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D. Manuel Linda: 'Poderemos continuar no fundo durante bastante tempo'
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Entrevistas

2012-05-26 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

O bispo auxiliar de Braga não antevê o fim da actual crise económica e social. Em entrevista ao Correio do Minho/Rádio Antena Minho, D. Manuel Linda manifesta preocupação especial pelo aumento do desemprego juvenil.

O bispo auxiliar de Braga não antevê o fim da actual crise económica e social. Em entrevista ao Correio do Minho/Rádio Antena Minho, D. Manuel Linda manifesta preocupação especial pelo aumento do desemprego juvenil.

P - A questão do pagamento de taxas moderadoras de saúde para interrupções voluntárias da gravidez (IVG) voltou à ordem do dia. Concorda?
R - A mim preocupa-me a IVG, não as taxas moderadoras. Este é um problema de organização que a sociedade civil encontrará a melhor maneira de resolver. Não me meto nesse âmbito. Preocupa-me o facto de a IVG ser repetida uma, duas, três vezes. A aplicação de taxas é da organização política e administrativa.

P - Se compararmos a aplicação de taxas moderadoras na IVG com outras situações de doença, considera que pode haver discriminação?
R - Não será a aplicação as taxas moderadoras que vai pôr em causa o Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou a falta de prestação de cuidados em áreas fundamentais. Um dos princípios que sempre orientou a medicina ocidental é o da justiça sanitária, isto é, os recursos que existem devem ser distribuídos por todos. Porquê dar prioridade a esse sector (IGV) e não dar prioridade a outros sectores que são importantes? Mas repito: a minha preocupação é a IGV, não é a cobrança de taxas. A questão da aplicação das taxas é de somenos importância.

P - Que balanço faz deste período de despenalização do aborto?
R - Creio que a questão de fundo não foi resolvida. O grande argumento que se invocava a favor da despenalização era pôr cobro ao aborto clandestino. Estudos que aparecem por aí indicam que o número de abortos clandestinos não diminuiu. Aumentaram os abortos legais, cerca de 20 mil por ano, e os clandestinos continuam. Alguma coisa está mal. Se a lei invoca o argumento de pôr cobro ao aborto clandestino e não o consegue atingir, algo está falseado. A lei não resolveu o problema que se propunha resolver.

P - Se as mulheres forem obrigadas a pagar taxas moderadoras, não teme que recorram mais às práticas clandestinas?
R - Eu não sei quanto seja a taxa moderadora, mas todos os actos médicos que imponham internamento são gratuitos. Até imagino que nesses casos não haja pagamento de taxa.

P - Recentemente, falou do perigo dos lobbies económicos virem a tomar conta do SNS e alertou para a necessidade de preservar este património. É um receio?
R - A afirmação surgiu no contexto da Semana da Pastoral da Saúde e na presença do ministro da Saúde. Foi lá referido que a Organização Mundial da Saúde e considera o SNS o 17º melhor do mundo no conjunto de cerca de 200 países. Sabemos, por outro lado, que existem determinados lobbies, nomeadamente a partir do Norte da Europa e da Comissão Europeia, que procuram um sistema misto entre o SNS e sistema americano, que é de confiar a Saúde às seguradoras. Isto preocupa-nos. Estamos diante de um sistema que funciona bem, o sistema americano é injusto. No seguimento do que foi dito nessas Jornadas da Pastoral da Saúde, pedi ao senhor ministro que preservasse o SNS.

P - Esses lobbies já actuam em Portugal. Há as parcerias público-privadas, há hospitais privados que concorrem directamente com o sistema público...
R - Podem ser esses, embora eu me referisse mais às grandes indústrias farmacêuticas e às grandes multinacionais seguradoras que exercem pressão, não a nível interno, mas a nível de toda a União Europeia. São mais os ventos que se observam do que a realidade que se apalpa.

P - O SNS está hoje mais justo do que estava há alguns anos atrás?
R - Tenho muita dificuldade em dizer-lhe, porque os recursos são distintos. Na minha perspectiva, o SNS não tem de ser gratuito no sentido universal. Que se criem condições para que todos tenham acesso.

P - Acha justo o valor médio das taxas moderadoras que foram recentemente actualizadas?
R - É muito difícil pronunciar-me. Eu iria para uma espécie de percentagem de acordo com a declaração de IRS. Admito que o actual sistema não seja o mais justo, mas este é um dado tão técnico que só as pessoas que trabalharam as taxas é que poderão responder.

P - Desde o início do seu magistério na Arquidiocese de Braga tem focado muito as suas intervenções nas questões sociais, do emprego, da justa remuneração do trabalho e das dificuldades dos jovens em entrar no mercado de trabalho. Em 2009, quando chegou, a situação sócio-económica era muito complicada, hoje está bastante pior. É uma preocupação permanente da Igreja trazer à tona estas questões sociais?
R - Fico contente que me diga isso, eu próprio não tinha essa noção. A nossa missão é fundamentalmente espiritual, mas a espiritualidade entronca na pessoa tal como ela é, pessoa que precisa de pão para se alimentar, de saúde para se sustentar... No contacto com as situações do dia a dia, particularmente agora e nesta zona onde eu ando, o Ave, dou-me conta do dramatismo que é, de facto, um conjunto alargado de população que se encontra no desemprego. Nós não podemos ser - desculpem-me a expressão que é bíblica - um boi mudo. Os padres e os bispos não podem passar a vida a denunciar, porque a dado momento já não têm nenhuma credibilidade. O nosso mistério fundamental é o anúncio de determinada verdade, mas há situações limite em que temos de chegar à denúncia pura e dura.

P - Está muito preocupado com o desemprego dos jovens que ultrapassa os 35 por cento. Como é que a Igreja vê a situação, muitas vezes ultrapassada pela emigração?
P - Eu não sou político e não vou dizer, como alguém disse, que os jovens devem ir para a emigração. De qualquer maneira, os jovens são mais abertos e a contínua mobilidade de muitos deles leva a que tenham mais capacidades de enfrentar um mundo diversificado. Ele poderão, melhor do que os adultos, passar de um país para o outro à procura de trabalho. Mas o ideal seria criarmos as condições para que eles possam desenvolver a sua vida aqui. É preocupante verificar que um jovem tem dificuldades em constituir família enquanto não tiver um trabalho fixo.

P - Alertou para isso na recente missa dos finalistas da Universidade do Minho e da Universidade Católica...
R - É uma preocupação acrescida. O convívio sexual e de outra maneira não será difícil, mas isso não é a família enquanto tal. Eu reconheço que é muito difícil a um jovem que não tenha uma vida devidamente estruturada a nível económico constituir uma família estável.

P - Quando diz que a Igreja não se pode limitar a denunciar, que mensagem transmite a esses jovens?
R - Não temos soluções técnicas na manga. Queremos é importunar as consciências para que cada um, dentro das suas possibilidades, possa encontrar vias de justiça. E vias de justiça é a via do pão, do emprego estável, da família...

P - Recentemente, apelou aos cristãos para que se empenhem em estar nos centros de decisão política. Dizia mesmo que se é nos ministérios que se decide os cristãos devem estar lá para apresentarem soluções alternativas. Há défice de participação dos cristãos na vida política?
R - Eu fiz tese de doutoramento sobre a dimensão política da fé, entendida não na forma partidária, mas na presença pública dá fé. Os cristãos são muito bons na presença nas periferias dos vários sectores. Temos uma rede de assistência social fabulosa, mas parece que temos um certo receio de sujarmos as mãos nos grandes centros de decisão que são os ministérios. Com isto quero deixar muito claro que não estou a advogar a formação de um partido político para católicos. Pelo contrário, oponho-me a cem por cento a isso.

P - Alguém pode pensar que está a defender formas de pressão como fazem alguns grupos como a maçonaria...
R - É diferente. A Igreja aceita como partidos seus todos aqueles que são do aro democrático, não aceita é soluções violentas para a sociedade. Como em Portugal a grande maioria dos partidos são democráticos, tanto é partido da Igreja um mais à direita como um mais à esquerda. Muitas vezes identifica-se a Igreja com a direita e não há direito de o fazer. A sensibilidade dos cristãos participantes da mesma fé é que os deve levar a ver qual é o instrumento onde essa fé se pode desenvolver no mundo. Uma estrutura político-partidária é instrumento viável para a actuação da fé no mundo. Não é no sentido de fazer leis que obriguem os católicos a ir à missa ao domingo, é no sentido de que os valores da caridade, da solidariedade, da fraternidade, da verdade e da liberdade estejam presentes nestas instituições. É só neste sentido que eu digo que os católicos se devem inserir mais nos partidos.

P - Disse recentemente que “há uma cultura de massa que é cozinhada na panela do neoliberalismo. Ninguém dá e, fundamentalmente, ninguém se dá”. Esta é uma posição política de crítica ao actual curso das coisas?
R - É. Aquele liberalismo liberal, desculpe a tautologia, género escola de Los Angeles, pregado no século XIX, expresso na fórmula “enriquecei-vos que do vosso enriquecimento algumas migalhas hão-de chegar aos pobres” é inaceitável. A Igreja nem aceita o liberalismo, nem aceita o colectivismo forçado. Este é um pensamento que não é meu, é da Igreja.

P - Este liberalismo é a realidade de hoje em Portugal e na Europa?
R - Não digo que é a cem por cento. A globalização favorece o liberalismo e o facto de ter caído o marxismo da União Soviética, estrondosamente, levou a que não houvesse uma contrapartida ao colectivismo. O liberalismo quer apresentar-se como única realidade para o futuro. Isso é que eu não posso aceitar.

P - Quando fala da necessidade de participação dos cristãos na vida política usa uma expressão curiosa: macro-caridade, no sentido de influenciar políticas que apontem para o bem comum e uma melhor distribuição da riqueza. Quer dizer que os católicos praticam muito a micro-caridade de proximidade e influenciam pouco as decisões que afectam toda a comunidade?
R - Exactamente. Se o católico conseguir que haja uma melhor distribuição dos rendimentos, que haja mais igualdade na sociedade, está a fazer macro-caridade que é muito superior à micro-caridade. Ao nível das desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres, Portugal está numa posição, a nível mundial, que passa os cem. Sabem quem são os nossos vizinhos nesta má distribuição do PIB? Estamos entre Moçambique e o Zimbábue. Isto é insustentável! Se o cristão e outros cidadãos de boa vontade conseguirem fazer uma sociedade mais justa, é isso que procuramos porque a micro-caridade resolve problemas sectoriais muito pequeninos.

P - Quando olha para a má distribuição da riqueza, sente-se com poder para apontar o dedo a um empresário católico que contribua para isso?
R - Nem todos os empresários terão as mãos limpas, mas eu não me preocupo com a riqueza dos ricos, mas com a pobreza dos pobres. Que os ricos sejam ricos, Deus os ajude, não lhes tenho inveja. O que não quero é que os pobres sejam pobres. Temos de ver estes problemas à escala global. Ainda estamos entre os países mais ricos do mundo. Atrás de nós há uma imensidão de países que não se podem dar aos luxos a que nós nos podemos dar. Nós vivemos numa sociedade pecaminosa no conceito cristão, porque alguns arranjam mecanismos de se apropriar de quase tudo para si
à custa daqueles que não conseguem defender as suas liberdades e os seus direitos.

P - Na área da Arquidiocese de Braga, acha que já batemos no fundo no que respeita às consequências da crise económica e social?
R - Eu julgo que batemos no fundo, mas penso que poderemos continuar neste fundo durante bastante tempo.

P - Ficou surpreendido com o que encontrou quando chegou a Braga?
R - Fiquei impressionado. A concorrência dos países asiáticos na indústria têxtil e do vestuário e, fundamentalmente, o processo de desenvolvimento tecnológico levaram à redução de mão de obra. O excesso de desenvolvimento tecnológico também leva ao rarear do trabalho.

P - Se a situação se vai manter durante um certo tempo, que mensagem tem a Igreja para as pessoas?
R - Procuramos estar junto dessas pessoas para satisfazer as suas necessidades económicas básicas. Como sabem, criámos na Arquidiocese de Braga, a partir dos padres e dos bispos, um fundo solidário.

P - Esse fundo é alimentado permanentemente?
R - Está a ser alimentado pelos sacerdotes com o 13º mês do ano de 2010. Uns deram-o todo na altura, outros foram dando parcelarmente. Há outras pessoas a doar para este fundo que ainda tem reserva e está a ser gerido por uma comissão de leigos. Na zona mais voltada ao Ave, estamos presentes com protocolos com instituições para a formação em determinadas áreas. Ajudamos como podemos, na certeza que não vamos montar fábricas.

P - Na última ordenação de diáconos disse que aos sacerdotes compete cuidar dos débeis e proteger os humildes. No geral, os sacerdotes cumprem essa missão?
R - Não faço juízos de valor. É uma rede importante, mas é preciso fazer muito mais. Fundamentalmente, que se criem em todas as paróquias cáritas, conferências vicentinas ou, no mínimo, aquilo que nós chamamos núcleos de observação social. Estamos a pedir aos sacerdotes que criem isso.

P - E os leigos têm-se envolvido nesse processo?
R - Os sacerdotes vão ser apenas o motor de arranque, passe a expressão. Esse trabalho deve ser feito pelos leigos. Nas visitas pastorais tenho feito esse apelo. Uma preocupação que nós levamos muito a peito são as solidões e os doentes. Hoje, o último drama da humanidade não é a falta de pão, mas o drama da solidão.

P - A Igreja Católica esteve de braço dado com o poder político na supressão dos feriados religiosos. Não poderia ter ido por outro caminho?
R - Ainda bem que a Santa Sé teve mais senso do que nós ao dificultar (risos). Aparece cada vez mais na sociedade, não sei se com ou sem fundamento, a ideia de que não vão ser os feriados a resolver o problema económico do país. Eu próprio também assim vejo. A dimensão da festa e do convívio é também uma dimensão humana, não é só a economia.

P - O acordo foi para cinco anos...
R - Como a Santa Sé e o Governo chegaram a acordo nessa linha, penso que é uma solução sensata e justa. Embora os bispos tenham discutido a questão a pedido do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, foi por antecipação, porque D. José Policarpo foi informado por alguém do Governo, que iam propor a Roma a negociação dos feriados. À luz da Concordata, os bispos não têm nada que decidir. Nós suspeitávamos que a Santa Sé pedisse a opinião dos bispos.

P - Seria uma opinião de peso.
R - Certamente. Mas como sabemos, a Santa Sé limitou mais do que os bispos.

P - Entende que, sendo esta supostamente transitória, seja a solução para resolver a questão da produtividade?
R - Eu estou convencido que isso vai resolver muito pouco. Mas esta opinião não é dogma, não estamos aqui em assuntos de fé.

P - Caso a Santa Sé fosse intransigível na questão dos feriados, a Igreja poderia ser acusada de menos solidária com o esforço nacional...
R - Evidentemente que o fariam. Pareceu à maior parte dos bispos, que não são técnicos, que era sensato que se retirassem dois feriados pedidos pelo Governo. Um deles, o Corpo de Deus, já não existe em grande parte da Europa. Passa-se esta celebração para o domingo seguinte. Com o Dia de Todos os Santos houve mais divisão. Os bispos inclinaram-se para o feriado de 15 de Agosto, porque há outras festas dedicadas a Nossa Senhora.

P - Nestes tempos de crise económica e de maior depressão colectiva, as pessoas aproximam-se do religioso?
R - Se eu quisesse uma religião pura dizia que não, mas a religião é feita dos circunstancialismos da vida de cada um de nós. Admito que a crise económica possa favorecer alguma aproximação à dimensão religiosa. Estou convencido que essa aproximação não é muito grande. Em termos históricos, sabemos que as épocas de prosperidade levam a algum afastamento da religião, mas a crise não será o factor mais determinante para a aproximação à religião.

P - Recentemente, a Universidade Católica Portuguesa apresentou um inquérito sobre a religiosidade dos portugueses. Parece ter havido uma redução da militância religiosidade dos católicos.
R - Não houve redução da militância, mas sim daqueles que se declararam pertencentes a um cristianismo católico sociológico, de tradição. A redução não é assim tão grande como possa parecer. Os dados estão a ser estudados por cada um de nós, bispos. Vamos reflecti-los mais, em Junho, nas Jornadas do Episcopado. Há dados que mostram alguma fraqueza da Igreja em determinadas zonas, por exemplo, nas urbanisticamente mais densas como a periferia de Lisboa e Algarve.

P -  É possível extrapolar conclusões para a área da Arquidiocese de Braga?
R - Não. Só o podemos fazer a nível da Região Norte. O cristianismo é fortemente nortenho, em pessoas de meia idade e ainda tem uma certa predominância das mulheres. Mas o número de mu-lheres baixou mais do que o dos homens.

P - E os jovens?
R - É preciso distinguir várias faixas etárias. Quando falamos em jovens, entendêmo-los a partir dos 22, 24 anos. De facto, há algum afastamento porque o adolescente, a primeira juventude, é quase sempre extremista, não no sentido negativo do termo. Fomos alertados que os dados até aos 22 anos não eram para levar muito a sério. Os sociólogos, eles próprios, têm dificuldade em os interpretar. Mas é inegável que, se não tivermos mais cuidado, uma parte das novas ge- rações está-se a perder para a fé.

P - Isso reflecte-se nas vocações sacerdotais?
R - Sem dúvida, embora notemos a nível da Arquidiocese e a nível nacional, um certo aumento. Para fazermos algum estudo temos que ter uma permanência de dados de alguns anos. A frequência religiosa dos jovens é inegável que está a diminuir.

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