Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Agora, todos os dias parece ser sempre domingo
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Agora, todos os dias parece ser sempre domingo

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Agora, todos os dias parece ser sempre domingo

Entrevistas

2020-04-10 às 06h00

Rui Miguel Graça Rui Miguel Graça

O corre.corre deixou de existir e agora parece que acordamos todos os dias no mesmo dia. No mesmo domingo. Braga é agora caseira e recatada, e esta Quaresma tem sido muito pessoal. A esperança de todos é que em breve a semana volte a ter sete dias...

Agora todos os dias são iguais. Parecem domingos. A Sé está silenciosa. A Rua do Souto também. Gualtar e a sua ilha universitária tornou-se um deserto. Os autocarros dos Transportes Urbanos de Braga passam praticamente vazios. Na rua Cidade do Porto não há a azáfama habitual e Infias deixou de ser um nó. A?Braga multicultural, efervescente assumiu outra postura, outro comportamento. É agora caseira, recatada, com receios, mas também com coragem...
Num clima como o de Abril, altura da quadra pascal, as igrejas estariam em momento de celebrações. Às suas portas estariam senhoras a vender rebuçados (cada vez menos é certo nos últimos anos, aliás em 2019 e ainda neste ano de 2020 apenas se via uma senhora), dando sequência ao ritual do calendário do Lausperene. Começou a 26 de Fevereiro na Sé Primaz a adoração dos fiéis nas inúmeras igrejas de Braga. Estas exibiam adornos florais nas suas tribunais e altares. Seminário, Misericórdia, Penha, Salvador, Santo Adrião, Maximinos, Asilo S. José, S. João de Souto, Terceiros e Ferreiros, Pópulo, São Lázaro, Santa Cruz, Lapa, São Victor, Cividade, São Marcos, Carmo, Congregados, São Vicente, Senhora-a-Branca.

O último dia tinha sido ontem. Quinta-feira. No Instituto Monsenhor Airosa. A Páscoa é já este domingo. A Páscoa ou domingo de ressurreição é um momento de celebração e de reflexão. Ressureição vem do latim ressurrectione que significa levantar, erguer, até porque é o momento em que Jesus Cristo ressurge dos mortos para demonstrar a imortalidade da alma. Esta é e tem sido uma quaresma muito pessoal.
Agora todos os dias são domingos. Não há trotinetes espalhadas e as únicas filas que existem são à porta de supermercados ou farmácias. As estrada e os passeios estão praticamente desertos, a habitual azáfama, o corre- -corre deixou de existir. Não existem filas de trânsito em Braga, as primeiras horas da manhã e as últimas do dia deixaram de ser penosas. Seriam menos em período de férias, mas existiam na mesma. Os hotéis suavam com a recepção aos turistas. A Avenida Central até já convive bem com o sotaque brasileiro, contudo, nesta altura do ano, o castelhano fundia-se no centro de Braga, tal como algumas pitadas de francês, que por vezes os emigrantes trazem consigo do norte da Europa quando estão de visita aos familiares.

O Turismo começou mesmo a ressentir-se antes do estado de emergência. Este ano o cabrito, o pão-de-ló, os folares, o queijo da Serra, as amêndoas e os chocolates terão outros sabores. Os padrinhos receberam os ramos e as lembranças serão oferecidas aos afilhados? Na maior parte em formato virtual...
Agora todos os dias são domingos. As notícias ganharam mais importância na vida de todos. Embora à distância dos afectos comunica-se mais. O tema principal é a Covid-19, mas depois as conversas acabam por fluir para outros temas, outras vivências, histórias passadas e projecções futuras.

Videos chamadas, redes sociais, mas também novos contextos de vizinhança. Na televisão, nas rádios, nos jornais contabilizam-se mortos e casos. Contam-se histórias de infectados, de casos de superação. Os dois pratos da balança têm apenas dois pesos: economia e saúde. Números de mortos, números de infectados e recuperados, números de perdas económicas. Números em Portugal, em Itália, em Espanha, no Brasil, nos EUA. Em todo o mundo.
Num destes dias, o DJ Motinha pôs música a partir de casa. Assisti à live. Na minha rua uns estavam nas limpezas, outros apenas sentados na soleira da porta a ouvir os pássaros. As crianças rabiavam. À distância todos se iam cumprimentando e trocando umas palavras. Mesmo à distância a rua teve mais vida, mais afecto, comparativamente ao corre corre de outros tempos. talvez outras ruas não sejam assim. Nas redes sociais os seguidores pediam hits de outros tempos. Até a icónica música que assinalava o fecho no Sardinha Biba. A música acabou. Mas em breve irá regressar. A semana vai voltar a ter sete dias diferentes. O domingo vai voltar a ser aquele dia que todos esperam. E a Páscoa também...

Luís Mota - Disco-Jockey

“O meu dia a dia pessoal sofreu algumas alterações. Estou sempre em casa e só saio para passear o meu cão, fazer compras para casa e para a minha mãe e se tiver
que levar alguma coisa para o meu pai que está num Lar. Como estou em casa e os vizinhos também, é normal que as pessoas se vejam mais, com mais tempo e se
falem. É também uma forma de passar o tempo e até fortalecer laços!”. “Já a minha vida profissional sofreu uma grande reviravolta pela negativa, pois como sou disco-jockey estou impedido de exercer a minha actividade. No entanto, temos
de aceitar o que estamos a viver e arranjar outras formas de nos entretermos.
Ainda no domingo passado, a pedido de alguns amigos, fiz um live act em discos de vinil através da minha página do Facebook. Quis fazer um ‘remember’
da música que passava no Pacha Teatro. Confesso que não contava, mas e ‘tocou’
de alguma forma às pessoas que assistiram. Digo isto pelas imensas reacções e mensagens que recebi! Fico contente por ter animado tanta gente e trazer-lhes boas recordações”.

Fátima Fernandes - Auxiliar de acção educativa

“O?dia-a-dia não tem sido fácil, quando se tem um filho de 7 anos e não podemos andar na rua. O meu Ruizinho, e como tantos outros, já tem saudades dos amigos, das suas brincadeiras, dos seus treinos do futebol. Criámos novas rotinas, novas formas de estar. Criámos um ‘cinema’ em casa, por exemplo. A nível profissional não estou a trabalhar, porque trabalho numa creche e desde
o dia 16 de Março está fechada. Frequento um ginásio, mas neste momento o máximo que posso fazer é algum exercício em casa. Não tenho comunicado muito com os vizinhos, mas às vezes vemo-nos nas varandas. A minha Páscoa costumava ser em família, mas este ano, naturalmente, não irá haver nos mesmos moldes.”

Alessandro Baptista - Gestor de empresas de Natal (Brasil)

“A minha rotina já era teletrabalho, mas a título pessoal o meu filho Davi, de 3 anos, fica agora em casa o dia todo. Nesse aspecto diminuiu a produtividade e a tranquilidade para trabalhar.
A minha esposa estuda numa Universidade e agora também está em casa. Dantes corria na rua e agora parei completamente. Até as saídas, que à sexta-feira adorávamos ir ao centro de Braga jantar à noite. Agora cozinhamos tudo em casa.Temos visto menos os vizinhos. Moro num apartamento e alguns disseram-me que foram para casas maiores, inclusive até para o Gerês.”


Patrícia Pereira - Desempregada

“Mesmo não estando empregada actualmente, não tinha por hábito ficar sempre fechada em casa, logo fui obrigada a mudar as rotinas. Estar com as pessoas que mais gostamos, praticar desporto ao ar livre, um simples café, ou aquele abraço que tanto gostamos deixou de ser possível. São pequenas coisas, mas que valem muito e que neste momento a humanidade se encontra privada. Como sou não sou natural de Braga, sou de Trás-os-Montes e também tenho parte da família no estrangeiro, o domingo de Páscoa não muda nada em minha casa, contudo será bem diferente a forma como sei vai vivenciar essa semana na cidade de Braga.”

Bruno Rodrigues - Técnico Financeiro

“Trabalho normalmente em Ponte de Lima e deixei de fazer essa deslocação. Agora trabalho de casa. O?meu dia-a-dia agora é em casa, com a minha mulher, que também está a trabalhar de casa, e a minha filha. Faço corrida como hobbie e neste momento estou muito privado disso, mas tive que me resguardar. Tento fazer bicicleta estática e alguns exercícios de musculação em casa. Aliás, as únicas saídas que tenho são idas ao supermercado e apenas uma vez por semana.”

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