Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Avelino Amorim: Se nos centrarmos no turismo perdemos a nossa identidade
Encenador italiano Lelio Lecis dirige em Braga ‘A Criatura’

Avelino Amorim: Se nos centrarmos no turismo perdemos a nossa identidade

Boccia Sénior Braga é uma aposta ganha

Entrevistas

2019-03-30 às 06h00

José Paulo Silva

O cónego Avelino Amorim assumiu há meio ano a presidência da Comissão da Quaresma e das Solenidades da Semana Santa de Braga. Director do Departamento Arquidiocesana para a Pastoral de Jovens, o sacerdote deseja um maior envolvimento destes nas celebrações,”um acontecimento central na vida da Igreja bracarense e da cidade’. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, Avelino Amorim revela a esperança de ver aprovado, em 2020, pelo Conselho da Europa, o Itinerário Cultural proposto por entidades promotoras da celebração da Semana Santa e da Páscoa

P - É presidente da Comissão da Quaresma e das Solenidades da Semana Santa deste Setembro do ano passado. Como surge no cargo?
R - A Comissão é normalmente presidida por um membro do Cabido da Sé Primaz. Eu participava na Comissão desde uns meses antes. O anterior presidente, o cónego Luís Miguel, por motivos de nomeação eclesiástica, não podia continuar a assegurar este cargo e, com toda a naturalidade, subi eu.

P - Os anteriores presidentes colocaram sempre algo de pessoal naquilo que é a Semana Santa de Braga. Qual é a sua perspectiva?
R - É natural que haja sempre um cunho pessoal nestas funções, embora eu considere que não se deve acentuar demasiado essa marca. A Semana Santa ultrapassa qualquer dimensão pessoal. A minha principal preocupação é continuar a fazer das nossas celebrações da Quaresma, Semana Santa e Páscoa um momento muito forte e um acontecimento muito central da vida da Igreja bracarense e da própria cidade, com uma envolvência cada vez maior de todos. Nessa envolvência há um aspecto fundamental que nós destacámos na apresentação do programa deste ano: a envolvência da juventude. Celebramos um acontecimento do passado mas que se manifesta.

P - Isso tem a ver com o facto de ser responsável pelo Departamento Arquidiocesano para a Pastoral de Jovens?
R - Também. Como nos recordava o Papa Francisco nas últimas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens não são o amanhã, são o hoje.

P - Esse trabalho de aproximação da Semana Santa à juventude vai começar pelo envolvimento dos colégios católicos?
R - Já o ano passado estiveram presentes, nomeadamente o Colégio João Paulo II. Este ano temos mais dois ou três colégios que participam. São os nossos interlocutores mais imediatos, o que não quer dizer que fiquemos pelas escolas católicas. Há parcerias que podemos estabelecer para envolver os mais jovens, não necessariamente apenas com as instituições religiosas.

P - Na sua opinião, faz falta algum rejuvenescimento dos participantes nas cerimónias da Semana Santa?
R - Não só por aí. É um dever que nos assiste sermos capazes de tornar responsável a geração posterior à nossa por um legado que recebemos e também devemos legar. A juventude está connosco mas temos de lhe passar esta responsabilidade numa linha de continuidade. Não podemos encerrar em nós próprios um legado histórico muito significativo e muito valioso, temos de o abrir às novas gerações. Isso só se faz dizendo que o hoje da Semana Santa é delas.

P - A Semana Santa tem também uma dimensão turística. Às vezes, há dificuldade em harmonizar a perspectiva religioa e a perspectiva turística?
R - Eu julgo que não. Partilho uma reflexão feita no último Fórum da Rede Europeia de Celebrações da Semana Santa e Páscoa, através de um grafiti muito significativo em que Cristo dizia: ‘A minha Paixão e a Ressurreição não foram para dinamizar o Turismo’. O turismo é sequencial a uma boa celebração da Semana Santa e da Páscoa. Se nos centrarmos no turismo, vamos perder a nossa identidade, aquilo que é o cunho mais central das celebrações, e em pouco tempo esgotamos o turismo. Se mantivermos a nossa identidade, o turismo vai crescer sequencialmente. Uma experiência de aproximação à fé cristã é que fará alguém voltar para a viver de novo.

P - A massificação da assistência a certos actos da Semana Santa de Braga não pode pôr em causa essa autenticidade?
R - Temos de fazer com que quem venha seja bem acolhido e possa assistir às celebrações. Não se tem prejudicado o ambiente e o bom andamento das celebrações.

P?- Braga faz parte de uma Rede Europeia de Celebrações da Semana Santa e Páscoa. O que se pretende em concreto com este trabalho conjunto?
R - Esta rede surgiu há cerca de um ano. O primeiro fórum aconteceu em Lucena, na Andaluzia, em Setembro último. São cerca de 20 cidades de cinco países europeus que decidiram constituir-se em associação e que, para além da partilha de experiências e de troca de iniciativas culturais e religiosas, pretende constituir um Itinerário Cultural reconhecido pelo Conselho da Europa.?Acolhemos em Braga o segundo fórum, que foi o momento de aprovação dos estatutos da associação e de iniciarmos o projecto de construção desse Itinerário.

P - Projecto que está numa fase inicial ?
R - O nosso objectivo é apresentarmos uma candidatura em Setembro de 2020 para que, no final desse ano, assim o esperamos possa ser aprovada.

P - Que cidades fazem parte da rede?
R -?De Portugal somos apenas nós. Em Espanha, temos os ‘Camiños de Passión’, que representa dez cidades da Andaluzia, Viveiros e Orihuela. Espanha tem, neste âmbito, uma cultura associativa muito enraizada. Temos também Sicília, em Itália, com uma fundação que representa diversas cidades. Temos Škofja Loka, na Eslovénia, e Malta.

P - O facto de Braga ser a única cidade portuguesa representada nesta rede europeia atesta aquilo que a distingue?
R -?A celebração da Semana Santa de Braga é, sem dúvida, a mais reconhecida em Portugal.

P - Poderão outras celebrações nacionais integrar a rede europeia?
R - Poderão. Esta associação tem um conselho cultural que analisará sempre novos associados. Desde que sejam celebrações com algum significado, poderão integrar a rede.

P - O futuro Itinerário poderá equiparar-se aos Caminhos de Santiago?
R - Por exemplo. Os Caminhos de Santiago são também um Itinerário Cultural do Conselho da Europa.

P - As celebrações da Semana Santa de Braga apresentam, no contexto europeu, um cunho muito próprio?
R - Muito, muito. Não é o facto de pertencermos a esta associação que fez conhecer na Europa a Semana Santa de Braga. Pelo contrário, é porque na Europa é conhecida a Semana Santa de Braga que tivemos o convite para participar nesta associação desde o seu início.

P -?Já se falou da possibilidade de a Semana Santa de Braga ser classificada património imaterial da humanidade. A rede europeia poderá alavancar essa pretensão?
R -?Também. Uma candidatura colectiva poderá ser mais facilmente reconhecida.

P - O trabalho de promoção da investigação sobre a Semana Santa, nomeadamente através do Prémio Dr. Jorge Coutinho, é importante em termos de sistematização de informação?
R - Sim. Para que não sejamos nós a dizer da importância da Semana Santa, mas que tenhamos estudos que a certifiquem.

P - Penso que foi o próprio Dr. Jorge Coutinho a lamentar que, apesar de todo o reconhecimento das características únicas das Solenidades da Semana Santa, não haver muita investigação.
R - No contexto dos estudos sócio-culturais, há universidades de outros países europeus que dedicam muita importância a esta temática. Nós ainda não. Temos de o reconhecer.

P - O Prémio Dr. Jorge Coutinho é um incentivo?
R - Sim. Certamente encontraremos alguma entidade de ensino superior que possa dedicar-se a esta temática.

P - Braga tem duas universidades aqui sedeadas...
R - ( risos)

P - Já teve algum ‘feed-back’ em relação ao Prémio Dr. Jorge Coutinho?
R -?Ainda é cedo. A entrega de candidaturas decorre até ao próximo Inverno. Temos consciência de que poderá haver alguma dificuldade em apresentar trabalhos a esta primeira edição.?Para nós seria importantíssimo o desenvolvimento de estudos nesta área. Quando digo nós, não digo a Comissão da Semana Santa, digo a cidade.

P - Vai ser lançado em breve o livro ‘A Semana Santa em Braga’, de Rui Ferreira e Hugo Delgado. O que é que a publicação nos apresentará?
R - O Rui Ferreira é um dos grandes investigadores desta área e o fotógrado Hugo Delgado é também reconhecido. É uma publicação que procura explicar a história e o sentido dos momentos mais significativos da Semana Santa em Braga.?Não é tanto uma obra académica exaustiva, que não será ainda o momento de a fazer, mas uma obra para o público em geral.

P -?No programa da Semana Santa há um conjunto vasto de actividades culturais. Este ano foi introduzido o cinema. Veio para ficar?
R - Acredito que sim. Tive a oportunidade de fazer a avaliação com os responsáveis do Espaço Vita, que fizeram uma parceria para a realização de um ciclo de cinema que nunca será para grandes multidões, mas será uma forma de podermos revisitar a Paixão e a Páscoa. Não fechamos as portas a nenhuma expressão de arte. Todos os anos procuramos enriquecer o programa cultural.

P -?Há criação artística que vai sendo motivada pela Semana Santa. Este ano, um grupo bracarense, o decateto ‘Portuguese Brass’, apresenta, no dia 16 de Abril, uma música inédita.
P - E em estreia mundial, na Sé Catedral.?Procuramos dinamizar a produção artística do nosso meio. Normalmente, este concerto de terça-feira santa era realizado por entidades externas.?Sem fechar essa linha, por que não valorizar também os nossos artistas? Os ‘Portuguese Brass’ tiveram a sua primeira actuação no contexto da Semana Santa. Lançámos o desafio de construir uma obra inédita inspirada na nossa Semana Santa.

P -?A programação cultural distingue também a Semana Santa de Braga de outras?
R - O nosso programa cultural é muito mais vasto e diversificado. A nível nacional, sem dúvida. Temos sete concertos, várias exposições, um concurso de fotografia... Nos últimas duas semanas da Quaresma temos, todos os dias, várias iniciativas.

P -?Vai continuar a ser política da Comissão da?Semana Santa franquer o acesso aos espaços onde decorrem os concertos?
R - Todas as actividades do programa cultural são gratuitas. É essa política que queremos continuar. O que temos procurado fazer é sensibilizar a comunidade para a importância de auxiliar a Comissão. Temos um grupo de envolvimento que procura sensibilizar as empresas que, de alguma forma, beneficiam com todo este movimento. A dimensão da gratuitidade só é possível com os patrocínios que vamos pedindo.

P -?E a cidade está receptiva?
R - Acredito que sim. Depende do nosso trabalho de sensibilização. Não podemos estar à espera que venham ter connosco.

P- Poderá haver algum receio de os agentes económicos perceberam que estão a financiar as celebrações e a própria Igreja?
R - As celebrações religiosas são da responsabilidade do Cabido da Sé e das Irmandades da Misericórdia e de Santa Cruz. Independentemente de haver ou não programa cultural, de haver ou não patrocínios, as celebrações religiosas não têm custos envolventes significativos. Os apoios são sobretudo para a dimensão cultural que nós temos obrigação de apoiar.

P - No dia 27 de Abril, acontece uma cantata mariana com a Teresa Salgueiro, na Igreja de S. Paulo.
R - É um concerto também a não perder.

P -?Já depois da Páscoa...
R - É o sentido de dar alguma continuidade em termos de programação. Convidámos a Teresa Salgueiro para o desafio de interpretar música do nosso reportório religioso dedicado a Nossa Senhora, porque a segunda-feira seguinte ao domingo de Páscoa é o dia das alegrias de Nossa Senhora, próprio do calendário bracarense, uma celebração muito nossa. Por que não esta dimensão da alegria e da esperança que é o lema das celebrações deste ano da Diocese de Braga?

P -?Outra vertente da programação cultural da Semana Santa são as exposições. O que temos este ano?
R - Alguns locais são já fixos como os museus Pio XII e da Sé, a Casa dos Crivos, os espaços da Misericórdia e de Santa Cruz. O ano passado, houve a iniciativa da Câmara Municipal de Braga que nós acolhemos, as exposições ao ar livre. Este ano serão no Largo do Paço.

P - Não deixa de ser curioso que a Comissão da Semana Santa tenha avançado para a qualificação das ‘rebuçadeiras’.
R - Na cidade de Braga, ao longo da Quaresma há, todos os dias, a exposição do Santíssimo Sacramento exposto. É uma iniciativa com muita História e, embora tenhamos quase sempre presente este percurso, as ‘rebuçadeiras’ à porta das igrejas dão sempre um sinal. O centro das atenções está no Lausperene e na Adoração do Santíssimo Sacramento, mas não podemos descurar que, quando vemos uma ‘rebuçadeira’, lembramo-nos do Lausperene. Os rebuçados como produto artesanal também são de valorizar. O que fizemos foram duas coisas muito simples: desafiar as ‘rebuçadeiras’ a manter apenas os rebuçados tradicionais e ajudámo-las na criação da imagem visual das bancas.

P -?Este ano, o centro histórico de Braga está transformado quase num estaleiro de obras. Haverá alguns constrangimentos à passagem das procissões?
R - Não. O ano passado, houve a decisão de prolongar um pouco os percursos na zona do Jardim de Santa Bárbara e da Praça do Município, não tanto pela questão das obras mas pelo número crescente de pessoas, evitando criar tantos grupos de concentração de pessoas.

P - O centro histórico de Braga, sobretudo a área envolvente da Sé Catedral, tem sido muito procurado, nos últimos anos, para a instalação de restaurantes, bares e outros estabelecimentos. Isso, de alguma forma, interfere com o ambiente que é preciso criar para as celebrações religiosas?
R - Haverá sempre uma convivência fácil desde que todos nos saibamos respeitar. Esse é um aspecto em que, culturalmente, temos de crescer muito. Vemos outros países em que isso é um ponto assente. Ainda que politicamente, ideologicamente ou religiosamente haja outras opções, há sempre um respeito pela fé. Poderá haver um ou outro local ou momento em que possa haver uma ou outra perturbação. O grupo de envolvência que faz parte da Comissão da Semana Santa tem feito trabalho junto dos agentes económicos.

P - A cobertura televisiva dá outro mediatismo às celebrações da Semana Santa. Para este ano está prevista alguma transmissão?
R - Ainda não temos grande ‘feed-back’. É pena. Mais do que nós, os próprios meios de comunicação podem ganhar com a Semana Santa de Braga. A única coisa que temos garantida é a transmissão das celebrações pelos canais próprios da Arquidiocese de Braga. O meio televisivo ainda não dá grande relevo a estas celebrações religiosas.

P -?Nestes dias de maior afluência a Braga e à Sé Catedral, as portas serão franqueadas? Não haverá pagamento para o turistas?
R -?Todas as questões podem ser levantadas, desde que se encontrem soluções. Por que é não podemos apoiar a Cultura? Como é que se mantém o Património? Como é que se mantém a limpeza de espaços como a Sé e os museus? Por que é que o futebol não é grátis? Nós até damos Cultura grátis na Semana Santa. Reclamamos se vamos à Sé, a um museu ou ao Bom Jesus e pagamos a entrada. Mas como é que se mantém este património? Se a sociedade encontrar formas de que isso se assegure, não é necessário cobrar.?Temos de ter a consciência de que é necessário valorizar a Arte e a Cultura. Eu acho que as não valorizamos convenientemente

P - A Entidade Regional de Turismo Porto e Norte de Portugal tem feito alguns estudos para apurar o perfil dos turistas que vêm a Braga no período da Semana Santa. Tem a percepção de que há muitos que vêm por motivações religiosas?
R - Sim. Pela excelência com que é celebrada, o nome da Semana Santa de Braga tem chegado bem longe. Os turistas não vêm só pela curiosidade, mas também pela especificidade das nossas celebrações. Desde o domingo de Ramos ao domingo de Páscoa, há sempre um elemento que se preservou da tradição do Rito Bracarense. São elementos que marcam pela sua novidade e que se são de uma profundidade e espiritualidade muito acrescidas. São eles que fazem as pessoas voltar.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.