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Braga não tem nada a pedir à Capital Europeia da Cultura

Entrevistas

2010-11-13 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

O administrador do Theatro Circo de Braga diz que se anda a escamotear a importância de Braga Capital Europeia da Juventude. Em entrevista ao ‘Correio do Minho’ e Rádio ‘Antena Minho’, reconhece a concorrência de Guimarães Capital Europeia da Cultura e admite despedimentos na Companhia de Teatro que também dirige.

O administrador do Theatro Circo de Braga diz que se anda a escamotear a importância de Braga Capital Europeia da Juventude. Em entrevista ao ‘Correio do Minho’ e Rádio ‘Antena Minho’, reconhece a concorrência de Guimarães Capital Europeia da Cultura e admite despedimentos na Companhia de Teatro que também dirige.

P - Disse, no final da reunião desta semana com a ministra da Cultura, onde se anunciaram cortes no orçamento da Cultura para os apoios às artes, que está a cavar-se a sepultura de projectos culturais das cidades médias como Braga.
R - Disse isso num debate com a ministra da Cultura e num contexto muito específico. Os sucessivos governos e os responsáveis pela pasta da Cultura não têm reflectido nada sobre as artes do palco ou sobre a sustentação de uma política cultural para o país. Tudo o que aconteceu até agora de bom e de mau, aconteceu à revelia do poder político. Isso é a história da nossa democracia, sob o ponto de vista da criação artística. Com a democracia iniciou-se o movimento de descentralização cultural que levou para a periferia de Lisboa uma série de estruturas, sobretudo do teatro e da dança, as quais, estabelecendo relações privilegiadas com algumas autarquias, conseguiram iniciar um processo de descentralização cultural. Ao fim de alguns anos, muitos desses projectos sossobraram, outros mantiveram-se e acabaram por constituir um tecido nacional a partir daquilo que são hoje as cidades médias: Braga, Évora, Viseu, Coimbra, Aveiro, Viana não tanto. Cidades que se vieram a revelar importantes no desenvolvimento do país, onde se criaram ou existiam já universidades muito jovens e que apresentam paralelismo sob o ponto de vista do desenvolvimento sustentado. Isso foi sempre à revelia do po-der. O poder foi-se sempre acomodando à situação. Isto não gerou uma reflexão vertida para os programas de Governo, que apontasse um caminho de desenvolvimento como aconteceu um pouco por toda a Europa. Em Portugal, o poder não criou um modelo de intervenção.

P - Há uma gestão casuística?
R - Podemos comparar a crise que se vive hoje na Cultura com a crise que se vive na Educação. Portugal também não criou um modelo de Educação. Esta questão dos cortes à produção artística gerou-se por ausência de políticas, independentemente daquilo que são os programas dos governos. O Estado nunca decidiu, porque decidir é fazer política. O Estado foi distribuindo o mal pelas aldeias. Esta crise, hoje, vem resolver, perversamente, a atitude de qualquer ministro que é: ‘Eu não tenho dinheiro, esta crise é óptima para cortar’. Isto é horrível. A proposta que nos fazem não tem sustentação nem uma perspectiva no tempo de alavancamento da crise. São cortes cegos que colocam em causa, não só o funcionamento das estruturas culturais, que são pequenas e médias empresas completamente isoladas, como colocam em causa, de um modo mais dramático, o futuro das práticas culturais.

P - No caso da Companhia de Teatro de Braga, que consequências imediatas terá o corte de 23 por cento?
R - Objectivamente, há cinco ou seis pessoas que vão ter de sair. Não há milagres. Temos 18 pessoas a trabalhar. Se nos cortam quase 100 mil euros, vamos fazer cortes transversais na produção, na promoção e, obviamente, nos recursos humanos.

P - O facto de ser companhia residente no Theatro Circo não pode levar a Câmara de Braga a substituir o Ministério da Cultura?
R - Não pode nem eu quero. A Manuela Ferreira Leite disse há pouco tempo, na discussão do Orçamento de Estado, uma coisa muito importante: ‘Quem manda paga’. A Companhia de Teatro de Braga preza e preserva a sua liberdade criativa. Defendemos que as autarquias devem garantir o apoio infraestrutural para as companhias poderem trabalhar e o Ministério da Cultura tem de garantir o apoio funcional, isto é, o apoio financeiro. Às companhias cabe procurar outras janelas de oportunidade: mecenato, programas comunitários, etc. A Companhia de Teatro de Braga não tem vocação para ser companhia municipal, nem as câmaras têm capacidade para ter companhias municipais. Já lhes chegam as salas, os equipamentos que lhes foram dados com custos muito grandes. Também isso não foi discutido antes. Os governos e as autarquias não perceberam o que andavam a fazer. Há uns anos eu falava destes equipamentos como elefantes brancos. Algumas pessoas ficaram ofendidas, mas a verdade é que se hoje olharmos para o panorama nacional, talvez Braga seja a excepção, porque a Câmara tem cumprido religiosamente os contratos-programa que tem estabelecido. Mas esta não é a prática no resto do país. Em cidades como Aveiro, Faro, Santarém, Évora e outras, as câmaras não garantem o pagamento daquilo que contratualizaram com os responsáveis dos equipamentos.

P - No preâmbulo do plano de actividades do Theatro Circo diz-se que o Governo continua a não ser capaz de criar uma verdadeira e real lei do mecenato. O apoio das empresas continua a ser pontual?
R - Desfez-se o articulado da lei do mecenato. O que há hoje são incentivos legais para esta área, não há uma lei. Por outro lado, este é o momento menos propício para a lei do mecenato. As empresas não estão disponíveis, estão a sofrer fortes aumentos na carga fiscal. O que tem acontecido ao longo dos anos é que os governos têm tido uma atitude de perversidade relativamente ao mecenato. Para as grandes estruturas culturais, aquelas que dependem do Orçamento de Estado, como os teatros nacionais, a Companhia Nacional de Bailado ou a Companhia Nacional de Ópera, o Governo estabelece contratos com as grandes empresas. O Governo é, ele próprio, parceiro neste jogo, aparece como o grande beneficiário porque canaliza as verbas dos grandes mecenas para os seus grandes equipamentos e esquece por inteiro as médias estruturas. Há em Portugal um desfasamento total entre aquilo que são as estruturas nacionais de cultura como Serralves, Casa da Música, as companhias nacionais, e o resto do país. A Companhia de Teatro de Braga é praticamente caso único nesse aspecto do mecenato. Mas o Governo não nos reconhece nem às empresas que nos apoiam. Já aconteceu estruturas governamentais virem perguntar à Companhia de Teatro de Braga como é que se pode chegar à empresa ‘DST’ porque também querem ter apoios da ‘DST’. A ‘DST’ já tem dado apoios à Direcção Regional de Cultura do Norte. O Estado aparece aqui como um agente que se intromete no mercado para disputar o bolo do mecenato. O mecenato é um objectivo estratégico para o Theatro Circo. Estamos a trabalhar neste momento para que, a breve prazo, possamos apresentar um mecenas principal para o Theatro Circo.

P - Será uma empresa de Braga?
R - Será certamente uma empresa sediada em Braga.

P - A ‘DST’ tem sido um mecenas permanente do Theatro Circo, da Companhia de Teatro de Braga e de outros eventos culturais da cidade. O resto do tecido empresarial do concelho olha para a cultura da mesma maneira?
R - A Companhia de Teatro de Braga é apoiada por três empresas: ‘DST’, ‘Peixoto Rodrigues & Filhos’ e ‘Volvo’. Os números da Companhia são necessariamente mais pequenos que os do Theatro Circo. É mais fácil arranjar mecenas para a Companhia. Algumas empresas têm vindo a comprar camarotes do Theatro Circo, o que é também uma forma de apoio.

P - Quando fala de um grande mecenas, está a pensar fazer uma espécie de 'naming' do Theatro Circo?
R - Os valores em causa não dão para passar por aí.

P - Mas não o chocava?
R - Essa questão é interessante. Nós somos pobrezinhos e novos ricos ao mesmo tempo. No Brasil, grandes e históricos teatros estão a ser apoiados do ponto de vista mecenático. Muitos dos equipamentos hoje chamam-se 'Oi isto' ou 'Oi aquilo' porque são patrocinados pela empresa 'Oi'. No Brasil há uma verdadeira lei do mecenato, em que o Ministério da Cultura elenca as estruturas e os espectáculos que merecem ser apoiados e as empresas escolhem qual é a empresa cultural que querem apoiar.

P - Portanto não seria chocante ter um 'Oi Theatro Circo'?
R - Nenhum problema.

P - Mas acha que estamos preparados? Há pouco tempo não conseguiu colocar um cartaz na fachada do Theatro Circo.
R - Isso não tem a ver com a cidade, tem a ver com algumas mentalidades. É preciso perceber que Braga vai crescer, apesar de algumas mentalidades. O crescimento de de uma cidade é sempre doloroso para algumas cabeças. O que aconteceu é óbvio que foi caricato. Imagine que estamos a discutir o mecenato e dizemos que não podemos ter um pano na fachada a dizer: ‘o Theatro Circo é apoiado pela empresa x. Claro que, em todo o mundo,, grandes equipamentos culturais, de maior valor arquitectónico que a fachada do Theatro Circo têm isso.

P - Essa questão do 'naming' do Theatro Circo não se coloca para já?
R - É o valor que conta aqui. O Theatro Circo é das boas marcas de Braga. Não somos ingénuos sobre essa matéria. O cidadão comum o que quer é que a cultura seja de borla. Cinco euros já é caro. O estudante também pensa assim. O que era bom é que o Theatro Circo pudesse garantir para a malta mais nova duas cervejas por cada bilhete... Há essa cultura, mas a culpa não é das pessoas, é do sistema educativo. As pessoas ficam muito ofendidas porque querem a cultura de borla e ficam ofendidas quando se usa um 'naming' num equipamento.

P - Quando se fala de mecenato, do apoio das empresas à actividade cultural, faz sentido ter o Theatro Circo como empresa de capital 100 por cento municipal? O seu amigo José Teixeira (n.r, administrador da ‘DST’) defen- deu, neste mesmo espaço, uma Fundação para gerir o Theatro Circo.
R - O José Teixeira já me falou disso, mas nunca me explicou bem a sua ideia. As coisas têm de ser claras: o José Teixeira é um excelente gestor e pensa as coisas sob o ponto de vista da gestão da sua empresa e isso fica-lhe bem. Eu acho que o Theatro Circo deve ser o que está. O modelo do Theatro Circo foi seguido por outras estruturas. O Theatro Circo é um equipamento da cidade, é uma empresa de direito privado, mas de capitais públicos. A responsabilidade da administração do Theatro Circo é gerir bem os recursos, tentar que esses recursos revertam a favor da cidade e dos cidadãos. A natureza jurídica da empresa permite-nos ter mais elasticidade na gestão dos recursos humanos, em relação a um serviço municipal. É óbvio que os privados quando entram numa empresa desta natureza, por exemplo, através de uma fundação, têm objectivos específicos. Não me parece que faça sentido nesta altura alterar o estatuto jurídico do Theatro Circo. Aliás, em Portugal, as fundações são, muitas vezes, embustes para outras situações. A Turquia, por exemplo, tem imensas fundações de pessoas verdadeiramente ricas que as organizam para prestar apoio à cultura. Em Portugal, as fundações vão todas beber ao Orçamento de Estado, o que é muito interessante. Só há uma que não vai: a Fundação Calouste Gulbenkian. O José Teixeira tem uma ideia que é muito interessante: as câmaras, no acto de contratação pública,valorizarem as empresas que apoiam a cultura. Acho que é uma ideia que devia ser analisada com atenção.

P - Uma Fundação não iria acrescentar mais-valias ao funcionamento e à gestão financeira do Theatro Circo?
R - Não conheço modelos em que isso seja verdade. Vejo a Fundação de Serralves em que há um grupo de parceiros privados e o Estado, e quando o Estado não paga, os outros manifestam-se.

P - Continua realista o objectivo de equilíbrio das contas do Theatro Circo em 2011?
R - Sim. Penso que é um jogo difícil.

P - Só à custa da redução de custos?
R - Estamos num país em que a redução de custos tem mesmo de existir. Temos de mudar de paradigma, temos de mudar de vida. Parece-me que a responsabilidade dos gestores é tentar equilibrar. Pelo facto de os capitais da empresa serem públicos não podemos trabalhar a pensar que alguém vai pagar. Já houve essa atitude no Theatro Circo.

P - Recentemente?
R - Já houve essa ideia, mas teve de acabar.

P - Mas recentemente, Rui Madeira?
R - Desde que reabriu o Theatro Circo já houve essa atitude.

P - O ano de 2007 foi exemplo disso?
R - O que eu estou a referir é que, a partir da reabertura temos vindo a trabalhar no sentido de reequilibrar as contas. Mas se vamos reduzindo sempre os meios financeiros, às tantas o objectivo da nossa produção deixa de fazer sentido.

P - Quer dizer que houve muitos foguetes com a reabertura do Theatro Circo?
R - Não. Uma parte deste equipamento foi financiado pelo Programa Operacional da Cultura que continha a possibi- lidade de, no primeiro ano, haver um alavancamento dos custos de programação. Isto, acompanhado da euforia da reabertura de um equipamento com a importância do Theatro Circo, criou muitas expectativas. O problema depois é manter. Foi assim também com os estádios. Nós somos eufóricos e depressivos ao mesmo tempo. Somos capital da chouriça e ano seguinte não temos porco! Somos assim, não há volta a dar. Mas, passado este tempo, temos que bater na realidade. Outra questão é que, nos últimos dez anos, houve um aumento substancial do número de equipamentos culturais nesta região. Esta região tem um milhão de habitantes e os equipamentos criados estão sobreavaliados. Há equipamentos a mais. Está por provar que aumentaram significativamente os públicos dos espectáculos. O que sabemos é que as pessoas que já estão iniciadas no processo escolhem mais, circulam mais. É por isso que o objectivo do Theatro Circo para os próximos três anos é ganhar a cidade de Braga.

P - Reconhece que, apesar do foguetório e das expectativas que se criaram na reabertura em 2007, isso não foi conseguido?
R - As coisas são como são. Na reabertura do Theatro Circo, muitas das coisas feitas tinham de ser feitas. A Casa da Música do Porto abriu com a ideia de que era uma casa da música clássica. As pessoas de Braga que gostam de música clássica deixaram de ir ao Theatro Circo. Agora que estamos a retomar a música clássica de uma forma mais regular, as pessoas não têm essa noção, já estão pensadas para a Casa da Música. Mas é verdade que, nos últimos dois anos, a Casa da Música alterou claramente a sua estratégia de programação. Hoje tem uma diversidade de programação que vai desde o pop-rock de rua à música clássica. Isso obriga-nos a olhar para os equipamentos não de uma forma estática, mas de uma forma dinâmica, sabendo que o Theatro Circo é uma sala de espectáculos da cidade. A programação tem de ser diversificada, baseada na qualidade. Temos de nos virar mais para a cidade, do ponto de vista da comunicação, do trabalho com a estrutura e públicos de forma mais continuada, não perdendo as valências que o Theatro Circo tem.

P - A concorrência é grande: Centro Cultural Vila Flor, Casa das Artes de Famalicão...
R - Claro que a concorrência é grande. Neste triénio, o Theatro Circo vai estar sob a influência de Guimarães Capital Europeia da Cultura, para onde vão ser canalizadas grande parte das verbas.

P - O Theatro Circo e a Companhia de Teatro de Braga vão ter com a Capital Europeia da Cultura?
R - A minha opinião é muito clara: cabe a Guimarães definir a sua estratégia.

P - Não vão pedir nada?
R - Não temos nada para pedir.

P - Se houver aproximação entre a Capital Europeia da Cultura ao Theatro Circo e à Companhia de Teatro de Braga...
R - Não sei se vai haver aproximação ou não. A haver aproximação, tem de partir da Capital Europeia da Cultura. Braga quer ser patrocinadora da Capital Europeia da Cultura? Braga precisa é de recolher meios para a sua programação. Eu vejo com mais preocupação o que é que Braga quer ser como Capital Europeia da Juventude. Não podemos andar aqui todos a pensar no que é que vai haver da Capital Europeia da Cultura em Braga quando a cidade tem a possibilidade de ser Capital Europeia da Juventude. O Theatro Circo gostava de participar num bom programa da Capital Europeia da Juventude. Essa é a melhor forma de fazer a diferença. Temos de fazer a diferença porque entre Braga e Guimarães há diferenças. Quanto melhor for a Capital Europeia da Cultura e quanto melhor for a Capital Europeia da Juventude, mais possibilidades atractivas as duas cidades têm. Vejo sempre escamotear para um plano relegadíssimo de importância a Capital Europeia da Juventude.

P - O que é o Theatro Circo tem já de-finido para a Capital Europeia da Juventude?
R - O Theatro Circo está a desenvolver um série de actividades envolventes da programação que tem esse objectivo estratégico de 2012. Seja ao nível das acções de formação, que estão a concitar o interesse de muitas pessoas. Ainda esta semana, cerca de 70 pessoas participaram numa leitura de um texto dramático. Com estas leituras temos o objectivo de chegar a 2012 com mil pessoas envolvidas. Ao nível da programação, há eventos que vão ser acompanhados com pequenas intervenções de formação e não só, nas escolas e noutros espaços. É a isso que nós chamamos virarmo-nos para a cidade. Na área da música clássica, isso implica concertos comentados para chegarmos a públicos jovens. Há a perspectiva de chegarmos ao ano que vem com ideias concretas sobre o que podemos programar em 2012. Pensar uma Cidade Capital Europeia da Juventude é pensar também uma cidade para as crianças e para os adolescentes, mas também para os seniores. Estamos a ver que janelas de oportunidade de financiamento há, porque sabemos que os meios para uma Capital Europeia da Juventude são infinitamente menores do que os meios da Capital Europeia da Cultura. Podem-se fazer muitas coisas e o Theatro Circo tem de participar. É um equipamento estratégico.

P -Mas não foi chamado aquando da elaboração do programa de candidatura a Capital Europeia da Juventude.
R - Não foi nem tinha de ser. Já houve algumas conversas no sentido de que o Theatro Circo será chamado. O Theatro Circo não pode é ser chamado à última hora para servir de garagem. Isso é que não.

P - Uma questão que suscitou alguma discussão nos últimos tempos é a dos custos do Theatro Circo com pessoal. As despesas com pessoal são exageradas?
R - Acho que não. A situação está equilibrada. É óbvio que temos de estar atentos a essa situação. Muito já fizemos. O Theatro Circo para funcionar precisa de recursos humanos com saberes específicos. A estrutura do Theatro Circo é completamente diferente do Centro Cultural Vila Flor ou da Casa das Artes, que dependem de Câmaras. A estrutura jurídica do Theatro Circo permite ir ao mercado e contratar de outra maneira.

P - O facto de não ter optado pela nomeação de um novo director artístico, após a saída de Paulo Brandão, e a constituição de uma equipa de quatro programadores teve como objectivo a redução de custos?
R - Esse objectivo também houve. Vamos ser claros: o conceito de director artístico nesta situação não faz nenhum sentido. É director artístico quem dirige uma estrutura artística, quem tem um projecto artístico. Normalmente está ligado a uma estrutura de produção artística. Estes equipamentos não são estruturas de produção artística. Isto foi um subterfúgio de alguns funcionários municipais que, de repente, já não quiseram ser programadores e quiseram chamar-se directores artísticos. De quê? De garagem? Muitos destes equipamentos têm uma programação de garagem, que não tem um fio condutor, que dependem de terceiros que lhes oferecem espectáculos. Para a responsabilidade que o Theatro Circo tem na cidade, que é a de uma sala de visitas, a programação tem de ser diversificada.

P - E não estava a ser diversificada?
R - Já vamos lá. O Paulo Brandão é um excelente programador da área pop. É inegável que o Theatro Circo teve boa programação na área pop e essa imagem levou pessoas de Braga a irem à Casa da Música ouvirem música clássica. O Theatro Circo pode aguentar só essa imagem alternativa? O Theatro Circo não tem de assumir-se com um espaço matricial do ponto de vista das artes do palco? Nós defendemos que deve ser. Isso implicou que nós optássemos por ter um coordenador de programação e convidássemos pessoas de várias áreas que trouxessem mais valias das suas especialidades. Com custos realistas. Isso quer dizer que os programadores do Theatro Circo recebem por ano entre três a quatro mil euros. Toda a gente sabe quem é o António Cartaxo, uma figura inegável na divulgação da música clássica; toda a gente sabe quem é a Regina Guimarães que há 12 anos programa o cinema em Serralves; toda a gente sabe quem é o Bhuda, um homem de Braga ligado à música há muito tempo.

P - As pessoas são levadas a fazer as contas: o anterior programador ganhava mais num mês do que os quatro actuais programadores.
R - Isso já foi muito debatido. Não vale a pena continuar a chover no molhado. O problema não é quanto as pessoas ganham, o problema é que meios é que as estruturas têm para pagar às pessoas. Eu acho que a relação entre o que o anterior director artístico recebia e os meios financeiros que existiam não era séria, não era simpática, era muito difícil de justificar. Até para o Ministério da Cultura. Ainda esta semana tive de ouvir a senhora ministra chamar-me a atenção para esse facto. Sempre que quero argumentar, lá te-nho de ouvir essa história. E sabem que eu não tenho grandes responsabilidades nessa história, mas é desagradável. Com os meios que tínhamos, de facto, o Paulo Brandão recebia muito.

P - Percebo também das suas palavras que as opções de Paulo Brandão em termos de programação não foram consideradas positivas?
R - Eu não disse isso. O que eu digo é que o Paulo Brandão é um excelente programador pop. Os resultados...

P - A administração queria mais?
R - A administração queria sobretudo diversificar a administração.

P - O número de espectadores do Theatro Circo tem aumentado?
R - Em 2007 e 2009 tivemos dois picos de público, acima dos 50 mil. Este ano queremos aumentar a percentagem da dança e de outras artes relativamente à música e ao teatro. O maior número de espectadores é na música, seguido do teatro.

P - São números simpáticos?
R - Não sou como o Primeiro Ministro que diz que está muito contente. São números simpáticos.

P - Não seria de esperar que, ao fim de quatro anos, esses números fossem superiores?
R - Não. Há dificuldades em promover nos grandes meios de comunicação e como não há complementaridade entre os equipamentos, também não há complementaridade de programação.

P - O Quadrilátero Urbano não está a funcionar?
R - Não está a funcionar e também não é esse o seu objectivo. Nós temos um problema estrutural que é a não regionalização. Não temos políticas que integrem a região. Não havendo complementaridade, há quase que diria discussão de públicos. Isso tem custos para todas as estruturas. Numa situação de crise, isso deveria ser pensado de outra maneira. Nós estamos apostados em aumentar públicos, mantendo o objectivo de que a bilheteira garanta mais de 50 por cento dos custos dos espectáculos. Aqui entra o preço dos bilhetes.

P - Uma crítica que tem sido recorrente da oposição...
P - A oposição reflecte pouco sobre isto, está mais interessada na intriga e na maledicência do que numa discussão aberta e frontal. Todos os bilhetes do Theatro Circo são financiados. Cerca de 50 por cento do preço do bilhete é garantido pelo financiamento público. Não é pedir muito ao cidadão de Braga que garanta 50 por cento do custo real de um espectáculo. Vai haver outras condições, a partir do ano que vem, ao nível do Quadrilátero Urbano. As quatro cidades estão a desenvolver um projecto de cartão regional e de cartão local que permitem outro tipo de regalias, reduções em vários equipamentos.

P - Como responde às críticas sobre os custos de aluguer da sala do Theatro Circo?
R - O Theatro Circo tem uma tabela de preços com reduções significativas para as associações e estruturas da cidade de Braga. Cedência gratuita, não.

P - Em relação ao cinema, que regressou recentemente ao Theatro Circo, já tem números?
R - A função do Theatro Circo é fazer uma programação complementar à oferta comercial. O que estamos a fazer são ciclos de cinema que visam criar uma escola do olhar cinematográfico, acompanhados de oficinas para crianças e adultos. Para cada filme convidamos uma personalidade da cidade. Não tínhamos a presunção de ter salas de 300 lugares. Temos tido entre as 60 e as 100 pessoas por sessão. Isso é significativo e muito interessante.

P - Há atrasos nas comparticipações de projectos aprovados no Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN)?
R - Há. O QREN serviria para alavancar este tipo de equipamentos, o que está a servir é para criar problemas de tesouraria. O Theatro Circo tem hoje problemas de tesouraria por causa dos projectos QREN. O Theatro Circo tem cinco projectos de financiamento europeu no âmbito do QREN: Quadrilátero Urbano; Renegeração Urbana; Acto 5, projecto de programação em rede com Almada, Aveiro, Olhão e Matosinhos; Projecto Odisseia com o Centro Vila Flor, Teatro S. João e o Teatro de Vila Real; e a Culturbe com Coimbra e Évora.

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