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Westworld: um dispositivo de experimentação moral?

Beco sem saída

Ideias

2016-12-09 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Passou no canal TVCine & Séries, a 4 de dezembro, o 10º e derradeiro episódio da muito filosófica Westworld (Mundo do Oeste), sabendo-se já - boas notícias para os fãs desta série de culto! - que terá uma segunda temporada em 2018.

O enredo cinge-se ao seguinte: num parque de diversões altamente tecnológico, onde o velho Oeste é recriado, habitado por androides, isto é, robôs que exibem tanto aspeto como comportamento humanos - chamados “anfitriões” (hosts) - indivíduos com carteiras bem recheadas - ditos “recém-chegados” (newcomers) ou “hóspedes” (guests) - podem fazer o que bem lhes apetecer sem temerem qualquer represália da parte daqueles.

Na verdade, trata-se de um remake, levado a cabo por Jonathan Nolan e Lisa Joy, da versão original, com o mesmo título, redigida e produzida pelo popularíssimo escritor de ficção científica estadunidense Michael Crichton em 1973. Mas os seus argumentistas introduziram originalidade: mudaram o ponto de vista dos humanos para o dos androides; são estes últimos que inquirem sobre a sua condição de não humanos e, eo ipso, sobre o que nós supostamente temos que a eles lhes falta para alcandorarem idêntico estatuto e dignidade, sobre o que é ser humano de um ponto de vista não humano.

A série funciona, pois, como uma notável “experiência de pensamento”, um modo de fazer uso da imaginação para inquirir sobre a natureza das coisas, neste caso, sobre o significado do humano, sobre a consciência como necessário requisito antropológico e sobre a dupla raiz - instintivamente dominadora e violenta e intencionalmente (auto)controlável e compassiva - da conduta moral.

Parece-me, contudo, que são sobretudo questões do último tipo referido que tornam especialmente apelativa a ficção Westworld. Ela instancia, desde logo, nalgum modo, o célebre dilema enfrentado pelo pastor Giges (Platão, República, 395d-360d) a partir do momento em que achou o anel que lhe conferia o poder de permanecer invisível. Teríamos comportamentos eticamente reprováveis - e.g., matar, roubar - se estivéssemos seguros de não sermos identificados como seus autores? No imaginado parque temático hi-tech o problema apresenta-se de outro modo: se presu- mirmos que a sua população de androides não pertence à categoria do humano mas a outra supostamente inferior, de tal modo que genuinamente não possa ter sofrimento físico ou psíquico, ainda que o consiga simular de forma incrivelmente persuasiva, teríamos a coragem de maltratá-la?

Coloco o assunto em termos desta virtude (intelectual e prática) porque suponho que para tomarmos uma tal decisão teríamos de estar completamente confiantes, para além de qualquer dúvida razoável, de que nenhuma espécie de consciência e de capacitação para o sofrimento evoluíram em tais entes artificiais. Isso, porém, pressupõe dispormos de critérios de demarcação (teórico-empíricos) absolutos para consciência e não consciência, para sofrimento e não sofrimento, para humano e não humano, algo que, de todo em todo, acontece.

Mas, se um tal recinto tão tecnologicamente sofisticado vier realmente a existir, será um potencial laboratório de psicologia moral, onde experimentos sobre as nossas motivações, propensões, sensibilidades e judicações morais, seja no plano individual ou no coletivo, poderão não somente aumentar a nossa compreensão sobre a natureza, a estrutura e a dinâmica da conduta ética, como conferir-nos o inquietante poder de prever com bom grau de certeza se e quando vamos comportar-nos de modo eticamente correto.

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