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Ideias

2019-01-22 às 06h00

João Marques João Marques

Uma “win-win situation” é, nos dizeres anglo-saxónicos, uma situação em que todos os envolvidos ganham com o desenlace. No caso do PSD, que esteve recentemente nos holofotes mediáticos pela quase-disputa interna ocorrida entre duas das mais notáveis figuras do partido, julgo que me perdoarão o recurso ao estrangeirismo. É que, como muitas vezes sucede na língua inglesa, a extraordinária capacidade de sintetizar realidades complexas em fórmulas simples ultrapassa largamente a melhor flexibilidade do português, ou, até, de qualquer parente latina.

Linguística à parte, o que mais importante deve ser realçado é o claro robustecimento que o “partido mais português de Portugal” acabou por amealhar com o breve tumulto em que se viu envolvido. Podemos concordar ou discordar do tempo, do modo ou do conteúdo da interjeição desafiadora de Luís Montenegro. O que se não pode deixar de lhe reconhecer é o capital político de trazer o PSD para a ribalta da refrega partidária em Portugal.
Em boa verdade, e olhando para a trajetória das sondagens, o partido parecia correr, “fermos[o] e não segur[o]”, para a foz de uma dura derrota. Não vale a pena discutirmos a sanidade ou insanidade da utilização das sondagens como método de aferição da proposta eleitoral de cada partido. Enquanto não arranjarem um melhor, as sondagens são, para o bem e para o mal, o único indicador com alguma solidez que permite, na política, perceber até quando e até quanto consegue penetrar a mensagem no eleitorado. Se assim não fosse, os partidos seguramente não seriam o maior consumidor nacional deste tipo de operações estatísticas.

Mas, ainda que se quisesse discutir a relevância das sondagens como “instrumento de trabalho” preferencial no mundo da política e dos políticos, outro fator conjugava-se com este para determinar a perceção existente no país de que “o PSD, assim, não ia lá”. Já nos idos de 2004, o ex-militante do PSD, ou melhor, do PPD/PSD, Santana Lopes, titulava a sua obra, seguramente nascida da incubadora, “Percepção e Realidade”. O que o autor tentava aí explicar ao povo português, e com bastante razão, diga-se, é que, em política, uma coisa é a perceção que temos sobre um dado acontecimento ou circunstância e uma outra, porventura bem diferente e nada coincidente, é a realidade do que verdadeiramente se passou. E o facto é que, na vida pública, raras vezes a realidade prevalece sobre a perceção.

Creditando a dicotomia santanista, qualquer militante do PSD parecia antever que o caminho encetado até há poucas semanas, não parecia ser o mais capaz de destronar António Costa e o PS do poder. O sentimento que existia resumia-se à “dúvida metódica” sobre a qualidade da maioria que este binómio atingiria nas legislativas deste ano: relativa ou absoluta? Ou seja, as sondagens (repetidamente negativas) e a estratégia (incompreendida) acabam por surgir como legitimadoras do avanço de Montenegro.

A clarificação surgida do Conselho Nacional permitiu a Rio assentar duas verdades (in)convenientes: por um lado manteve a intacto o dogma de que presidente do PSD não perde conselhos nacionais; por outro fortificou o seu mantra (preferido, digo eu) de que Rui Rio não perde nenhuma eleição onde se mete. Pelo caminho, ainda foi possível dar a ideia de que hoje, face à diferença de votos entre os Conselheiros Nacionais que apoiavam a sua continuidade e os demais, o PSD deseja Rio mais do que há um ano atrás.
Para o partido sobraram (bons) despojos da guerra não consumada entre os dois protagonistas. Desde logo, ficou-se a saber que Rio não só tem como está a implementar uma estratégia política com os passos bem definidos. A fase dos acordos terminou. A fase da alternativa está aí.

Além do ganho mediático incontestável, o “gigante adormecido”, como Luís Montenegro o apelidou, acordou e tomou o lugar central do palco político nacional. Nem Barnier, nem a saída do Reino Unido da UE desviaram o foco gravitacional das câmaras de televisão da entrada de um “não-acontecimento”, como o foi o Conselho Nacional do PSD.
Digo “não-acontecimento” simplesmente porque, com exceção da intervenção inicial do líder, ninguém assistiu, em direto ou diferido, à ação ou ações dos presentes. Diz, quem lá esteve, que merecia transmissão em sinal aberto. Pela luta, pelos excessos, mas também pelas reconciliações, pelos discursos, pelas interpretações jurídicas, pelos amuos e alegrias e, como não pode deixar de ser, pelo desfecho.

Igualmente positivo, para o PSD, é saber que conta com um leque admirável de gente capaz, corajosa e disponível para a difícil tarefa de o liderar.
Agora sobrará tornar a energia cinética acumulada do atrito político (ultra)passado no motor da esperada e futura vitória eleitoral de outubro.
Há, pois, que ser um rio e não um riacho. E já se sabe, um rio é tanto maior quanto mais afluentes nele convergirem.

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