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Hoje temos máquinas que aprendem
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Hoje temos máquinas que aprendem

Entrevistas

2020-01-25 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

Paulo Novais é considerado uma referência na inteligência artificial (IA) em Portugal. Cumpriu dois mandatos como presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial e é, actualmente, presidente da sua assembleia geral. Professor e investigador do Departamento de Informática da Universidade do Minho, confessa, em entrevista ao jornal Correio do Minho e rádio Antena Minho, o desejo de ter nesta região um laboratório associado de inteligência artificial. Cientista com fé, preside ao Centro Social da Irmandade de S. Torcato, em Guimarães. Trabalha com os 0 e 1 da programação, convicto que há um ser superior que lhes dá sentido.

P - Com a inteligência artificial (IA), a sociedade corre o risco de ter uma criatura a dominar o criador?
R - Hoje, a inteligência artificial tem como objectivo estudar e descodificar a inteligência, entender as suas diversas facetas. Tenta entender o que é a autonomia, a proactividade, a socialização e outras formas de inteligência. O objectivo final é sempre o desenvolvimento de sistemas computacionais inteligentes. Não me peçam para medir esta inteligência. Há diferentes manifestações de inteligência adequadas para resolver determinado tipo de problemas. Hoje em dia dizemos que a IA serve para expandir a inteligência humana e as suas capacidades.

P - E não substituí-la?
R - Não necessariamente substituí-la. Um dos maiores cientistas de IA, Iann LeCun, diz que a condição humana caracteriza-se, essencialmente, pela inteligência e que a IA é a expansão dessa capacidade. Vejo a IA afastada dos cenários ‘terminator’ e mais como algo para ajudar o humano no dia a dia. Não acredito numa criação tipo Franksenstein que nos supera. Estamos ainda na Idade Média da IA. Nesse sentido, estamos a ver surgir coisas. A IA é uma ferramenta que ajuda a diminuir a complexidade das decisões. A área médica é um bom exemplo. Têm noção de quantas imagens são analisadas numa tomografia axial computorizada? São milhares. Nenhum médico tem capacidade de as analisar todas. A IA o que faz é indicar ao médico as áreas onde tem de focar a sua atenção.

P - Nunca corremos o risco de sermos trocados por máquinas? A inteligência humana irá sempre sobrepor-se?
R - Não, mas sim. Não imagino um tempo em que a máquina humana vá ser suplantada, mas, sim, já está a ser suplantada em tarefas que, no passado, eram feitas por humanos e que agora já não.

P - E isso é bom?
R - É óptimo. A IA proporciona-nos uma vida, não direi melhor, mas diferente. É evidente que nunca mais um humano vai ser o grão mestre no xadrez. Aqui a máquina venceu-nos, porque é muito mais rápida. Isso não é mau. Não vejo problema nenhum uma máquina ajudar um humano a tomar decisões. Até agora, estávamos a produzir IA baseada naquilo que, há três mil anos antes de Cristo, já existia: a representação da informação em regras. Programar uma máquina, mais ou menos inteligente, era fornecer-lhe informação que ela usava. Isso significava que todo o conhecimento era controlado por nós. O paradigma mudou. Hoje, pela primeira vez, temos máquinas que aprendem.

P -Não é aí que se passa a fronteira?
R - Ultrapassa-se uma fronteira, que para mim não tem mal nenhum, que é a capacidade de a máquina aprender por si só a encontrar correlações num determinado domínio. Ela aprende em situações de complexidade que ultrapassam a nossa capacidade de controlar um número determinado de variáveis.

P - A ligação em rede das máquinas não nos faz caminhar para um cenário da ficção científica?
R - Uma área que está a começar a ser estudada é a ‘wise’, que tanto pode ser sabedoria como sensatez. Julgo que ainda estamos na Idade Média da IA, provavelmente estamos a chegar ao Renascimento, ao momento em que se abre um leque muito importante de oportunidades e de áreas, sendo importante pôr aqui muita filosofia e sensatez para não se ir para situações que não controlamos à partida.

Estamos a tentar criar laboratório associado de inteligência artificial do Norte

P - No campo da Justiça, já há experiências de máquinas a produzir sentenças. Esta não é uma área em que o humano pode perder o controlo da situação?
R - Na Universidade do Minho temos um mestrado de Direito Informático em que o Departamento de Informática colabora com a Escola de Direito. Nesse contexto, temos feito algumas experiências para, por exemplo, ajudar os juízes a fazer automaticamente a divisão de heranças ou a decidir custódias de menores. Qualquer um de nós consegue imaginar um sistema que, olhando a preferências e a valores, consegue gerar acórdãos. O que é que prefere? Uma máquina capaz de gerar acórdãos com base em dados objectivos, ou uma máquina subjectiva que olha para algo que não está na lei?

P - Estamos a falar de um direito administrativo. Está a imaginar um robot a decidir um processo criminal?
R - Estou a imaginar qualquer caso. O seu receio tem a ver com preconceitos. Não tem a ver com o Direito, mas a empresa Amazon fez una análise dos seus processos de recrutamento e detectou que havia preconceitos em relação a determinada raça e a determinado género. Preconceitos em processos controlados por humanos. Num tribunal dos Estados Unidos da América foram avaliadas todas as sentenças e, através de um processo de IA, descobriram comportamentos frequentes, isto é, padrões.?Determinaram que, sendo de uma determinada raça e determinada faixa etária, o preconceito levava, quase pela certa, a que essa pessoa fosse condenada. Eu gosto do factor humano, de um juiz, com a sensibilidade de um humano, consiga distinguir o bem e o mal. Não quero uma máquina a julgar por mim, mas quero uma máquina que ajude o juiz a tomar decisões mais adequadas como se faz na medicina. Não tenho medo nenhum da IA, tenho mais medo da estupidez humana.

P - E há a atenuantes.
R - Mas as atenuantes podemos padronizá-las.

P - Em Braga, a Bosch e a Universidade do Minho estão a trabalhar em projectos de condução autónoma com aplicação de soluções de IA. Quando é que podemos viajar num automóvel sem condutor?
R - A Universidade do Minho está envolvida com a Bosch em projectos âncora e de bandeira. Há dias perguntava a alunos da Universidade do Minho se se recordavam de um anúncio de uma marca sueca que prometia os carros mais seguros do mundo. Pedi-lhes que imaginassem agora um carro que não matasse mais ninguém e se aceitavam um carro desses. Nós somos altruistas até ao ponto em que isso não ponha em causa a nossa condição e a nossa sobrevivência. Acredito numa evolução gradual. Não há ainda carros autónomos na rua porque há carros não autónomos.?Se acabássemos com os carros normais, já teríamos carros autónomos. A tecnologia já está desenvolvida. Na Universidade do Minho estamos a pensar num sistema em que o condutor de um carro autónomo tenha possibilidade de tomar decisões tais como desligar o carro ou parar. Num carro autónomo que não tem volante nem outros instrumentos, tem de haver um sistema que permita fazer isso. O carro tem de se adaptar às necessidades e às preferências das pessoas que vão dentro dele. É o que estamos a estudar e a desenvolver com a Bosch. Não sei se brevemente teremos carros autónomos, ou sim carros cada vez mais autónomos. Tem de haver uma introdução gradual da tecnologia para as pessoas ganharem confiança nela.

P - As pessoas confiam na tecnologia?
R - Acho que sim. Acho que até confiamos de mais. O problema é que o mercado tem ânsia de ter novos ‘gadgets’, de novas coisas. A velocidade, às vezes, é má conselheira, porque não nos dá o tempo de olhar para as coisas e ponderar bem a sua utilização.

P - A IA é investigação acelerada. Em que áreas está mais adiantada?
R - Antes de responder, deixe-me dizer que um CEO da Google afirmou há uns tempos que o computador está já ao nível humano em funções essenciais como a escrita, fala, leitura e visão. Isso significa que todas estas funções humanas podem ser automatizadas em todas as áreas. Como sabem, hoje já há sistemas que, com base em diferentes fontes de dados, podem gerar notícias. E com algum rigor, porque o estilo jornalístico tem regras que se podem modelar para construir um texto com alguma consistência.

P - Também com maus usos...
R - Já lá vamos.?Deixe-me falar dos bons. (risos). Estamos a alargar para diferentes domínios a automação de tarefas, fundamentalmente na indústria. Estão a ficar de fora as funções de baixa complexidade, que não justificam, do ponto de vista financeiro, a sua automoção, e as actividades criativas em que o ver, escrever, falar ou o ler não são suficientes. Se tivesse de apontar uma área de grande evolução, diria a tradução automática. Portugal tem uma grande empresa, a Unbabel. Veja-se o salto do Google Translate.

P - A sua equipa está a trabalhar em que áreas?
R - Nos últimos anos tenho trabalhado naquilo que chamo ambientes inteligentes. Para além de estar envolvido nos projectos da Bosch, estou com um projecto agora aprovado e que vamos iniciar este mês na área da IA em Administração Pública, com a empresa Águas do Norte e o Departamento de Engenharia Biológica. Vamos monitorizar as águas residuais de uma ETAR. Vamos controlar e optmizar todos os processos, dando todo o tipo de informação que pode ser útil para aumentar a eficiência do sistema. No nosso grupo temos fortes ligações à área da Saúde. Temos colegas a trabalhar em imagiologia. Eu tenho projectos na área da detecção e monitorização de stress. Estive a colaborar com o grupo do professor Nuno Sousa na análise de padrões para detectar se as pessoas estão stressadas ou não.

P - Tem-se escrito e dito muito sobre as perspectivas da IA como resposta a doenças como a paralisia cerebral ou o alzheimer.?Que instrumentos já existem para melhorar a qualidade de vida destes doentes?
R - Há alguns sistemas que estimulam actividades. Estive ligado, com a minha colega Filomena Soares, do Departamento de Engenharia Electrónica e Industrial, no desenvolvimento de sistemas que estimulam pessoas com alzheimer a jogar boccia, em articulação com a equipa do Sporting Clube de Braga. Criámos um sistema que ajuda os jogadores a melhorar a sua performance. Tenho um projecto, com o qual ganhei um prémio numa conferência internacional, em colaboração com a Universidade de Alicante e o Politécnico de Valência, que é um robot que faz de ‘personal trainer’, que se ajusta às características físicas e ao desempenho da pessoa, aumentando ou diminuindo os exercícios.

P - É um protótipo?
R - Sim. Uma instituição como aquela em que eu trabalho não tem de interferir no processo produtivo. Temos de desenvolver ideias e protótipos, mas a produção não nos deve caber a nós. Há, lá fora, outros projectos baseados na estimulação da memória por imagem, na estimulação do raciocínio lógico. Aplicações que estão a ser desenvolvidas com mais ou menos IA. Outra área com muito trabalho de IA tem a ver com os ‘neuro brain interfaces’, permitindo a pessoas com limitações ao nível dos membros poder expandir as suas capacidades.

P - Já disse que Portugal tem condições para receber um Centro Europeu de Inteligência Artificial. Isso pode estar em perspectiva num futuro próximo?
R - Portugal tem um problema de dimensão, não vale a pena negá-lo. À nossa dimensão, temos uma comunidade muito activa e grande. Há portugueses muito bem colocados internacionalmente. O Fernando Pereira é um dos vice-presidentes da Google para a investigação e IA, a Manuela Veloso está a liderar uma divisão de IA da Morgan Financial Group. Recursos humanos temos, infraestruturas até temos, o que nos falta é alguma dimensão e apostas do próprio Estado. Para estas coisas é preciso lobing, é preciso vontade. Penso que isso tem faltado um bocadinho. São precisas iniciativas estatais. Há agora uma Estratégia Nacional para a Inteligência Artificial, mas falta concretizar apostas. Estamos a tentar criar um Laboratório Associado de IA do Norte. Eu gostaria muito que ele viesse. Como o Algoritmi é bastante grande, há uma forte possibilidade dele ficar sediado no Minho.

P - A instalação no Minho de supercomputadores pode ajudar?
R - Os supercomputadores e o QuantumLab onde a Universidade do Minho tem um papel relevante. Eu tenho o privilégio de trabalhar numa universidade jovem ainda, muito estimulante e muito activo.

P - E já de referência ao nível das ciências matemáticas e computacionais.
R - E mesmo ao nível das outras engenharias e das ciências sociais, que nos dão os inputs necessários, porque hoje a ciência é multidisciplinar. Não basta eu saber que 2+2 é igual a 4. Tenho de perceber que aquele 2 são duas pessoas, são dois carros e as implicações que isso tem.

P - As ciências socais têm um papel importante ao nível do desenvolvimento de soluções de IA?
R - Sabem qual é o curso que tem mais procura de especialistas de ciência de dados? Um curso de História em Oxford. Não basta.

Apanhamos o comboio da Inteligência Artificial ou somos irrelevantes

P - A IA tende a tornar as sociedades mais justas, mais equilibradas, ou vai acentuar as diferenças entre o Norte e o Sul, entre os mais ricos e os mais pobres?
R -?Eu uso a analogia do comboio. O comboio da IA está a passar e só vai passar uma vez. Ou apanhamos o comboio em primeira, segunda ou terceira classe. Provavelmente, não teremos capacidade para apanhar a primeira classe, mas apanhamos a segunda ou terceira. Se não o apanhamos, o nosso futuro é de irrelevância total. Antigamente havia um ‘delay’, era possível esperar que os outros aplicassem uma determinada tecnologia e importávamos essa tecnologia com os custos de sermos os segundos. As revoluções industriais chegaram um pouco mais tarde a Portugal, mas chegaram, mas as coisas foram andando. Desta vez, não. Esta revolução vai mexer com o que é fundamental: o conhecimento. Continuarei a pressionar todos os decisores a apanhar este comboio. Se não o apanharmos, vamos ser irrelevantes. Este é daqueles momentos em que temos de tomar decisões. O Japão, que já está no comboio, nos documentos oficiais já fala em sociedade 5.0, não fala em indústria 4.0. O Japão quer ter, nos próximos anos, proficiência em IA para 50 mil técnicos, quer ter formação em IA nos diferentes níveis de escolaridade, desde o início, para as crianças terem a facilidade de programar coisas com mais ou menos IA. O Japão está-se a preparar para ter um corpo de recursos humanos nesta área, que lhe vai garantir estar no comboio em primeira classe.

P - Portugal está a preparar uma Estratégia Nacional para a Inteligência Artificial. com o horizonte de 2030. É uma das pessoas que está a ser consultada?
R - Participei como presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial.

P - Ainda vamos a tempo de apanhar o comboio com essa Estratégia Nacional?
R - Vamos ser claros: a nossa estratégia está condicionada à estratégia europeia. No entanto, eu entendo que deveríamos ser um bocadinho mais atrevidos. Às vezes o nosso problema é querer tocar em todos os instrumentos. Eu diria que deveríamos apostar naquilo em que somos bons, nas indústrias tradicionais, quaisquer que elas sejam, e incorporar IA para melhorar os nossos processos. Numa primeira vaga, seria isso que eu faria, muitomais do que inventar o novo. Aqui no Minho é o que estamos a fazer com a Bosch, que é uma indústria tradicional aqui. E dar instrumentos aos jovens, porque vocês não sabem a criatividade que ainda por aí. Os jovens já perceberam o valor da tecnologia e utilizam-na. Temos de dar instrumentos a essa gente de boa vontade e com muita criatividade. É aí que está o presente e o futuro do país.

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