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Entrevistas

2018-09-22 às 06h00

José Paulo Silva

O presidente da Associação Comercial de Braga (ACB) posiciona a instituição perante a recente falência da Associação Industrial do Minho (AIMinho). Domingos Macedo Barbosa assume a vontade de alargar o âmbito de representação da ACB, considerando negativo o surgimento de uma nova associação industrial na região.

O presidente da Associação Comercial de Braga (ACB) posiciona a instituição perante a recente falência da Associação Industrial do Minho (AIMinho). Domingos Macedo Barbosa assume a vontade de alargar o âmbito de representação da ACB, considerando negativo o surgimento de uma nova associação industrial na região.

P - Como vê o fim da Associação Industrial do Minho (AIMinho), facto que mexe com o movimento associativo da região?
R - Antes de mais, quero lamentar o que aconteceu à AIMinho, até porque éramos parceiros no âmbito do Conselho Empresarial da Região do Ave e Cávado (CEDRAC). Fazendo fé no comunicado que a comissão executiva da AIMinho emitiu, compreendemos as dificuldades em que estavam envolvidos. Houve questões que contribuíram para um desfecho que não é aquele que seria esperado.

P - Não deixa de ser um alerta ao movimento associativo empresarial…
R - Sim. Veio prevenir-nos de que só podemos contar connosco mesmo. O contexto que envolveu o fecho da AIMinho também teve a ver com a banca e o próprio Estado que não lhe facilitaram a vida em momentos cruciais que não podiam ser adiados. Lamentamos, mas hoje está lançado um desafio, não só à Associação Comercial de Braga (ACB), mas também a todo o movimento empresarial da região. Como empresário e com a responsabilidade institucional de estar à frente de uma associação empresarial tenho de mobilizar e incentivar. A indústria é um sector muito forte na região que necessita de ter uma representação também muito forte, e que neste momento está órfã. Os empresários têm de gerir bem esta situação para termos força reivindicativa.

P - Quando diz que este não é um desafio apenas da ACB, defende um congregar de esforços das várias associações comerciais e industriais da região?
R - As dificuldades que o País viveu acabaram por tocar também às associações empresariais. É de todo o interesse para o movimento associativo empresarial que não estejamos divididos em mais associações, agora que surge esta nova oportunidade. É preciso arranjar uma forma de a ACB ocupar esse espaço. A ACB tem uma marca forte no comércio e serviços, mas podemos entender que as fronteiras com a indústria não são reais. Uma empresa industrial também vende. A ACB pode ser uma associação de comércio e indústria. Temos todo o interesse em que o movimento empresarial da região seja cada vez mais forte e musculado.

Concentrar oferta de um território num só produto não é salutar

P - Está a propor é que as várias associações comerciais e industriais da região se congreguem numa estrutura de âmbito regional?
R - No Ave e Cávado já temos o CEDRAC, que congrega as associações comerciais e industriais do distrito de Braga. A ACB abrange seis concelhos, um território já com escala e com uma indústria muito forte. Estamos ainda no início de um processo com questões sensíveis para gerir.

P - Dentro da sua área de influência, a ACB pode assumir esse papel mais industrial?
R - Sim. Já temos a representação de muitos empresários do comércio, turismo e serviços. E temos muitas indústrias que já são associadas da ACB. Não vejo necessidade absolutamente nenhuma de ser criada uma nova instituição sectorial. Criar mais associações é, no fundo, criar mais divisões. Eu tenho a noção de que a marca Braga, uma instituição empresarial de Braga, tem mais força do que uma instituição empresarial do Minho. Esta é uma questão que vai fazer parte da agenda de uma reunião da direcção da ACB. Temos de ter uma representação muito forte, muito ligada, muito unida, porque estamos a assistir a uma invasão progressiva do Estado na iniciativa privada. Temos de ter voz para defender os nossos interesses. A nossa ideia não é invadir o território de outras associações. Os nossos seis concelhos têm já massa crítica para formar uma grande associação empresarial que abarque todos os sectores de actividade. Se outro modelo aparecer, não é essa a vontade da ACB.

P - A ACB está em condições de acolher associados da AIMinho?
R - Estamos em condições e temos até empresários que já transitaram.

P - Isso obriga a uma recomposição estrutural da ACB?
R - Está tudo em aberto. O que é necessário é criar o contexto de que não é necessário criar mais nenhuma instituição.

P - Há sinais de que outras associações podem ser criadas.
R - Têm mais a ver com movimentos de consultores que se unem para prestar serviços. Mas isso não é a representação pura e dura dos interesses das empresas. As associações empresariais têm de ser dos empresários.

P - A extinção da AIMinho vai obrigar a reformular o plano de acção da ACB para este mandato?
R - Foram apanhados de surpresa com esta situação. Também tivemos dificuldades na nossa instituição.

P - A ACB também passou por um processo de emagrecimento da sua estrutura.
R - A minha direcção entrou com o intuito de arrumar a casa. Agora está arrumada e recomenda-se. Saldámos a nossa dívida bancária quase na totalidade.

Comércio alimentar é superior ao necessário

P - Tem-se assistido, na cidade de Braga, à abertura de novas superfícies comerciais de média dimensão, sobretudo no ramo alimentar. Nesta área, o investimento que está a ser feito é o adequado?
R - A ACB, até alguns anos atrás, tinha voto no que respeitava à abertura de novas superfícies comerciais. Neste momento, não é chamada para nada. No ramo alimentar, o concelho de Braga tem uma oferta superior à necessária, atendendo até ao rendimento per capita que temos no nosso território. Mas o chamado comércio de rua já não se preocupa com estas questões. Ao longo dos tempos este foi-se adaptando e qualificando. A ‘guerra’ está hoje entre as grandes e as médias superfícies comerciais. A ACB tem assistido a uma renovação constante de um tipo de comércio que já não se encontra nas grandes superfícies. Para a qualidade e a remuneração do emprego, a situação de oferta superior à procura é que não é nada boa. A precariedade do emprego na região tem muito a ver com a forte implantação das grandes e médias superfícies comerciais.

P - Um sector em franco desenvolvimento é o turismo. Não teme que esta 'galinha dos ovos de ouro' seja morta ou que ela própria deixe de pôr os ovos?
R - A história recente do nosso país obriga-nos a estar continuamente atentos. Estamos a viver um tempo espectacular para o turismo. Não temos a certeza absoluta de que isso vai contiuar. Há que ter sempre cautelas.

P - Sobretudo em Braga, não estarão os empresários a colocar os ovos todos no mesmo cesto do sector turístico?
R - O que sentimos é que, quando algum espaço da cidade fica livre, a actividade que lá se vai desenvolver é sempre virada para turismo. O crescimento da restauração e do sector de bebidas tem sido galopante.

P - Há exemplos de cidades por essa Europa fora que estão a sofrer os efeitos desse crescimento fulgurante do turismo…
R - Concentrar a oferta de um território só num produto nunca é muito salutar.

P - O papel da ACB é alertar os investidores desse risco?
R - Uma instituição como a nossa gosta de ver cada vez mais diversificação da oferta. O turismo ainda tem espaço para crescer. Como a cidade de Braga está a ser posicionada para o turismo há ainda espaços de oferta por ocupar. Estou a lembrar do sector de comércio de vinhos ou de ‘souvenirs’, por exemplo.

P - Não é missão da ACB dar essa informação?
R - Mas nós temos um problema, que é a falta de um cadastro comercial. Isso é fundamental para a gestão de um território.

P - Braga tem assistido à abertura de novas unidades hoteleiras e à criação de muito alojamento local. Vê também aí espaço de crescimento?
R - Não tenho dados muito seguros que me permitam saber a quantidade de alojamentos que estão a funcionar e os que estão para licenciar. Se o fluxo de turistas não permitir ocupar todos que estão para licenciar, isso vai prejudicar a competitividade. Quando a oferta é maior que a procura a competitividade começa a nivelar por baixo.

P - Anos atrás, a ACB manifestou preocupação pela saída do Hospital do centro da cidade de Braga. Hoje em dia, o centro tem ganho uma nova dinâmica.?Ultrapassou-se essa fase de inquietação?
R - Não está completamente ultrapassada, mas o centro está numa boa dinâmica. Muitas instituições que criavam fluxos de pessoas sairam do centro da cidade. Só o Hospital retirou sete mil pessoas do centro da cidade, o que teve consequências no comércio. Com a actual dinâmica de regeneração do edificado, com a aposta dos investidores em virem para o centro da cidade, estamos a ver a cidade a reganhar a vida que teve no passado. Para atrair comércio de qualidade temos de mostrar que a cidade está viva e tem alma.

P - Essa ‘alma’ não precisa de maior equilíbrio entre residentes e turistas?
R - Neste momento ainda não se sente em?Braga esse fenómeno de despovoamento. Os responsáveis do Município devem colher ensinamentos dos exemplos de outras cidades e acautelarem-se.

P - Como vê o mercado imobiliário em Braga? Para o comércio o movimento especulativo pode ser perigoso?
R - A especulação é perigosa para todos os sectores de actividade. Ainda não temos toda a cidade regenerada.?Se é que existe especulação imobiliária, ela está mais pelo lado do alojamento do que pelo lado do comércio.?Há mais carência de habitação do que espaços comerciais.

Há carência de pessoal qualificado

P - Há muito desemprego no sector do comércio em Braga?
R - Não. Antes pelo contrário, há carência de pessoal para trabalhar.

P - Isso deve-se aos salários que não são atractivos?
R - São muitas as razões. Dentro do sector comercial, há negócios que ainda não são atractivos para quem quer trabalhar. Há problemas de qualificação da mão-de-obra.

P - Neste momento decorrem negociações para a revisão do contrato colectivo de trabalho do sector. Como é que estão a decorrer? O crescimento do comércio e do turismo está a ter reflexos nas remunerações dos trabalhadores?
R - A ACB tem responsabilidades nesta área e está disponível para tratar do contrato colectivo de trabalho. Estamos a fazer contactos com todas as entidades. É uma questão que queremos ver resolvida, porque interessa a toda a gente. Podem daí surgir melhores condições para a atracção de pessoal.

P - As empresas estão em condições de remunerar melhor os trabalhadores?
R - Estarão sempre umas melhores do que outras. As margens de lucro são tão esmagadas! Com um Estado implacável e os custos de contexto, as pequenas empresas têm dificuldades em alavancar os ordenados.

Fiscalização do estacionamento pode ser assumido pelos TUB

P – A ACB deu conta de alguma insatisfação pela retirada do estacionamento pago em algumas artérias da cidade de Braga. É um processo que está já resolvido, ou a ACB entende que há ainda trabalho a fazer?
R – O trabalho de gestão do estacionamento no centro da cidade nunca vai acabar. As necessidades do comerciante que está ao meu lado não são as minhas. O que temos feito junto do Município é acautelar os interesses dos empresários. Grande parte da visibilidade da cidade deve-se ao seu comércio. Temos pugnado como primeira necessidade que os comerciantes tenham o seu espaço de cargas e descargas acautelado.

P - E está?
R - Ultimamente, tem havido muitas melhorias. Foram alargados esses espaços e estão previstos alargamentos em mais ruas. A melhor solução para a gestão do estacionamento é a fiscalização contínua e em cima do acontecimento. Não podemos estar à espera que o cidadão obedeça ao que está regulamentado de uma forma muito natural. A Câmara Municipal tem dificuldades em alargar o quadro da Polícia Municipal, mas uma boa sugestão - se a autarquia quiser aproveitar -, é criar, no âmbito dos Transportes Urbanos de Braga (TUB), um corpo de fiscais do estacionamento da cidade.

P -?Via com melhores olhos essa fiscalização no seio de uma empresa privada, em vez da reversão da concessão para a Câmara Municipal?
R - Saímos agora de uma empresa privada.

P -?Mas a fiscalização do estacionamento não era mais eficaz?
R - A eficácia está sempre na vontade das pessoas em agir. Imagine que os TUB criam um corpo de fiscais de tráfego... Estou a dar uma ideia como cidadão. Se a fiscalização tem resultados numa empresa privada, também os pode ter no quadro municipal. Voltar aos privados, não. Temos uma relação junto do Município que não podemos ter juntos dos privados.

P - Entende que faz sentido um alargamento da área de parquímetros? Há comerciantes em zonas que deixaram de ter parquímetros nas suas ruas e que não beneficiam da rotação do estacionamento.
R - A questão de princípio para a ACB é que todo o estacionamento na cidade tem de ser pago. É conhecida a nossa proposta junto da Câmara Municipal: gerir o estacionamento por coroas. As ruas do centro histórico com tarifas mais caras e as zonas mais periféricas com tarifas reduzidas. É preciso criar rotatividade no estacionamento automóvel para dar lugar às pessoas que vêm animar os negócios. O sistema de coroas viria facilitar e regulamentar o estacionamento.

P - Essa solução não obrigaria a uma melhoria do transporte público?
R - O desenho da cidade de Braga não é muito favorável a soluções de transporte público, de forma a agradar plenamente. Isso tem a ver com opções urbanísticas do passado, que foram boas para umas coisas e não foram boas para outras. Foram decerto boas para a habitação mas não foram boas para o transporte público. Hoje, o transporte público é que se está a afirmar em desfavor do transporte privado. Compreendo que com alguns constrangimentos físicos e urbanísticos há dificuldade em implementar um sistema perfeito de transporte público. Mas têm sido encontradas soluções intermédias que são do agrado das pessoas.

P - Em que fase está o projecto ‘Lojas com História’?
R - Não é uma iniciativa própria da ACB. Braga tem um conjunto de lojas com possibilidades de apoio do Município.?Estamos a tentar encontrar regalias para os empresários que queiram realizar obras nesses estabelecimentos.


Forum veio trazer o que Braga precisa

P - Como vê o Altice Forum Braga numa perspectiva de captação de turismo de negócios?
R - Nós estamos no Conselho Estratégico da InvestBraga e temos visto como muito positiva a actividade da empresa. A reformulação do ex-Parque de Exposições veio trazer para Braga aquilo que a cidade precisava: uma alavanca para o seu desenvolvimento. Penso que estão criadas as condições para que Braga possa ombrear com outras cidades, sobretudo Lisboa, ao nível da organização de eventos.

P - A ACB perdeu a sua vocação de organização de feiras?
R - Sim. Como há empresas especializadas em eventos, a quem podemos contratar serviços se surgirem oportunidades. Na ACB nunca foi muito bem gerida essa área, o que arrastou a instituição para muitas dificuldades. Não é nossa vocação.

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