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Hipermercados abertos ao domingo não aumentam emprego

Entrevistas

2010-10-02 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

O presidente da Associação Comercial de Braga receia mais falências no pequeno comércio se se concretizar o alargamento dos horários das grandes superfícies comerciais. Entrevistado no programa “Primeiro Plano”, do “Correio do Minho-Rádio Antena Minho”, Domingos Barbosa prevê uma ‘hecatombe comercial’ com a saída do Hospital do centro da cidade de Braga.

O presidente da Associação Comercial de Braga receia mais falências no pequeno comércio se se concretizar o alargamento dos horários das grandes superfícies comerciais. Entrevistado no programa “Primeiro Plano”, do “Correio do Minho-Rádio Antena Minho”, Domingos Barbosa prevê uma ‘hecatombe comercial’ com a saída do Hospital do centro da cidade de Braga.

CM-AM - O que espera das autarquias da área de influência da Associação Comercial de Braga (ACB) sobre o alargamento do horário de funcionamento das grandes superfícies comerciais?
Domingos Barbosa - A nossa posição relativamente à abertura do comércio ao domingo à tarde é contrária aos interesses das grandes superfícies e do Governo. A decisão tomada configura uma cedência muito grande aos interesses da grande distribuição. O alargamento dos horários vai trazer consequências a nível do comércio de cidade e rural. O problema é a decisão do alargamento ser colocada nas câmaras municipais. As câmaras terão essa dificuldade em mãos. A Câmara de Braga, por exemplo, terá dificuldade em dizer que não autoriza o alargamento do horário se outros municípios vizinhos o autorizarem.

CM-AM - Esse tem sido o argumento usado para o licenciamento das grandes superfícies comerciais...
Domingos Barbosa - As cadeias de distribuição estão na expectactiva sobre os sinais que vão ser dados no país pelos diversos municípios. O pior que nos aconteceu foi a cedência fácil do Governo numa matéria tão importante.

CM-AM - O Governo sacudiu a água do capote?
Domingos Barbosa - Como já o faz no licenciamento das grandes superfícies comerciais.

CM-AM - Não está à espera que as câmaras municipais onde estão as grandes superfícies comerciais venham a colocar restrições ao alargamento de horários. Nesse cenário, o que pensa que poderá acontecer ao pequeno comércio de cidade e ao comércio rural?
Domingos Barbosa - O ideal era que os municípios mais próximos e de maior concentração populacional e de superfícies comerciais concertassem posições sobre o que é mais importante para a região e para o tecido empresarial, sobretudo para as pequenas e médias empresas. Mas ainda não vi ne-nhuma movimentação nesse sentido. A lei também ainda não está completa. Se não houver essa concertação, será muito difícil conter a apetência das grandes superfícies. Até à data houve sempre uma cedência.

CM-AM - Mas todos sabemos que os hábitos de vida e de consumo se alteraram nos últimos anos. Os consumidores sentem necessidade de ter comércio a funcionar em horários cada vez mais alargados. Não considera que o comércio dito tradicional terá que caminhar também no sentido da liberalização de horários?
Domingos Barbosa - O comércio tradicional e independente podia ir nesse sentido, mas como compreende esse comércio é parte de um todo. Para o pequeno comércio funcionar em horários alargados, todos os serviços também teriam de funcionar assim: os bancos, serviços públicos, os transportes... O comércio tradicional não pode funcionar isoladamente, sem transportes e sem serviços. Não poderemos fazer frente às grandes superfícies comerciais. O que não quer dizer que, em algumas ocasiões do ano, em noites em que haja animação na cidade, o comércio não possa funcionar em horário alargado.

Mudança do Hospital provocará hecatombe comercial

CM-AM - A ACB tem vindo a alertar para as consequências da próxima saída do Hospital de Braga do centro da cidade.
Domingos Barbosa - São preocupações que nos têm chegado constantemente dos comerciantes que vivem da dinâmica que se gera à volta do Hospital de Braga. O Hospital movimenta 11 mil pessoas diariamente. Os comerciantes e prestadores de serviços estão preocupados com a deslocalização do Hospital. Até ao momento, não há nenhuma indicação concreta e assumida do que vai acontecer àquela estrutura. O que sabemos é que, quando o Hospital sair, o pequeno comércio irá sofrer muito com isso.

CM-AM - Criando-se uma nova centralidade com a deslocalização do Hospital para a zona das Sete Fontes e de Gualtar, isso vai obrigar a que o comércio acompanhe o próprio Hospital. O que vai acontecer a espaços comerciais do centro da cidade que estão próximos do actual Hospital?
Domingos Barbosa - Nós sabemos que o novo Hospital vai criar uma nova centralidade muito periférica, que poderá arrastar alguns negócios específicos. Estes são ajustamentos que, ao longo do tempo, se irão recompondo, mas, no imediato, vai haver um choque. Temos de combater isso com as armas que temos: já reunimos com a Santa Casa da Misericórdia de Braga para saber o que está previsto para as actuais instalações do Hospital de S.Marcos, mas a instituição não tem nada em mão. Por isso, também estamos impedidos de informar os nossos associados daquela zona sobre o que está previsto no futuro. Esses empresários têm de projectar a vida deles.

CM-AM - O Hospital deve transferir-se em Maio do próximo ano e não é crível que as instalações actuais sejam reaproveitadas de imediato. Há lojas que vão fechar, necessariamente.
Domingos Barbosa - Estamos a prever uma grande hecatombe, um cancro autêntico em termos comerciais. Já antecipámos e já alertámos para esse problema a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte e o Governo.

CM-AM - Com a Câmara de Braga tem havido uma análise daquilo que poderá acontecer?
Domingos Barbosa - As nossas preocupações são públicas e a Câmara sabe disso. Não temos conversado sobre a forma como poderíamos amenizar os efeitos negativos dessa situação.

CM-AM - A ACB tem vindo a sugerir - não exactamente para a zona do actual Hospital - a criação de novos serviços públicos, nomeadamente uma nova Loja do Cidadão.
Domingos Barbosa - Nós lançámos essa ideia aquando do anúncio da minha candidatura à presidência da ACB. A actual Loja do Cidadão regista filas intermináveis de utentes, o que aconselha que olhemos para a questão. A solução seria arranjar um segundo ponto de atendimento. Nós estamos preocupados em dar vida à cidade, e uma forma de o fazer é criar pólos que sejam dinamizadores do tecido empresarial que está instalado. É nossa obrigação falar e ir dando pistas do que é importante para a cidade, ajudando quem tem responsabilidades na gestão do território.

CM-AM - Há uma localização pensada para essa segunda Loja do Cidadão?
Domingos Barbosa - A localização tem sempre a ver com o objectivo de dar vida à cidade. Nós conhecemos a cidade de Braga com muito mais vida do que a que tem agora. É possível voltar a ter a cidade com muita vida, com muita animação. Para isso é preciso sermos cirúrgicos na forma como a pensamos, como é que a dimensionamos. Os novos serviços deveriam ser estrategicamente localizados para povoar a cidade.

Instalar novos negócios nos centros comerciais de primeira geração

CM-AM - Recentemente, o Bloco de Esquerda denunciou que 110 lojas fecharam no centro da cidade, número que duplica se considerarmos na zona envolvente?
Domingos Barbosa - Confirmo e até os amplio. Basta passar pelas ruas da cidade.

CM-AM - Acha que o centro histórico da cidade está a definhar?
Domingos Barbosa - Não seria tão radical. O que digo é que devemos ter cautela, porque não vemos melhorias em termos de fluxos populacionais.

CM-AM - Na Rua do Souto, uma zona nobre em termos comerciais, já há várias lojas fechadas...
Domingos Barbosa - Quando vemos o que se passa na Rua do Souto temos o retrato do resto do centro da cidade. Outras lojas não têm fechado porque são o último recurso de emprego e de segurança social para muitos comerciantes enquanto esperam pela idade da reforma. Esses é que estão a definhar.

CM-AM - Mas praticamente ao lado da Rua do Souto, na Avenida da Liberdade, surgem novos empreendimentos como o do grupo Regojo. É um sinal contraditório na actual situação de crise generalizada. Como vê o surgir deste tipo de empreendimentos?
Domingos Barbosa - O empreendimento Regojo tem uma lógica de comércio de rua. Queremos crer que, pelo formato e pela qualidade do empreendimento, só acrescenta qualidade ao nosso comércio tradicional. Não tem a lógica das grandes superfícies. A ACB entende que o empreendimento Regojo é positivo para o comércio tradicional, da mesma forma que formatos do género que viessem para o quarteirão do ex-quartel da GNR ou para o Campo das Hortas também seriam muito positivos. O empreendimento Regojo contempla habita-ção, o que é capaz de ser uma alavanca para o crescimento populacional do centro da cidade de Braga.

CM-AM - ACB tem manifestado também preocupação com o estado dos chamados centros comerciais de primeira geração: ‘Shopping Santa Cruz’, ‘Galécia’, ‘Rechicho’, ‘Este’, ‘Lafayette’ e outros. Alguns deles são mesmos zonas bastante desqualificadas. Que solução apontam para esses espaços?
Domingos Barbosa - Temos conversado com a Câmara de Braga sobre isso e dentro de pouco tempo teremos novidades. Defendemos a cria-ção de incubadoras de apoio ao empreendedorismo nesses espaços, com apoios às rendas. Hoje, um dos maiores obstáculos ao empreendedorismo são as rendas. A solução que estamos a apontar é a criação de um incentivo à instalação de novos empresários que se queiram lançar nesses espaços. Dá -se o caso de o Governo estar a investir em grandes incubadoras empresariais quando temos muitos espaços dentro da cidade que estão abandonados e a criar problemas de segurança. É um problema que urge resolver.

CM-AM - Essa é uma solução que está a ser estudada pela ACB e pela Câmara de Braga?
Domingos Barbosa - Pela Câmara de Braga, está a ser colocada a instâncias superiores.

CM-AM - Através do MODCOM - Sistema de Incentivos à Modernização do Comércio têm vindo muitos milhões para a modernização do comércio bracarense?
Domingos Barbosa - Isso é que fazia falta.

CM-AM - Mas anúncios de milhões e de candidaturas têm sido feitos?
Domingos Barbosa - A execução do MODCOM nesta região é muito baixa, embora nós tivéssemos, em 2006, uma avalanche muito grande de projectos que transformou a cidade de Braga. Nós temos hoje um grande centro comercial a céu aberto, mas ainda é preciso muito apoio. Neste último quadro, não veio nada para Braga. Braga não teve nenhum projecto apoiado nesta última fase do MODCOM.

CM-AM - Por falta de projectos?
Domingos Barbosa - Não sabemos. A informação não é escorreita.

CM-AM - A promoção de Braga como centro comercial a céu aberto choca com o fecho de lojas de que fala.
Domingos Barbosa - Nós temos feito um esforço de promoção da cidade. Nós temos que vender a cidade para fora. Temos que atrair consumidores de fora. Estamos agora a concretizar o programa Braga - o comércio está no centro.

CM-AM - Essas são armas com que conseguem fazer frente à grande distribuição?
Domingos Barbosa - O que temos que fazer é criar dinâmicas no centro da cidade. As centralidades que existem na periferia da cidade só as podemos contrariar com as dinâmicas de que temos vindo a falar, promovendo a cidade nos seus variados aspectos. Só pela notoriedade da cidade é que nós podemos criar dinâmicas comerciais.

CM-AM - Creio ter lido que foi levantada novamente a ideia de criar uma cobertura para a Rua do Souto.
Domingos Barbosa - Eu não sou o autor da ideia. A ideia já foi lançada há muitos anos. O que eu disse é que isso era o melhor que podia acontecer depois de todo o trabalho urbanístico que se fez e que se vai continuar a fazer. A cereja no bolo desse trabalho era, se pudéssemos, cobrir algumas ruas. Eu não tenho conhecimentos técnicos para dizer se isso é possível, mas tenho informação de pessoas que me afirmam que será possível sem beliscar com a arquitectura das ruas. Não está na agenda do dia, mas era bom para a cidade se fosse possível.

As grandes superfícies comerciais não aumentam o emprego

CM-AM - Estamos a entrar numa época que costuma ser a melhor para o comércio. O que é que a ACB vai fazer até ao Natal com esta conjuntura económica desfavorável?
Domingos Barbosa - Nós estamos a implementar um programa de dinamização do comércio que ainda contempla algumas acções. Vamos ter uma acção de promoção da cidade de Braga no Porto e na Galiza...

CM-AM - Acha possível trazer a Braga consumidores da Galiza e do Porto?
Domingos Barbosa - Sobre a Galiza, eu penso que estamos perto de um mercado com um potencial muito superior ao nosso e que temos de o trabalhar. Por isso lançámos a ideia de uma euroregião que não seja apenas política e institucional. Você lembra-se da Bracalândia que mobilizava muitos galegos para Braga.

CM-AM - Mas, fora da Semana Santa, como é que se consegue convencer um consumidor galego a vir a Braga?
Domingos Barbosa - Se comunicarmos bem a cidade de Braga. Se tivermos um marketing de cidade. Nunca nos virámos muito para aí. O que a Câmara, a comissão da Semana Santa e a ACB têm feito é muito pouco. Temos que fazer muito mais.

CM-AM - A Entidade Regional de Turismo Porto e Norte de Portugal deverá ser a instuição a fazer esse trabalho?
Domingos Barbosa - Quero crer que eles estão atentos e que vão despertar para essa realidade. Dentro de pouco tempo vamos reunir com essa Entidade.

CM-AM - O pagamento de portagens nas SCUT irá afastar-nos ainda mais dos galegos?
R - Claro. Tudo aquilo que agrave os custos de contexto traz problemas. Ficará mais caro vir a Braga.

CM-AM - Foram anunciadas pelo Governo fortes restrições ao consumo, nomeadadamente a subida do IVA. Como é que o comércio de Braga vai reagir?
Domingos Barbosa - A situação conjuntural preocupanos a todos. Vamos ter mais desemprego, que é a coisa que mais nos preocupa. E estamos a trocar emprego estável por instável. Quando se pretende abrir uma grande superfície ao domingo, está-se a prejudicar o comércio tradicional e rural. As grandes superfícies comerciais não aumentam o emprego. Isso é uma falácia. Não há nenhuma grande superfície que mantenha os critérios de abertura. Em todas, os postos de trabalho estão muito abaixo dos pressupostos de licenciamento. A certeza que nós temos é que o alargamento do horário ao domingo é para destruir e não para criar emprego. Admiro-me como é que o Governo toma medidas destas, insensatas, em prejuízo do bom emprego.

CM-AM - Que consequências adivinha para o pequeno comércio da subida do IVA?
Domingos Barbosa - A diminuição das vendas. As pequenas empresas estão já a diminuir às suas despesas, coisa que o Estado não faz.

CM-AM - Uma nova grande superfície co-mercial está com dificuldades em abrir. em Braga. É um sinal da saturação que diz existir no concelho em termos destes espaços?
Domingos Barbosa - Repare que em Braga ainda estão licenciadas mais grandes superfícies comerciais.

CM-AM - Mas que não se concretizaram.
Domingos Barbosa - Nunca mais se concretizarão, se houver alguma lógica de investimento. Suponho que nem o “Dolce Vita” terá grandes hipóteses de sucesso. Tem havido pressão de algumas marcas junto de nossos associados para irem para lá. Se eles já estão dificuldades em manter a rentabilidade das marcas nos espaços que dispõem na cidade e noutras grandes superfícies...

CM-AM - Esse multiplicar de projectos de médias e grandes superfícies comer- ciais no concelho deveu-se a quê?
Domingos Barbosa - Os estudos de mercado que fazem não são correctos. Como há uma especulação imobiliária gritante, vão nesse sentido, não de uma razoabilidade comercial.

CM-AM - Mas em Braga as grandes superfícies comerciais mantêm-se e o que encerra é o pequeno comércio.
Domingos Barbosa - O “Carrefour” já foi embora, o que não é muito bonito para Braga e para o país. A imagem de Braga não sai muito bem na fotografia se o “Dolce Vita” tiver dificuldades. Como é que os investidores olham para este território? Pensam que se vende gato por lebre.

CM-AM - Ao nível dos serviços, da hotelaria e da restauração, o cenário já é mais positivo?
Domingos Barbosa - Tenham em conta que esta região é a mais segura do ponto de vista da segurança alimentar. A ACB tem dois técnicos no terreno que visitam todas as empresas de restauração, pastelaria e afins. Nós podemos vender essa imagem de região com maior segurança alimentar. Os restaurantes e pastelarias são âncoras que mobilizam muitos consumidores para a cidade.

CM-AM - Ainda não houve resposta ao plano de emergência apresentado pela ACB para fazer face às consequências dos incêndios no Parque Nacional das Peneda-Gerês?
Domingos Barbosa - Está a ser objecto de estudo. Reunimos há dias com o director regional de Economia do Norte e com o governador civil de Braga. Estamos incumbidos de apresentar outros dados que consolidem as preocupações dos empresários. Uma das medidas que vai ser implementada a curto ou médio prazo é um programa promocional do Gerês.

CM-AM - ACB associou-se à participação do Sporting de Braga na Liga dos Campeões. É importante para uma cidade ter um clube de futebol com projecção europeia?
Domingos Barbosa - É muito importante pela visibilidade que dá à cidade. O Sporting de Braga representa um dos maiores embaixadores da cidade de Braga. A notoriedade que deu à cidade cria fluxos de pessoas e de negócios. Só podemos estar muito agradecidos ao Sporting de Braga. O sorteio da Liga dos Campeões não foi muito favorável neste aspecto. Os comerciantes ganhavam mais com um Manchester, um Real Madrid ou um Barcelona.

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