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Augusto Canário: “Queremos os ‘Cantares ao Desafio’ reconhecidos como Património da UNESCO”
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Augusto Canário: “Queremos os ‘Cantares ao Desafio’ reconhecidos como Património da UNESCO”

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Augusto Canário: “Queremos os  ‘Cantares ao Desafio’ reconhecidos como  Património da UNESCO”

Entrevistas

2020-11-02 às 06h00

Marta Amaral Caldeira Marta Amaral Caldeira

Augusto Canário, cantador ao desafio, está a aprofundar estudos na área em ‘Estudos Culturais’ na UMinho, onde espera ser mais um contributo e reunir apoios e parcerias para, a nível nacional, candidatar os ‘Cantares ao Desafio’ a Património Mundial.

“Queremos que os ‘Cantares ao Desafio’ seja uma tradição cultural reconhecida como Património Imaterial da Humanidade da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)”. Defensor acérrimo das tradições portuguesas, Augusto Canário assume este projecto como “uma prioridade” na sua vida, mas quer re- colher o máximo de apoios em todo o país, defendendo “união” em torno de uma candidatura que entende que deve ser nacional porque “esta forma de cantar não é só do Minho, mas representativa de todo o país”.
Actualmente a aprofundar conhecimentos na área no doutoramento em ‘Estudos Culturais’ no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, o cantador quer deixar também o seu contributo para as gerações vindouras em matéria relativa aos ‘Cantares ao Desafio’ e cuja tese gostaria que versasse precisamente sobre a importância cultural, social, económica e política desta “forma de cantar” no Continente, ilhas e diáspora.

Augusto Canário espera que estes estudos sirvam também de base a uma melhor fundamentação da candidatura a apresentar à UNESCO, onde espera juntar também o apoio de mais pessoas e o contributo de especialistas na área da antropologia, musicologia, etnografia, etnologia, etc. “Certamente que em todas estas áreas haverá pessoas que podem ajudar a fazer este trabalho”, sustenta.
“Em todo o país temos cantadores e cantadeiras e grandes intérpretes desta ‘forma de cantar’, com as respectivas fórmulas poéticas e musicais e com os instrumentos tradicionais de cada região, desde o Minho até às ilhas dos Açores e da Madeira, passando pelo Alentejo, Beiras e Trás-os-Montes”, afirma Augusto Canário, destacando também o trabalho que a comunidade emigrante tem desenvolvido na manutenção desta e de outras tradições portuguesas.

“Gostava de ter aliados em todo o país e espero encontrar parceiros e apoios concretos para dar continuidade a este projecto com a finalidade de apresentar uma candidatura à UNESCO seja dentro de um, dois ou dez anos”, confessou ainda o cantador. “É muito importante que, antes de mais, se valorize este património, que é um património riquíssimo, que ocupa muita gente, que anima muita gente, que tem um papel muito importante em termos de manutenção de uma tradição e de apoio até na libertação da parte psicológica das pessoas das agruras do dia-a-dia, dos problemas sociais, políticos, da emigração, da saudade, pois os temas que trata são os mais variados e depois é preciso que haja uma entidade ou instituição de âmbito nacional, como o INATEL ou outra, que assuma ‘em mãos’ este projecto e que, pela sua dimensão e capacidade que em mobilizar pessoas e recursos, nos ajude a levar este projecto por diante, dignificando esta tradição ancestral e popular, que queremos ver inscrita enquanto Património Imaterial da Humanidade”.

Jovens e diáspora mantêm e cantam tradição popular

Destacando o trabalho que se faz na diáspora no que há defesa das tradições portuguesas diz respeito, Augusto Canário elogia os muitos jovens que, no estrangeiro e por cá, dão também continuidade a esta “forma de cantar” ao desafio. “Tenho amigos que me dizem que no Brasil, só no Estado do Ceará, são mais de 5000 ‘cantadores ao desafio’ ou ‘repentistas’ e em Portugal não teremos não andaremos muito longe desse número. Há, de facto, cada vez mais jovens cantadores que apreciam esta tradição, que a valorizam e que fazem dela também a sua vida profissional”, disse, mostrando-se “feliz” por ver as gerações mais novas interessadas em ‘manter viva’ a tradição tanto por cá, como lá fora, no estrangeiro - como é disso exemplo as comunidades emigrantes residentes na América - que fazem questão de promover festivais especialmente dedicados aos ‘Cantares ao Desafio’ e de os levar a palco em praticamente todas as festividades.
“A emigração e a diáspora, onde se canta muito e bem e com muitíssima juventude, deve ir ao encontro dos cantadores, da língua e das tradições dos seus maiores, pais e avós, e isso não é uma coisa de pouca importância porque é manter a Língua Portuguesa no mundo e cantá-la”, afirma Augusto Canário.

CIM do Alto Minho avança com projecto artístico e leva ‘Cantares’ às escolas

Os alunos do 2.º ciclo de ensino do distrito de Viana do Castelo vão ter acesso a aulas especiais de ‘Cantares ao Desafio’. Este é um projecto da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, presidida pelo autarca vianense, José Maria Costa, que tem como principal missão preservar uma tradição popular portuguesa junto das novas gerações, despertar talentos e, acima de tudo, cultivar o gosto dos mais jovens pelos aspectos mais tradicionais como os ‘cantares ao desafio’.

Com total apoio da comunidade educativa alto-minhota e em concertação com os professores de ‘Português’ e de ‘Música’, o projecto seria posto em prática neste novo ano lectivo em sistema presencial, mas a pandemia da Covid-19 veio alterar os planos traçados, que tiveram que ser reformulados em termos práticos e que decorrerão agora por via de plataformas digitais específicas, através de vídeos e tutoriais.
Augusto Canário, um dos maiores intérpretes dos ‘cantares ao desafio’, é também um dos parceiros que se junta ao projecto da CIM do Alto Minho com o seu ‘know how’ e ao lado de muitos outros cantadores e cantadeiras, que pela via profissional, têm ajudado a preservar esta “forma de cantar”, típica não só do Minho, mas de todas as regiões do país, embora tenha caído ‘em desuso’ em algumas, mas que o cantador diz que é preciso “recuperar”, precisamente por se tratar de “um património valioso e riquíssimo”.

“É um gosto fazer parte deste projecto, mas é, acima de tudo, uma responsabilidade. Isto porque nós aprendemos dos nossos maiores que eram pessoas mais iletradas, mas que eram grandes cantadores, versejadores ou repentistas como lhes queiramos chamar, que cantavam coisas mais brejeiras, mas que cantavam também coisas importantes, uma vez que o ‘cantador’ assumia um papel central no seio de uma comunidade, em que a sua voz era sempre auscultada pelo povo, sendo uma espécie de ‘voz da razão’ à qual todos davam atenção. E nós, nestes nossos tempos de hoje, que estudamos e aprendemos coisas, temos esta obrigação e esta consciência de deixar para as gerações vindouras, a preservação da tradição na sua essência, mas ensinando os jovens de que os ‘cantares ao desafio’ não se baseiam apenas e só no vernáculo e brejeirice, mas que vão muito além disso, porque se cantam também à desgarrada temas profundos e com fundamento e discutindo os assuntos com seriedade”.
Canário chama a atenção para o facto de os ‘Cantares ao Desafio’ não se resumir apenas aos cantadores: existem as fórmulas poéticas de cantar (estrutura dos versos e das estrofes), as melodias de cada região e os instrumentos tradicionais típicos de cada região - “e isso é todo um património cultural a preservar”.

Canário pede mais apoios para artistas e Cultura em Portugal

Augusto Canário lamenta o contexto pandémico que se vive e o ‘estado da arte’ em que as várias artes sobrevivem, a muito custo e com “poucos apoios”. “Na verdade temos vivido com a ilusão de que daqui a pouco a pandemia vai passar e com a desilusão de que afinal não passou e nós, artistas em geral, precisamos também de continuar a trabalhar”, adverte, indicando que a Cultura em geral precisa de apoio real porque não são só os artistas que vivem dos espectáculos, são muitos mais as pessoas envolvidas, desde músicos, técnicos, motoristas, etc. e afecta outros serviços como a área da hotelaria, a restauração, etc.
Dando como exemplo o espectáculo dos ‘Galandum Galundaina’ no Teatro de Viana ou o ‘Festival Santa Casa Alfama’ que homenageou Amália como exemplos de eventos, embora com limitações ou iniciativas online, Canário considera “urgente” as autarquias e instituições realizarem-nas.
“Já há casos de suicídios e isto deve fazer reflectir já porque há muita gente a precisar de ajuda”.

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