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A normalidade possível no meio do caos
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A normalidade possível no meio do caos

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A normalidade possível no meio do caos

Entrevistas

2021-02-21 às 06h00

Patrícia Sousa Patrícia Sousa

Casas transformaram-se em salas de aula e escritórios. Gerir casa, trabalho e escola não é fácil. O caos instala-se quando se fala em famílias numerosas, mas todas preferem ter os filhos em casa nesta fase. Famílias vão encontrando estratégias.

“Mamã, mamã. Olha!”, “Pai, pai, preciso da tua ajuda!”, “Como é que eu ligo isto?”. Estas são apenas algumas das “normais e constantes” interrupções que os pais, que estão em teletrabalho com filhos a ter aulas em casa, têm diariamente. As casas foram transformados em salas de aula e escritórios e quando falamos em famílias numerosas o caos é a palavra de ordem.
“Vivemos a normalidade do caos. Já nos habituamos ao caos. Não é fácil, porque estamos constantemente a ser interrompidos”, confidenciou Filipe Silva, que tem três filhos em idade escolar e conciliar os papéis de pai, professor e trabalhador “tem sido muito difícil e obriga a fazer um terceiro turno à noite para compensar o trabalho”. Apesar do caos, dadas as circunstâncias, Filipe prefere ter os filhos em casa. “Não estávamos sossegados. Quando vieram para casa ficamos tranquilos”, confessou.

O informático está em teletrabalho desde Março do ano passado e a esposa, Ana Silva, é psicóloga e está em regime misto.
O mais difícil de gerir é mesmo a constante interrupção dos mais novos. “Às vezes estou a falar com um cliente e eles começam de repente a falar ou então a chamar por mim e lá desligo rápido o som do telefone. O problema não é só as actividades da escola é também o dia a dia deles. Têm fome ou o mais novo vai à casa de banho e precisa de ajuda”, exemplificou.
O casal confirma o horário de todos no dia anterior, mas Filipe confessa: “acabamos por gerir as situações na hora”. Até porque, o filho mais novo está na pré-escola e com actividades e isso “exige muito dos pais”, porque além das videochamadas as actividades implicam o apoio dos pais.

O casal tem “a sorte” de ter condições e a parte de baixo da casa foi transformada numa espécie de ginásio. “Todos os dias, no final das aulas, vamos fazer exercício físico. Eles têm muita energia e precisam de tirar o computador da frente”, justificou.
Em casa está “completamente proibido” ligar a televisão à hora das refeições. “Eles percebem o que se passa, mas limitamos a informação”, admitiu.

Sandra Correia é médica de Medicina Interna no Hospital de Braga e, neste momento, está a cuidar de doentes Covid-19 e a fazer urgência no INEM. Com quatro filhos, a médica confessa que é o marido que faz toda a gestão em casa. Em Março do ano passado teve de interromper a licença de maternidade e o gozo de férias para acudir ao início da pandemia. Até hoje. “Praticamente não estou em casa. Saio de manhã e entro à noite. Felizmente os meus filhos são bastante autónomos, gerem muito bem a questão das aulas on-line”, contou Sandra Correia, referindo que o filho de nove anos é que tem de “andar mais em cima, por causa da personalidade dele e para confirmar os trabalhos de casa”.

O filho mais novo, Nicolau de apenas com 15 meses, fica na sogra. Os gémeos de 16 anos, Gustavo e Gabriela, e Henrique, de nove anos, vão tendo o apoio do pai. O marido tem uma empresa de construção e remodelação e vai fazendo o possível de trabalho a partir de casa. “O pai é fantástico. Quando não estamos em confinamento é mais fácil, ele está liberto ao almoço. Mas agora tem que estar sempre a gerir o trabalho, fazer o almoço e lanches, ir levar e buscar o mais novo”, referiu a médica, lamentando não conseguir dar muito apoio por “estar sempre a trabalhar”.
Passado quase um ano a viver este caos, Sandra e o marido Rogério sentem-se cansados e como os filhos estão “muito apegados” aos computadores aproveitam o tempo livre para fazer outras actividades, apesar do tempo não convidar a ir para o exterior da casa.

Casa é agora sala de aula e escritório

A logística de uma família numerosa já obriga diariamente a um plano de gestão e de organização, mas com o confinamento a situação complica-se ainda mais.
Na casa de Márcia Enes não tem sido fácil gerir as lides domésticas com o trabalho e a escola dos três filhos. O marido, técnico desportivo da Câmara Municipal de Braga e treinador de alta competição de desporto adaptado no Sporting de Braga, está em regime misto com horário contínuo, entra às 8 horas e sai às 13 horas e está em teletrabalho durante a tarde.

“No primeiro confinamento foi mais complicado. De repente, os miúdos vieram para casa com aulas à distância, cada um em estabelecimentos diferentes e em níveis escolares diferentes. Tivemos de dominar as plataformas para lhes ensinar a trabalhar e, no início, havia uma grande dependência deles e estavam constantemente a interromper”, contou Márcia, que é psicóloga e trabalha na área social e comunitária, sendo coordenadora de projectos da delegação Norte da OIKOS - Cooperação e Desenvolvimento.

Neste segundo confinamento, o filho João Eduardo, com 12 anos, é “mais autónomo”, sendo que Mariana, de nove anos, “ainda pede ajuda”. Agora acresce o facto do mais pequeno, Lourenço com três anos, ter começado o pré-escolar e também tem aulas on-line, o que quer dizer que se “está sempre a interromper o horário de trabalho”.
Para que tudo funcione, Márcia Enes foi peremptória: “tem que haver uma enorme organização e enorme planeamento. Claro que já estamos habituamos, porque uma família de três filhos já implica isto no dia a da, agora piorou um bocadinho mais”.

O certo é que apesar da organização é “obrigatório haver uma grande flexibilidade e capacidade de adaptação, principalmente da parte dos adultos”.
O filho mais novo “adora” estar em casa e está “super feliz”. Os mais velhos também “não se importam nada de ter aulas em casa”, confidenciou.
Aos adultos é que a ideia de conjugar teletrabalho e aulas on-line é que não agrada tanto. “É uma canseira imensa. Há dias que até estamos bem, mas depois há dias que estamos completamente de rastos, porque nos temos que dividir entre o nosso trabalho, o apoio às aulas e as nossas tarefas domésticas”.

Antes da pandemia, a família tinha ajuda para limpar a casa e passar a ferro. “Agora não temos ninguém para nos ajudar. Eu e o meu marido não temos momentos nossos de lazer e uma simples conversa entre os dois é impossível. No momento que eles vão para a cama dormir é quando eu estou a trabalhar. O nosso tempo de lazer acabou”, confessou Márcia, admitindo que, às vezes, precisava de “um bocadinho de silêncio e descanso”.
Entretanto, já não há distinção entre semana e fim-de-semana, porque Márcia acaba por aproveitar o fim-de-semana para trabalhar. “Isto está tudo baralhado, não tenho horário de trabalho, a minha entidade patronal dá essa flexibilidade, mas se não desse eu nunca conseguiria gerir”, confessou. De repente, continuou a psicóloga, a casa “transformou-se numa escola e num escritório”. “Temos a sensação de caos. Agora está tudo baralhado. Temos uma vontade enorme de estar com amigos e sair de casa, mas com a saturação e esta rotina tão absorvente mais necessidade sentimos”.

O casal já sabia que ter três filhos não seria fácil, muito menos sem retaguarda familiar. Mas optou por o fazer. “Já estamos habituados a tudo que seja levar à escola ou às actividades e se ficarem doentes temos que ficar obrigatoriamente em casa. Agora tudo se complica, porque junta-se a escola e o teletrabalho. Mas o importante é que estamos todos bem e estamos saudáveis”, defendeu.
Também na casa de Tânia Barreto, que tem três filhos, a situação não é muito diferente, sendo que a casa “ganhou outras dimensões”.
Fruto da experiência do primeiro confinamento, Tânia confirmou que este segundo confinamento está a ser “mais exigente”, por isso, todos os dias “é preciso reinventar”.

No outro confinamento, como era tudo novo, o filho mais velhos, Vasco com 14 anos, estava “um bocadinho mais livre e ajudava bastante” as irmãs Leonor, hoje com quatro anos, e a Lara, com dois anos. Neste confinamento “a exigência é maior” para os pais.
Com a filha de quatro anos a ter aulas síncronas a situação complicou-se. “Temos tantos grupos no WhatsApp que me perco”, confessou Tânia, referindo que o filho mais velho estuda e tem os treinos de futebol em casa. Tânia, o marido e as duas filhas mais novas ficam na sala.

O fim-de-semana é para relaxar. “Temos espaço no exterior da casa e eles conseguem correr um bocadinho. Não há horas para almoçar, para acordar, para nada. Não há pressão, temos que cuidar da nossa saúde mental e estamos a exigir-nos muito e precisamos descontrair”, justificou Tânia, referindo que quando as mais filhas pequenas dormem, o casal aproveita para ver um filme e conversar “coisas de adultos”. “Falamos muito e não vemos muitas notícias, só o essencial para estarmos informados. Temos que levantar os braços bem alto, porque ainda nenhum de nós fez sequer teste. Estamos protegidos e estamos juntos. Depois temos internet”, agradeceu Tânia, referindo que todos os dias fazem videochamadas para os familiares.

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