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Centro Comunitário de Braga realizou mais de 1500 rastreios num ano
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Centro Comunitário de Braga realizou mais de 1500 rastreios num ano

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Centro Comunitário de Braga realizou mais de 1500 rastreios num ano

Braga

2020-11-30 às 06h00

Patrícia Sousa Patrícia Sousa

Associação Abraço abriu o Centro Comunitário de Braga há um ano e até agora já foram realizados mais de 1500 rastreios das infecções por VIH, VHB, VHC, Sífilis. Falta mais investimento na prevenção e na sensibilização da comunidade.

A Associação Abraço abriu portas em Braga há um ano, em jeito de celebração do Dia Mundial de Luta Contra a Sida (1 de Dezembro) um centro de rastreio das infecções por VIH, VHB (hHepatite B), VHC (Hepatite C) e Sífilis. “Fizemos mais de 1500 testes rápidos. Para um primeiro ano é bastante positivo e até surpreendeu e superou as nossas expectativas”, confessou o coordenador do Centro Comunitário de Braga, Pedro Morais, assegurando que os números mostram que “este era um serviço que a comunidade precisava”.

Braga é o sexto distrito do país com mais incidência de casos de VIH e “faz sentido” este projecto, que é financiado pelo programa nacional para o VIH.
“Falta ainda fazer muito em termos de prevenção. O número que sustenta todo este projecto é a taxa de diagnóstico tardio, sobretudo no VIH. E este facto mostra a necessidade de projectos que sensibilizem a população para fazer o rastreio e retirem barreiras ao acesso ao rastreio, porque Portugal neste aspecto tem uma das mais altas de incidência na União Europeia o que torna preocupante e necessário investimento mais próximo da comunidade, rastreios e sensibização”, apelou.

Nestes mais de 1500 testes rápidos, seis deram reactivos para o VIH, que se confirmaram. Entretanto, 22 casos foram reactivos à Sífilis e dois casos à Hepatite C. “Quando temos pessoas com sintomas que testem negativo nos rastreios, quer dizer que podem ter outra infecção e aí fazemos o contacto directo ao Serviço de Infecciologia do Hospital de Braga, que fará o devido acompanhamento”, contou o coordenador, referindo que o centro comunitário acaba por ser “um facilitador entre a comunidade e os serviços de cuidados primários”.
A unidade de rastreio está localizada na Praceta Padre Diamantino Martins, na freguesia de Maximinos. Comodidade e confidencialidade são as garantias oferecidas pelo centro de rastreio que disponibiliza uma equipa multidisciplinar constituída por psicólogos, enfermeiros e educadores de pares (membros da comunidade que fazem a ponte e ajudam na divulgação). “A maior parte do trabalho que a equipa tem, e é formada para isso, é fazer este pré e pós aconselhamento durante o rastreio que é um dos objectivos maiores para ajudar as pessoas como se prevenir melhor para estas infecções”, sublinhou Paulo Morais.

O centro está aberto de segunda a sexta-feira das 12 às 20 horas, por ser “o período mais indicado e com mais afluência, já que inclui a hora de almoço e pós laboral”, justificou.
O projecto resulta de uma parceria entre a Associação Abraço e o Ministério da Saúde como complemento ao diagnóstico precoce, contando ainda com a parceria da Câmara Municipal de Braga, que contribui com 50% do valor do aluguer do espaço e de um conjunto de mecenas que forneceram o mobiliário necessário.

O rastreio é totalmente gratuito, anónimo e confidencial, podendo ser feito com ou sem marcação. No entanto, nesta altura por causa da pandemia só estão a ser efectuados rastreios com marcação prévia. “As pessoas têm o resultado em 25 minutos, tendo acompanhamento e aconselhamento e quando há resultados reactivos temos uma linha directa com o Hospital de Braga onde as pessoas são encaminhadas e é feito um teste confirmatório e procede-se aos tratamentos que forem necessários a partir daí”, explicou o coordenador, justificando que como no centro comunitário se faz um teste rápido carece de um confirmatório hospitalar. “Não é que haja falsos positivos porque a percentagem é muito mínima. Em Braga não tivemos nenhum caso e é raro. Mas é preciso ser confirmado por ser um teste rápido”, contou.

“Ter VIH não é uma sentença de morte”


Fazer um rastreio, sobretudo, ao VIH não é fácil. Que o digam a psicóloga Renata Cunha e a enfermeira Cristina Pereira que acompanham todas as pessoas que se deslocam ao Centro Comunitário de Braga. “O VIH não é uma sentença de morte e as pessoas têm uma vida normal e ninguém precisa de saber a sua situação serológica”, alertaram as responsáveis, lamentando que “ainda falta muito trabalho para desmistificar o tema da sexualidade, porque apesar de natural, o sexo é ainda um tabu”.

É preciso coragem para fazer o teste, porque a vida pode mudar. “Mas às vezes a coragem é recompensada com o teste negativo, com mais informação, com preservativos gratuitos e com uma nova forma de encarar a vida sexual com mais naturalidade e segurança”, assegurou a psicóloga, destacando o ambiente informal com que as pessoas são recebidas no centro.
Se o teste for positivo, os primeiros tempos são de adaptação. “As pessoas podem vir cá para conversar e mantemos o contacto. Depois de começar a tomar a medicação e quando fazem exame e percebem que a carga vírica já está indetectável é tempo de celebrar”, referiu.

Para além das pessoas que tiveram uma relação de risco, já há pessoas que se deslocam ao centro por hábito e fazem o teste com regularidade. “Há ainda situações pontuais de pessoas que terminaram uma relação ou estão a começar outra e têm esse cuidado, isto é o ideal”, aplaudiu. Renata Cunha deixou o recado: “o facto das pessoas terem um relacionamento, namoro ou casamento, não é protecção”.

Antes de saber o resultado, a psicóloga além de preparar a pessoa para o resultado explica como funcionam os tratamentos de cada uma das infecções. “Ainda há muita desinformação, algumas pessoas ouviram falar do VIH na década de 80 e já muito se evoluiu. Depois é preciso fazer a distinção entre o VIH e a SIDA. O VIH é uma doença crónica, que não tem cura, mas há um tratamento que lhes permite ficar indetectáveis e intransmissíveis, ou seja, a pessoa ao saber que tem VIH começa a cuidar da saúde, começa a tomar a medicação e a ter acompanhamento médico, essa medicação permite reduzir a carga vírica e isso protege o sistema imunitário da pessoa e deixa de transmitir o vírus a outra pessoa”, explicou. A psicóloga adiantou ainda que “uma mulher que viva com VIH e se estiver indetectável e intransmissível há algum tempo pode até engravidar e ter um bebé sem o vírus”. Esta é uma das “últimas conquistas” e as pessoas ficam “surpreendidas”, porque “não têm conhecimento e ainda há muitos preconceitos e estigmas que estão associados à culpabilização”.

Nos centros de saúde já fazem o teste rápido do VIH e na farmácia as pessoas também o podem adquirir. “Enquanto psicóloga deixa-me um pouco assustada saber que uma pessoa vai estar em casa sozinha e descobrir um resultado reactivo sem qualquer apoio”, confidenciou.
No caso da infecção por Sífilis, a mais detectada, a pessoa é encaminhada para o hospital e faz medicação através de penicilina, que pode ser depois tomada no centro comunitário. “As pessoas preferem vir cá, porque muitas têm vergonha de ir ao centro da saúde”, contou.

No final do rastreio, a enfermeira oferece um kit a cada pessoa com 15 preservativos e 10 lubrificantes, sendo que quem quiser pode ali ir buscar preservativos gratuitamente. “O feedback das pessoas tem sido tão positivo que pedem para se fazerem outro tipo de iniciativas”, contou Renata Cunha, referindo que ainda se fizeram algumas campanhas de sensibilização, mas com a chegada da pandemia as actividades acabaram por ser suspensas.

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