há uns dias surgiu uma crónica no jornal Expresso acerca das horas extraordinárias dos médicos e que, de forma pouco natural, forçada até, envolveu enfermeiros. Ora, o cronista deve ser desculpado, tendo em conta o nível de ignorância (ou discriminação?) que apresentou em relação a estes profissionais de saúde. Quero acreditar que o que Henrique Raposo se esqueceu diz respeito a uma questão de ausência de educação e formação pessoal. E visto que é uma opinião, mais se deve desculpar por motivos de incompreensão e ainda tendo em conta que é apenas uma voz – embora fique um pouco mal este serviço ao jornal que a apresentou.
Talvez a voz de Henrique Raposo seja o espelho daquilo que pensam muitos dos portugueses, essa ideia de que, para se ser um bom trabalhador ou um bom profissional, é necessário passar (muito) para além das horas de trabalho que se encontram estipuladas. Não sei bem de onde vem esta herança, que por vezes se faz tão portuguesa, porém, na verdade, nem um bom trabalhador se cumpre em horas extraordinárias, tampouco se desenvolvem competências através de cansaço ou exaustão. E é exatamente isso que os profissionais de saúde apresentam, sintomas tão agressivos de fadiga que, frequentemente, chegam ao ponto de questionar se aquela profissão que escolheram ainda faz sentido.
O que é certo é que existe uma ausência severa de profissionais nas nossas unidades de saúde. Não é uma questão de competência, mas sim de número – chegamos, neste momento, a este ponto. Não se justifica que um enfermeiro apresente, sob a sua responsabilidade, dez doentes numa manhã, que envolve não só cuidados ao próprio doente como uma atenção especial à família do mesmo. Não se justifica que um médico tenha de passar doze horas num hospital de forma a acompanhar todos os doentes por quem está responsável, num dia normal de trabalho, quando o seu horário diz respeito apenas a oito horas diárias, por exemplo. Não se justifica que, na comunidade, não existam consultas médicas disponíveis e que os enfermeiros tenham de realizar domicílios nas suas horas vagas (que muitas vezes dizem respeito a horas devidas e legais de pausa). Nada disto se justifica.
No que concerne à minha profissão, a enfermagem, posso afirmar que é uma profissão da área da saúde que se dedica ao cuidado integral do ser humano em todas as fases da vida. Um dos objetivos principais dos enfermeiros passa por promover a saúde, além de prevenir a doença e aliviar o sofrimento das pessoas. É uma profissão essencial no universo da saúde, sendo exercida em diferentes contextos, desde o sistema público ao privado. Não é uma profissão de saúde estabelecida à toa, ou que consiste apenas, para o seu desenvolvimento, em ter menos galões que outro colega desta área: os enfermeiros são peças basilares para a saúde, particularmente para a saúde portuguesa, e devem sentir-se orgulhosos da sua formação e do seu conhecimento. Não creio que, ao longo dos anos, tenham sido valorizados, e esta opinião que se fez ouvir num jornal de renome do país veio atingir os enfermeiros na sua dignidade. Obviamente que essa opinião não era dirigida, de forma específica, aos enfermeiros, porém, afetou-nos de forma semelhante. Mais, também nos encontramos solidários com os nossos colegas médicos, que nos acompanham na missão de proteger e alavancar a saúde dos nossos cidadãos.
Penso que, acima de tudo, deve existir respeito naquilo que se escreve ou naquilo que se afirma. Não vejo razão para que os profissionais de saúde apresentem a obrigação moral de realizar horas extraordinárias (muitas vezes que não são pagas), nem vejo motivos para que o desenvolvimento de competências sólidas se faça à custa dessas mesmas horas. Se, por um lado, é verdade que quem escolhe a área da saúde deve apresentar uma tendência pessoal para a dedicação aos outros (mas não de forma escrava e subserviente), também é verdade, por outro lado, que quem se encontra nesta área deve ser respeitado e valorizado, não só devido à formação complexa que desenvolve, todavia, igualmente devido à escolha de vida que realizou, e que passa por cuidar de outro ser humano.
Todos sabemos que algumas vozes não chegam aos céus, e ainda bem que assim é. Confio no discernimento geral dos nossos cidadãos para valorizar o Sistema Nacional de Saúde e as competências dos profissionais que aí se encontram a desenvolver funções. Aliás, confio ainda mais na sua advocacia, visto que todos têm vindo a compreender que trabalhadores sobrecarregados e exaustos, em particular no âmbito da saúde, não serão uma mais-valia para cuidar seja de quem for.
Por último, e porque é necessário cada vez mais um incentivo, convoco todos os cidadãos a defender os «seus» profissionais de saúde, pedindo que as horas extraordinárias terminem e que os galões fiquem, somente, pelo espaço do café.

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