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‘A Insustentável Leveza do Ser’ em Seide segundo Lídia Jorge
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‘A Insustentável Leveza do Ser’ em Seide segundo Lídia Jorge

Entrevistas

2011-01-28 às 06h00

Rui Serapicos Rui Serapicos

O Centro de Estudos Camilianos, em Vila Nova de Famalicão, projecta hoje, às 21h30, o filme ‘A Insustentável Leveza do Ser’, escolha da escritora Lídia Jorge.

‘A Insustentável Leveza do Ser’ de Philip Kaufman, baseado no romance de Milan Kundera é a escolha da escritora Lídia Jorge, convidada para a iniciativa “Um livro um filme”. A história passa-se durante a invasão soviética à Checoslováquia, em 1968, com efeitos nas vidas de pessoas que tinham esperanças simples de amores e de felicidades.

A autora de ‘O Dia dos Prodígios’, ‘O Vento Assobiando sobre as Gruas’ e ‘A Costa dos Murmúrios’ — recentemente adaptado ao cinema, conta-nos em entrevista as razões da sua escolha.

Correio do Minho — Se lhe pedissem para escolher um romance ou um filme com personalidades 'vulgares' a sua escolha seria a mesma?
Lídia Jorge — Sim, voltava a escolher a mesma obra. Esta é uma história de gente comum, de gente que não tem lugar de destaque na História. O Kundera consegue fazer heróis romanescos a partir de personagens comuns, como se se tratasse de amostras de colectividade, metáforas da sociedade, máximos divisores comuns, carregados de poesia. Ele consegue que cada indivíduo, mesmo sem História, seja único.

CM — 'A Insustentável Leveza do Ser' é pura ficção, uma obra de realidade verosímil, ou nem uma coisa nem outra?
LJ — Nunca há pura ficção. Há sempre um pedaço de alguém, biográfico, auto-biográfico, ou socio-biográfico. O próprio Kundera conta que fez o Thomas baseado num caso real. Claro que acrescentou o resto. Aliás, o Kundera diz mesmo que nenhum escritor deveria escrever uma auto-biografia por que a sua biografia é o tijolo da sua obra. Há uma inquietação do autor, transposta por uma terceira pessoa, como se fosse uma mostra do seu eu.

CM — É mais uma variação sobre o 'triângulo amoroso'? Ou neste caso o tema é tratado de um modo original?
LJ — É tratado de modo muito original mas não é só um triângulo amoroso. Ninguém está a mais. Essa é uma leitura facilitadora, porque até há dois pares e o que há mais nesta história é um desencontro profundo entre todos e a impossibilidade de um amor absoluto, com um profundo traço poético. Sentimos que eles somos nós. Vão além do triângulo ou do quadrângulo amoroso.
É a invasão de Praga e o desencontro em tempo de falta de liberdade.

CM — Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin: seria significativa a diferença se algum dos três não entrasse no filme?
LJ — Acho que o Kaufman escolheu bem os actores. Mas parece-me que o filme fica aquém do livro. A força reside mais no entretexto do que nas figuras. Mas não é pelas figuras que o filme se torna inesquecível. É pela construção da acção e sobretudo por viver à sombra de um grande livro. Eles, actores, ajudam a tornar o filme célebre.

CM — O livro ou o filme? Com que obra travou o primeiro contacto?
LJ — Com o livro. Quando se lê um grande livro é difícil que o filme o subscreva. Fica sempre uma grande nostalgia. Há um jogo que muita gente diz ser filosófico mas que para mim é mais do que filosófico: é poético, no livro, que não existe no filme. Tenho amigos eruditos, cinéfilos, que começaram pelo filme e que em geral gosta mais do livro.

CM — Encontra elementos em comum com 'A Costa dos Murmúrios', que Margarida Cardoso realizou a partir do seu livro homónimo?
LJ — Só um ponto em comum. Os heróis são submetidos à força de uma ditadura, à opressão e à guerra. É a opressão dos Estados sobre os indivíduos. Isso aproxima-os. Em outros pontos divergem. Desde logo, ‘A Insustentável Leveza do Ser’ é de um escritor homem e ‘A Costa do Murmúrios’ de uma escritora mulher. São olhares bem marcados do ponto de vista do género. Mas, voltando atrás, em comum há outro ponto, a questão da História que se abate como um artifício sobre as vidas reais, esse contrabalanço de narrativas ficcional e histórica.

CM — Tempos de guerra podem exaltar qualidades humanas nos que as vivem?
LJ — As circunstâncias exaltam como redemoinhos as qualidades e os defeitos. O ser humano é posto à prova. Conhecemos os vizinhos e conhecemo-nos a nós próprios nas catástrofes. O Thomas é o resultado ocasional da perda da esperança na liberdade na Praga de 1968.

CM — Os tempos de paz são, de algum modo, menos ricos sob o ponto de vista do inte-resse artístico?
LJ — É uma contradição mas é verdade. A felicidade não gera literaturas. Não há odes, ou quando as há são revestimentos de ironia. Horácio é eterno, mas a literatura reflecte essa contradição, como se o tempo de paz seja para viver e não para ser escrito. A literatura reclama essa ordem e essa paz.

CM — Que temas a estão a inspirar mais de agora?
LJ — Os temas que mais me inspiram de momento. Vivemos todos muito condicionados.
Apesar da grande mobilidade física, vivemos uma grande reserva mentalmente, ideologicamente, religiosamente, extraordinariamente fixados e limitados. Essa inquietude atrai as nossas contradições.

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