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Construção sustentável é uma questão de tempo

Entrevistas

2021-05-22 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

António carlos rodrigues lançou recentemente um Manifesto pela Sustentabilidade e pela Construção de um Amanhã Melhor. Presidente do conselho executivo do Grupo Casais, tomou posse há dias como membro externo do Conselho Geral da Universidade do Minho. Em entrevista ao Correio do Minho e rádio Antena Minho, este engenheiro civil defende que o sector da construção está obrigado a caminhar no sentido da utilização mais eficiente dos recursos do Planeta.

P - O Grupo Casais tem produzido recentemente algum pensamento sobre a sustentabilidade. De que forma o sector da construção promove a sustentabilidade?
R - O nosso propósito enquanto indústria é servir a sociedade e as pesssoas.?A civilização foi evoluindo à medida que a engenharia foi resolvendo os problemas das pessoas. Se servimos as necessidades de uma forma desmesurada, sem atendermos à forma como o fazemos, corremos o risco de esgotar os recursos do Planeta. A construção e os edifícios são o terceiro maior responsável pelas emissões para a atmosfera, não só pelos recursos que utiliza como pela ineficiência. Somos ainda muito ineficientes. A construção foi a indústria que, nos últimos 30 anos, não evoluiu em termos de produtividade, ou seja, para fazer a mesma coisa, não conseguimos reduzir no desperdício e na energia. A população tem vindo a aumentar, o hemisfério sul está ainda subservido e continuamos a ter a mesma ineficiência... Se já usámos Planeta e meio de recursos, não vão chegar três nem quatro.

P -?O próprio sector da construção depende da sustentabilidade?
R - É uma questão de tempo.?As pessoas já procuram o carro eléctrico e nós, como indústria, temos também de identificar soluções que sejam mais amigas do ambiente.

P - E isso tem acontecido? Já se fazem edifícios e outras construções mais sustentáveis?
R - Sim. Algo que acaba por impactar directamente no bolso das pessoas é a eficiência energética, mas isso não chega.?Se olharmos para os materiais e para a energia que consumimos na construção, temos ainda muito a fazer. Temos feito algumas parcerias, nomeadamente com a ‘Cree Buildings’, para um sistema de construção hídrida em que reduzimos o betão em cerca de 1/5 e utilizamos mais a madeira, um material que capta CO2. Quando a colocamos num sítio definitivo, é quase como que um depósito de CO2.

P -?Estamos a falar de soluções ainda experimentais?
R - Nós estamos é atrasados em relação aquilo que a Europa já faz há muitos anos. Nós tivemos uma ‘join venture’ entre os anos 2001 e 2007 para a utlização da madeira em Portugal, mas não era tradicional. Fizemos algumas obras.

P - Há alguma desconfiança?
R - É uma questão também de adaptação dos nossos profissionais, adaptados a certos materiais. Se olharmos para o que a Europa tem vindo a fazer, a partir de 2008, a produção de madeira para construção disparou. Alemanha, França, Holanda e Áustria são os maiores utilizadores. No Green Deal e do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), é impossível cumprir os requisitos de sustentabilidade com as nossas técnicas. Temos um problema: de repente vem dinheiro da Europa mas para o utilizarmos temos de respeitar regras de sustentabilidade.

P -?Recentemente, lançou um Manifesto pela Sustentabilidade e pela Construção de um Amanhã Melhor. É um apelo ao sector, à sociedade em geral, aos clientes?
R - Nós não conseguimos fazer nada sozinhos. Este é um ecossistema muito complexo. Temos de sinalizar os clientes que estamos neste ‘mindset’ da sustentabilidade. O Manifesto é uma forma de sinalizar e encarar a forma como nós encaramos a sustentabilidade e como é que moldamos o nosso negócio ao conceito de sustentabilidade.

P - No Manifesto apresenta o conceito de uma urbanização inclusiva e sustentável. Os decisores políticos têm uma palavra a dizer neste processo?
R?-?As entidades reguladoras têm um papel fundamental. Podem facilitar e incentivo certo tipo de políticas ou serem um obstáculo. Se pensarmos na energia, já existe na Alemanha o conceito das comunidades energéticas.?Com a mobilidade eléctrica, a quantidade de energia que vai ser consumida em cada casa vai aumentar, o que vai trazer desequilíbrios na rede. Se não tivermos formas de equilibrar essa rede, vamos ter de investir.?Na verdade, não precisamos de investir em mais barragens e linhas de alta tensão. Podemos produzir e consumir no mesmo local fazendo a permuta de energia entre casas.

P - A um nível municipal, há soluções para um uso mais eficiente da energia?
R - Os edifícios públicos têm um padrão de utilização diferente do residencial. O melhor, em termos de sustentabilidade de uma comunidade, é o casamento entre o público e o privado. A regulamentação ainda não permite fazer esta partilha que tecnicamente é possível.

P - O facto de o Grupo Casais se ter internacionalizado relativamente cedo para a realidade portuguesa permite-lhe ter uma visão mais alargada da questão da sustentabilidade na construção e gestão de edifícios?
R - Temos de aproveitar o facto de estarmos em 16 países, todos eles diferentes em termos de desenvolvimento, para perceber tendências, perceber como é que os edifícios são utilizados. A bateria de ampere de que nós apresentamos como solução, não só acumula energia como vai aprendendo quais são os momentos de consumo e de produção e monitoriza o tempo do dia seguinte. Há ferramentas que permitem adequar o consumo energético, porque a forma como os edifícios foram projectados e são utilizados é muito diversa. Já é possível trazer inteligência para os edifícios, mas estamos ainda na Idade da Pedra quanto a isso.

P - O sector da construção foi também afectado pela situação pandémica, mas foi daqueles que não pararam. Como é que o sector atravessou esta crise em Portugal?
R - Uma crise como esta põe a nu as nossas deficiências, porque foram levadas ao limite um conjunto de circunstâncias. Num primeiro momento houve uma boa reacção, mesmo em termos de apoios do Governo. Depois, penso que passámos a ser um pouco reactivos em relação à situação. Claro que há coisas que são imprevisíveis, mas nós próprios, dentro da nossa organização, estivemos em constante monitorização e antever as próximas etapas. Por exemplo, começámos a fazer testagem dos nossos colaboradores muito antes disso ser falado.

P -?Estamos a falar de um grupo empresarial que tem cerca de 4 300 colaboradores em 17 países. Foi um trabalho que tiveram de fazer em termos globais.
R - Sim. A nossa dimensão deu para percebermos realidades distintas e percepções diferentes. O nosso primeiro comunicado sobre a covid 19 saiu a 31 de Janeiro do ano passado. A 4 de Fevereiro estávamos a emitir outro mais completo. Começámos cedo a implementar planos de seguimento e a definir níveis de risco por região, por delegação. Quando se dizia que ia chegar o Verão e que o calor ia matar o vírus, nós achávamos muito estranho, porque no Qatar, em que está sempre muito calor, a pandemia estava no pico.?Percebemos aí que o problema não era o calor, mas as pessoas estarem em espaços confinados.

P - Apesar dessas contigências, como é que o vosso grupo e o sector da construção no geral passou, ou está a passar por esta crise?
R - Na primeira onda, houve um estigma em relação ao nosso sector por estar a trabalhar e toda a gente estar fechada em casa. Isso permitiu-nos enfrentar o problema e implementar um conjunto de medidas, a sectorização nas obras, para minorar o risco de contágio. O que verifiquei depois, no Verão, foi que um conjunto de sectores que começaram a funcionar não estavam preparados. Por exemplo, fez-me muita confusão não ver nas escolas mecanismos de gestão do contágio.

P -?Há regras de comportamento e de segurança nas empresas que se vão manter?
R - Sim. A gestão da segurança das pessoas vai manter-se na nossa indústria. Porque há benefícios com a monitorização das equipas.

P - Com a pandemia e os confinamentos reforçou-se a necessidade da digitalização. É possível reforçar a digitalização num sector como o vosso?
R - Sim. Já há muito tempo que arquitectos e engenheiros trabalham com ferramentas digitais. O que acontece é que a quantidade de informação que está digitalizada é cada vez maior e o ritmo da computação também. Nós conseguimos hoje em dia projectar um edifício e vê-lo tridimesionalmente antes de o executar. Um dos saltos tecnológicos é podermos interagir com os clientes sem literacia de arquitectura ou engenharia.

P - No vosso Manifesto da Sustentabilidade defendem a industrialização, a pré-construção como ferramenta para aumentar a eficiência da construção. Trata-se de um processo já corrente?
R - A pré-fabricação já existe em muitos anos. Acaba por ser mais sustentável ao nível da produção de resíduos, mas se pensarmos no número de pessoas que precisamos numa obra e de viagens entre os pisos, não são horas produtivas. Houve uma empresa que colocou um chip nos trabalhadores e chegou à conclusão que entre 1/3 e 50% do tempo de mão-de-obra é desperdiçado.

P - Como é que antevê o futuro da pré-fabricação?
R - O que vai mudar mais tempo é os clientes e os donos de obra estarem preparados para encomendar um tipo de construção susceptível de ser industrializada. Se o projecto não for pensado para ter alguma standarização ou modelarização, é difícil eu conseguir industrializar. A alteração de ‘mindset’ vai demorar algum tempo, mas quando começarem a ser observados os bons exemplos, vai ser mais fácil fazer a transição.

P - A internacionalização foi um foco permanente para o Grupo Casais nas últimas décadas?
R - Começámos em 1994 na Alemanha.?A?partir de lá começámos a preparar a empresa para ser mais internacional e global. Não vamos deixar de o ser, porque o mercado nacional é muito pequeno para a dimensão que temos. Se olharmos para o universo de empresas de construção que estão internacionalizadas, houve uma grande redução.

P - Como é que uma empresa que continua a ser familiar consegue esta longevidade em termos de internacionalização?
R - Há algumas coisas que ajudam. Em 2009, fizemos uma reflexão interna onde sistematizámos a nossa cultura, valores e missão de uma forma sentida. Isso permitiu-nos contratar, manter e desenvolver as pessoas com um foco na nossa cultura. Numa empresa familiar há valores que se sobrepõem aos da família. Valores como a integridade, o humanismo, o rigor, a dedicação, a determinação, a cooperação, a flexibilidade... Todos estes valores definem a forma como nós queremos ver as nossas pessoas e a forma como elas se comportam. Não interessa em que país se está. Se pensarmos na mobilidade de país para país, temos de ser muito bons na colocação de recursos e na mobilização. Se não tivéssemos esta cultura Casais, era muito mais difícil essa aceitação.

P - Há estudos que falam de uma alta taxa de mortalidade de empresas familiares. No caso do Grupo Casais, o sucesso tem a ver com a manutenção desses valores?
R - Uma coisa é a cultura da empresa, mas não se pode confundir essa matriz com o governo. No governo de uma sociedade, a família sai a ganhar se a sociedade crescer e prosperar. Para crescer e prosperar não tem de se cingir aos recursos e gestão dos membros da família. Há que saber separar os donos e os accionistas da gestão e governo de uma sociedade. Para prosperar, uma sociedade tem de ter os melhores profissionais e saber elimi nar potenciais obstáculos que seriam postos se não estiverem as melhores pessoas na gestão, que podem ser da família ou não.

P -?Em 2019 lançaram a Academia Casais. O que fazem com ela?
R -?A Academia Casais é um veículo para nós conseguirmos fazer transmissão de conhecimento, formação e capacitação. Estamos em países com realidades muito distintas. O que aprendemos na Alemanha há 26 anos transportamos para Portugal, Angola ou Moçambique. E há coisas que apresentamos em África e transportamos para cá. Há aqui um ciclo de aprendizagem e, no fundo, a Academia acaba por ser o nosso elo de ligação nessa transmissão de conhecimento. Não nos substituímos às universidades nem aos politécnicos. Somos os advogados na defesa dos nossos interesses internos e procuramos fora os parceiros que nos podem trazer os conteúdos de que necessitamos para que as pessoas consigam evoluir.

P -?Faz parte do Conselho Consutivo do curso de Escola de Engenharia Civil e do Conselho Geral da Universidade do Minho. Com esta que está mais próxima da sede do Grupo, mas também com outras universidades, mantêm uma ligação estreita com o meio académico?
R - Sim. À dimensão de Portugal, as empresas não atingem uma escala suficiente para investir mais em investigação e conhecimento. Interpreto a academia como sendo mais o braço das empresas para essa área. A nossa dimensão é propícia à cooperação entre as empresas e a academia. É preciso que a academia tenha o sentido prático da indústria, que crie profissionais que sirvam o mercado.

P - Há alguns anos houve alguma preocupação pela escassez de licenciados em Engenharia Civil. A situação já se inverteu?
R - Na altura da crise, tínhamos cerca de 1 200 vagas para preencher todos os anos e houve um ano em que foram preenchidas 350. Só três universidades é que preencheram as suas vagas. Felizmente, essa situação já foi ultrapassada e eu penso que há cada vez mais o sentido de que a Engenharia tem um propósito maior. Nós fizemos unidades covid em hospitais em 90 dias. Eu vi o brilho nos olhos e o sentimento dos nossos engenheiros, encarregados e operários de que estavam a fazer algo que era positivo para a sociedade. Estamos na melhor área do mundo para poder contribuir para a melhoria da nossa qualidade de vida.

P - O vosso Grupo foi reconhecido recentemente como a melhor construtora em Portugal e a terceira melhor empresa do sector para trabalhar. Que valor têm estes prémios, para além do aumento da auto estima de quem aí trabalha?
R - Penso que é precisamente isso: as nossas equipas pessoas correm e esforçam-se e nunca sabemos se é suficiente se não tivermos algo que nos meça e nos campare.?Acaba por ser gratificante ter a noção de que este esforço, quando é colocado em comparação no sector, sai destacado. Os prémios são um sinal importante para recompensar aquilo que as pessoas fazem e que isso se equilibre com a sua esfera pessoal.



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