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'A Perdiz e o Sacrifício': 11.º capítulo do livro de José Manuel Cruz
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'A Perdiz e o Sacrifício': 11.º capítulo do livro de José Manuel Cruz

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'A Perdiz e o Sacrifício': 11.º capítulo do livro de José Manuel Cruz

Braga

2021-08-03 às 09h24

Redacção Redacção

O destino é para lá de nós. O destino não nos conhece nem de particular forma nos visa. Nenhum prémio é para nós, salvo pelo particular acaso de o surpreendermos; nenhum padecimento é para nós, salvo se mais não tenha a quem se aliar, surpreendendo-nos. Quem desdenha ou se recusa aprender a nadar em hora de aflição? Todas as semanas aqui pequenas pinceladas literárias deste novo livro que pode ver em breve numa livraria perto de si!

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Que se me oferece? Com quem estou, com que posso eu contar nestes dias sem alinhamento natural nem pauta que os ordene? É certo que estarei em Deus, quaisquer que sejam as circunstâncias, e que n’Ele tenho as minhas esperanças depositadas. Interrogo-me, porém, se as esperanças que acalento não serão as de um martirizado defronte de leão imbuído de insígnias sacerdotais, de fera encarregue de presidir a sacrifício pagão.
Insurjo-me à propriedade do paralelismo que me assalta o espírito, declino a glorificação exorbitante a que me permiti. Ciente estou de que não sucumbirei em suplício de praça, debruado com urros jubilosos de turba insana. Sim, outro é o meu trânsito, e perdoai-me, vós, os esventrados e degolados de ontem, os lapidados, os imolados, os esquartejados, os crucificados: em consciência, como posso eu assimilar-me a vós?
Nova cedência, revisitada vaidade: pior não será a minha sobrevida? Nas tuas fauces sucumbo, leão irmão. Bem sei que sofres, que cativo estás e violentado és, tu mais do que eu. Pudesse eu libertar-te, como tu me liberarias!
Falho na tentativa de me distanciar. Sei, contudo, que não apelo à morte, que por ela não entreteço ânsias, que não aspiro a um fim que evocado me faça, inscrito na História, com entrada em anuário hagiográfico. Não me repitam o que por mim bem sei e que pratico, que tudo o que à morte respeita é contrário ao espírito puro do cristão, embora em dor, vez por outra, clamemos ao Bom Deus que nos exima às estocadas trespassantes do desgosto profundo. Fraquejo e penitencio-me, acreditando ser ouvido e relevado, acreditando ser atendido e consolado.
Aceito a provação, aceito o cálice, embora desquerendo de o levar a lábios. Beberico angustiado, moldo-me ao meu destino, selo-me no sepulcro da revolta. Quero esquecer-me de quem fui, do que pretendi, se me dizem, sem margem para equívoco, que o meu mundo colapsou. Inglória pretensão!
Que a Braga chegue, que os deixe ao cuidado de quem mais possa do que eu: ficarei tranquilo? Não! Como já não o estou. Quero ver a casa erigida nas pedras dispersas, quero ver traves e telhados onde já não há paredes. Conforto-me, digo que nenhum palácio perdura. Sensatez que recua ante um assomo delirante. Enfrento uma legião fantasiosa de demónios escarninhos. Riem-se dos meus votos, apoucam o meu Deus: «Que Deus é o teu – invectivam em coral grego –, se permite que uns pintos-calçudos te declarem abjecto e te expulsem de casa que edificaste em cada irmão que te precedeu? Casa que converterão em patacos, que irmão de ti não tomará para cuidado futuro.»

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