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'A Perdiz e o Sacrifício': 13.º capítulo do livro de José Manuel Cruz
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'A Perdiz e o Sacrifício': 13.º capítulo do livro de José Manuel Cruz

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'A Perdiz e o Sacrifício': 13.º capítulo do livro de José Manuel Cruz

Braga

2021-08-16 às 09h12

Redacção Redacção

Com um novelo percorro o labirinto que me leva para além de mim. Desfio velha linha que de nada me serve, se não posso voltar ao passado. Como podemos nós corrigir o passado no futuro? Não seria melhor corrigi-lo em si, como se nada houvéramos vivido? Primeira página do 13.º capítulo. Todas as semanas aqui pequenas pinceladas literárias deste novo livro que pode ver em breve numa livraria perto de si!

13

Regressados à estrada – sufoco e alívio. Olhos em horizonte aberto, por contraste com pensamento prisioneiro. Reconhecer-me-ei, quando aliviar carga e lastro, quando licenciar equipagem e ao armador devolver confiado navio? De que incertezas padeceria hoje, outro eu sendo, se me tivesse feito ao mar, se de Neiva tivesse subido a Lima, e se da foz de rio de deleitoso esquecimento tivesse eu derivado para Islândias e Terras Novas, à boca de porões ávidos por bacalhau?
Que suplício maior me estará reservado? Que rumo sigo, quem me rascunha destino, entre uma anulação servida e um tudo jamais ambicionado com que me acenam? A quem respondo, no que faço, no que acolho: a Deus, que por sua soberana vontade dispõe, ou a humana criatura que não eu, porquanto vislumbrável vantagem sustente com parcial fundamento em mim? Se na extinção pendente do Carmo não posso eu ver senão a materialização de um desígnio divino, com que chave me permito decifrar elogios que me tecem e promoções que oferecidas me são? Tacanhez minha? Lisonjas que o não sejam? Temo, ou discordo?
Serei o que de mim digo, ou o que de mim calo? Se é no despojamento que me encontro como alma inundada de fé no Altíssimo, se assim me realizo, acreditando satisfazer a vocação em mim infundida, como posso eu ver-me de anel e báculo, entornado por séquito condal, servido e saudado com beijo reverente?
Que me afirmem que dou a parte pelo todo, e que em meus labores me acantono no talhão de menor safra, de mãos nuas, desmerecendo de boas ferramentas e descuidando o mais frugífero. Que recriminado eu seja, em consequência, pelo desacerto da ideia e por elementar erro de lógica.
Que a temível audiência me citem, que desmascarado eu seja por assestar deploravelmente o óculo da introspecção, e que pelo correr desse acto judicioso me demonstrem que uso de luneta inadequada, armada de cristal que diverge e dissipa, quando suposto é que, crescendo, devesse eu ter polido lente em tudo contrária, que raios dispersos tivesse o condão de convergir em clara imagem, bem formada, magnificada.
Digam-me, em julgado imparcial, quanto eu oiça com relutância: mas como posso eu duvidar do que vejo ou julgo ver? Como poderei perceber-me criatura de si descrente, para consigo malquerente?
Como opera a mente do sábio, do iluminado por Deus? Que tratado me dá a resposta? Um que eu escreva, se dos lidos mal me recordo? E lê-lo-ei a tempo? De mim para comigo: se de enviesamentos padece o que construo em terrenos de pura subjectividade, analogamente enviesada não poderá ser, também, a opinião que outrem de mim elabore? Que singular não seja o avaliador externo, bancada eu componha de peritos, com três, cinco ou sete juízes de prestígio: não multiplicarei eu por três, por cinco, por sete, a minha incerteza?
Dilema basilar: como pode guiar, quem aspira a seguir? Como pode decidir, quem em dúvidas fervilha?
Avanço e recuo. Na esperteza das pernas confio para encurtar distâncias. Retomo o dia de ontem, memorizado para revisitação futura.

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