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Vale do Ave

2018-09-19 às 13h14

Redacção

De 08 a 17 de novembro, a 27ª edição do Guimarães Jazz percorre múltiplas geografias do jazz, ao longo de 13 concertos

No terceiro milénio, e ao fim de mais de cem anos de história, tal como ficou devidamente assinalado na edição anterior do festival, o fenómeno jazzístico encontra-se perante questões de identidade muito sérias. Porém, ao invés de transmitir sintomas de esgotamento, o jazz parece ter compreendido que a solução para as suas questões passa pela necessidade de esta música se pensar e olhar a partir de fora para dentro. No contexto do Guimarães Jazz, e essa é a linha orientadora que atravessa o programa da edição de 2018 do festival, olhar de fora para dentro desta música implica explorar geografias alternativas ao território nativo do jazz, divulgar o trabalho de músicos jovens que nasceram quando o jazz se tinha já implementado plenamente na cultura moderna como uma das mais expressivas linguagens musicais e artísticas do século XX, dar espaço a músicos que se distinguiram em territórios musicais mais próximos das correntes experimentais e vanguardistas da música contemporânea e, por último, programar músicos menos mediáticos e inseridos em circuitos mais informais e artisticamente flexíveis. No fundo, a perspetiva que se assume nesta edição do Guimarães Jazz é assente numa vontade de explorar zonas criativas de contrainformação, assumindo uma crítica em relação ao presente da música e do mundo, e afirmando sobretudo a necessidade de reflexão em torno dos processos entrópicos e autofágicos, baseados em estímulos imediatos e sentimentos ilusórios de pertença, que caraterizam tanto a criação como o consumo na música no século XXI.
 
Do programa da edição de 2018 do Guimarães Jazz (08 a 17 de novembro) destaca-se, desde logo, o facto de contemplar a realização de 13 concertos em 10 dias consecutivos, algo que acontece pela primeira vez na história do festival. Este é um dado importante, uma vez que tem como consequência uma mais efetiva e constante presença da música na cidade e na agenda dos seus espetadores, contribuindo assim para aproximar ainda mais os músicos e as pessoas que organizam o festival do seu público. Apesar deste dado novo, o Guimarães Jazz continua a ser, tal como é a sua matriz desde o início, um festival equilibrado, refletindo-se esse equilíbrio em várias dimensões: na notoriedade e na idade dos músicos envolvidos, na tipologia das formações, na proveniência geográfica dos projetos e nas estéticas musicais representadas.
 
De entre os concertos de maior perfil, é justo destacar a presença de três nomes incontornáveis da história mais recente do jazz – o contrabaixista Dave Holland (08 novembro), o trompetista Dave Douglas (15 novembro) e o também trompetista, compositor e arranjador Steven Bernstein (10 novembro) –, músicos que, embora com percursos em contextos artísticos muitos diferentes entre si, contribuíram decisivamente para moldar a forma atual do jazz. Tanto o projeto AZIZA, de Holland, como UPLIFT, de Douglas, como a Millennial Territory Orchestra de Bernstein, constituem provas irrefutáveis da plena vitalidade musical de três dos grandes músicos da atualidade. Além do mais, estes três projetos têm a particularidade de contarem com a participação de músicos influentes da música contemporânea, de entre os quais é justo realçar a presença de Bill Laswell, baixista e produtor, e da vocalista Catherine Russell, duas figuras que, apesar de se expressarem em linguagens musicais muito díspares, podem ser considerados exemplos de uma invulgar postura de integridade artística e anti-estrelato.
 
Em 2018, um dos traços mais marcantes do Guimarães Jazz é a atenção prestada à nova geração do jazz. Nesse sentido, serão apresentados concertos de dois nomes emergentes da cena jazzística de Chicago (uma das cidades mitológicas do jazz, que continua a dar mostras de renovação e vitalidade musicais): o trompetista Marquis Hill (09 novembro) e o contrabaixista Matt Ulery (17 novembro), que, além do concerto com o projeto Delicate Charms, orientará as oficinas de jazz (12 a 16 novembro) e as jam sessions (08 a 10 e 15 a 17 novembro) e dirigirá a Big Band e o Ensemble de Cordas da ESMAE (11 novembro). A cada vez mais relevante dinâmica global da cena jazzística justifica também a presença no festival do trompetista israelita Avishai Cohen (16 novembro), um músico de grande nível que tem editado nos últimos anos pela prestigiada editora ECM, e do projeto “Cartas Brasileiras”, liderado pela flautista e compositora Léa Freire, que no festival se apresentará acompanhada pela Orquestra de Guimarães (14 novembro).
 
A exploração de geografias alternativas ao jazz norte-americano ficará, em 2018, também patente nos concertos programados para o Pequeno Auditório do CCVF, onde atuarão o Pablo Held Trio (10 novembro), um dos exemplos da qualidade dos projetos de jazz alemães, e a idiossincrática banda Random/Control, liderada pelo talentoso pianista austríaco David Helbock (12 novembro). É também neste contexto que se apresentará o acordeonista português João Barradas (13 novembro), um músico notável cuja carreira se encontra numa trajetória de crescente notoriedade e reconhecimento internacional e que, em Guimarães, se apresentará em quarteto acompanhado por músicos europeus emergentes e que terá como convidado especial o saxofonista norte-americano Greg Osby.
 
A colaboração com, por um lado, a Associação Porta-Jazz (11 novembro) e, pelo outro, com a ESMAE volta a realizar-se, reafirmando a aposta do festival nos jovens músicos portugueses, e neste ano, como é habitual, realizam-se as oficinas de jazz e as jam sessions, extensões do festival que constituem uma das dimensões mais importantes da sua implantação na cidade e no meio jazzístico, ao mesmo tempo que contribuem para potenciar a formação e o crescimento musical dos jovens músicos do país.
 
O Guimarães Jazz encerrará a sua edição de 2018 com a Mingus Big Band (17 novembro), um concerto de homenagem a Charles Mingus que será, certamente, um dos momentos altos do festival. Liderado pela viúva do homenageado, esta big band é composta por instrumentistas de altíssimo nível e considerada como um dos projetos mais artisticamente relevantes de revisitação das obras de compositores de jazz. Numa altura em que o futuro da música, e do mundo, se afigura difuso e difícil de antecipar, faz todo o sentido regressarmos a Charles Mingus, um dos nomes mais influentes da música do século XX, e inspirarmo-nos no seu exemplo de integridade e audácia artísticas, que hoje, mais do que nunca, julgamos ser importante celebrar e divulgar, projetando-o no futuro.

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