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Luís Pedro Martins: "Encontrei a Entidade de Turismo desmotivada"
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Luís Pedro Martins: "Encontrei a Entidade de Turismo desmotivada"

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Luís Pedro Martins: ´Encontrei a Entidade de Turismo desmotivada´

Entrevistas

2020-01-11 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

Depois de tempos difíceis na Entidade de Turismo do Porto e Norte de Portugal que levaram à detenção do anterior presidente e a eleições, o seu sucessor, Luís Pedro Martins, está apostado no relançamento da instituição. Em entrevista à radio Antena Minho e ao Correio do Minho, sublinha três desafios: combater a sazonalidade turística, aumentar a estada média e melhorar a distribuição de visitantes pela região.

P - Está quase a cumprir um ano de mandato à frente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP), uma entidade que abarca 86 municípios e que passou por momentos difíceis, que culminaram com a detenção e prisão do anterior presidente. Este é seguramente o tempo de se fazer um balanço dos primeiros meses após a sua eleição e saber se recuperou a credibilidade e a capacidade de intervenção da instituição a que preside?
R- Foi, de facto, uma eleição que aconteceu num período conturbado da Entidade Regional e desde logo quisemos agir em três frentes. Motivar os nossos quadros. Depois do que aconteceu e que ainda está a desenrolar-se na justiça, achámos que era necessário dar motivação aos nossos colaboradores - a força da Entidade de Turismo - que se encontram espalhados pela região e que são profundos conhecedores do sector e do território. Encontrámos uma Entidade algo desmotivada. Esse trabalho tem vindo a ser feito e julgo que actualmente, passado quase um ano, demos passos importantes na melhoria da motivação e na conquista dos nossos colaboradores para aquilo que é o nosso projecto. Havia outra frente em que era necessário agir de imediato e que designo como diplomática. Exista um conjunto de instituições importantes para a estratégia e para o sucesso da TPNP e que estavam de costas voltadas como era o caso da CCDR-N, de algumas câmaras municipais, a Associação de Turismo do Porto (ATP), o próprio aeroporto Sá Carneiro e outras instituições. Havia um conjunto de relações que era preciso voltar a recuperar. Ao dia de hoje posso dizer que está tudo resolvido nesse domínio e com sucesso. Em relação à ATP, em poucos meses desenvolvemos um processo no Norte e que já acontece em outras regiões do país em que a Entidade Regional de Turismo e a agência de promoção externa estão unidas sob a mesma liderança.

P - Vai assumir também a presidência da agência de promoção externa no Norte?
R - A ideia é que, a partir do próximo mês de Março, tal possa suceder, mas através de um processo que está a ser concretizado de forma tranquila, respeitando os tempos de cada uma das instituições. Do lado da ATP houve uma grande abertura nesse sentido, logo após a nossa eleição.

P - Agiliza o processo de promoção externa da TPNP?
R - Não fazia sentido algum haver duas entidades a trabalharem a promoção externa, a venderem o Norte de costas voltadas.

P - Falta referir a terceira frente de intervenção neste primeiro de cinco anos em que está a presidir á comissão executiva do TPNP…
R - Depois da motivação e da diplomacia, faltava dar uma prova de vida da Entidade de Turismo no terreno. Da nossa parte, temos percorrido tudo aquilo que é possível percorrer. Temos tentado estar o mais próximo possível dos nossos associados. Neste quase primeiro ano de mandato, mais era impossível.

P - São 86 municípios que constituem a TPNP e, apesar do crescimento verificado no sector, há ainda muitas assimetrias a corrigir na promoção turística do território.
R - Nós já fomos a quase todos os concelhos que integram a Entidade. Os dedos de uma mão chegam seguramente para enumerar os municípios onde ainda não estivemos. Mas, em boa verdade, há outros onde já estivemos muitas vezes. Depende das dinâmicas das autarquias e de outras entidades. Tenho estado muitas vezes em Braga. Estivemos a acompanhar a classificação do Bom Jesus como Património Mundial da Humanidade que é uma conquista para a região.

Há um novo perfil de turista a procurar a região

P - Em pouco tempo o Norte viu ser classificado o Bom Jesus e os Caretos de Podence.
R - Sim. Isso está ajudar-nos a estruturar um outro produto turístico relacionado com o diversificado Património Mundial que já temos no nosso território. 

P - Numa recente entrevista defendeu que, na sub-região do Minho, era importante a dinamização de eventos e de festa.
R - Eu não acredito na ideia do monoturista, aquele turista que se desloca para um destino só por um motivo. O turista tem um objectivo quando viaja mas depois, se lhe dermos conteúdos, quer fazer outras coisas. No Norte temos muitas actividades concentradas nos meses de Verão, muitas romarias, festas mas durante o resto do ano é necessário dar mais animação, aquilo que eu resumo por festa. Não chega só a paisagem, só a gastronomia, só a cultura. O turista gosta de se divertir, gosta de sair, de se misturar com as pessoas. Não é por acaso que algumas das nossas festas no Norte têm crescido e têm cativado os turistas, como por exemplo o São João.

P - Ajuda a corrigir as assimetrias turísticas?
R - O que nós encontrámos foi, efectivamente, um território onde existem grandes assimetrias. Os turistas entram na região, na sua esmagadora maioria pela Área Metropolitana do Porto, quer por via marítima, quer pelo Aeroporto Sá Carneiro que tem crescido na ordem dos 10% ao ano. Tivemos 12 milhões de pessoas em 2018 e em 2019 estamos nos 13 milhões de passageiros. Tem sido um factor muito importante no sucesso do TPNP.

P - O aeroporto tem capacidade de resposta?
R - É importante dizer ao país que 20% do movimento aeroportuário de passageiros não é necessariamente para ficar no Norte é também para ir para o Sul. O Aeroporto Sá Carneiro é também, já hoje, o aeroporto da Galiza e tem ainda capacidade de crescimento. As pequenas obras que se fizeram permitem aumentar em cerca de 60% a capacidade operacional do aeroporto. Segundo um estudo a que tivemos acesso, o aeroporto pode ainda crescer até aos 40 milhões de passageiros.

P - A operação Emirates que impacto é que está a ter?
R - Estamos neste momento a ter num novo perfil de turista. Crescemos muito com as ‘low cost’, que contribuíram para os números de turistas que apresentamos e para a divulgação e notoriedade do Porto e Norte. Nós temos, agora, alguns problemas que se resolvem com companhias como a ‘Emirates’: a sazonalidade e uma estadia média mais longa. A estada no Porto e Norte é curta, em média 1,8 noites. Isso resolve-se com mercados de longa distância e com mercados que estão em contra ciclo com o Verão nesses países, como é o caso do Brasil, o terceiro mercado emissor para a TPNP. O maior número dos turistas que nós temos através da ‘Emirates’ provêm da China, Japão, Taiwan, Austrália, Emirados Árabes Unidos, Israel, Africa do Sul e Brasil.

É preciso coesão territorial no turismo

P - Existe um novo perfil de turista no Porto e Norte’
R - Existe. É um turista com uma capacidade financeira elevada, é um turista muito mais exigente na qualidade de serviço. Há aspectos a ter em atenção por todos aqueles que operam no turismo como a qualificação dos recursos humanos e as infraestruturas.

P - Voltamos à coesão territorial no âmbito do TPNP.
R - Esse é outro grande desafio que temos: uma melhor distribuição de turistas pela região. Os números indicam que dos 5 milhões de turistas que vieram ao Porto e Norte de Portugal em 2018, 70% não passaram da Área Metropolitana do Porto. Há um número que não faz parte do registo de alojamentos que é o dos turistas que dormem nos barcos de cruzeiro. Depois 4% vão para o Douro, 2% para Trás--os-Montes e o Minho tem crescido bastante, está na casa dos 20%. Nós temos definidos quatro grandes sub-destinos: Porto e Área Metropolitana, Douro, Trás-os-Montes e Minho. Dividir mais é estar a ligar o complicador. Qualquer promoção tem de ter impacto e memorização. Ao contrário de outros territórios há um consenso generalizado sobre a marca Minho. 

P - O TPNP é o destino convidado da Bolsa de Turismo de Lisboa em Março.
R - Vamos ser o destino nacional convidado e, por uma questão estratégica, fizemos a nossa apresentação em Lisboa. Para além das actividades de animação paralelas, o nosso stand vai ser o mais abrangente possível.

P - Cerca de 70 % dos turistas ficam na AMP porque não existe uma oferta de alojamento compatível?
R - Nem todos os concelhos no Norte têm hotéis, mas já quase todos têm alojamento local. Estamos a crescer bastante na qualificação das quintas ligadas ao enoturismo. A quase totalidade das nossas iniciativas de promoção para a imprensa especializada (press trip) e para os operadores (fam trip) privilegiaram o Douro, o Minho e Trás-os-Montes. É isso que estamos a fazer, a promover estes subdestinos e a incentivar os empresários a investir. Temos um indicador importante no Porto e Norte de Portugal: em 2019 registou-se um crescimento de 14% nos proveitos.

P - A coesão territorial tem a ver também com as acessibilidades.
R - Para o Douro, a ferrovia é essencial e estratégica. Fui o ultimo a assinar a petição para a reabertura da Linha do Douro até Barca D´Alva e a ligação com Espanha. Vou estar no Parlamento na entrega dessa petição juntamente com outras entidades. No próximo dia 14, vamos ter uma reunião no Porto com os representantes de Castela-Leão e um dos assuntos em cima da mesa é a ligação ferroviária a Salamanca. Podemos criar um produto brutal que são os diversos sítios Património Mundial da Humanidade no Norte de Portugal e do lado de Espanha e ter, no futuro, uma promoção internacional conjunta com Castela-Leão.

P - Qual é o contributo que a administração central pode dar no desenvolvimento do território?
R - Fazer este investimento na ferrovia é estar a trabalhar no futuro do país. A ligação ferroviária com Espanha não vai servir só para o turismo.

P - Como é que o TPNP está a equacionar o próximo Ano Santo (Jacobeu) em Santiago de Compostela, quando os Caminhos de Santiago do lado português são cada vez mais percorridos?
R - Temos realizado diversas reuniões com as entidades galegas e estamos muito satisfeitos com os números de peregrinos que percorrem os Caminhos de Santiago do lado português. Sabemos que a Galiza vai fazer um investimento comunicacional no Porto e Norte. Mas nós, deste lado, também estamos a fazer o nosso trabalho em relação aos Caminhos. Com considerável atraso, Portugal está a organizar-se. Não existia nenhuma estrutura nacional que certificasse e qualificasse os Caminhos. Em 2018, foi criada uma comissão de certificação e um conselho consultivo numa articulação entre os ministérios da Cultura e da Economia. Neste momento, estamos a receber propostas de municípios e de privados para a certificação de Caminhos. No passado, a TPNP estava de fora deste processo e o que estamos agora a dizer é que estamos aqui para trabalhar, com a vantagem de sermos uma entidade transversal ao território. Para cada Caminho certificado haverá uma entidade gestora e nós estamos disponíveis para ser a entidade gestora de um Caminho  que vier a ser certificado.

P - A estrutura da Entidade de Turismo foi montada à volta de produtos turísticos específicos e localizados como, por exemplo, o turismo religioso em Braga. Essa estrutura vai-se manter?
R - Estamos a trabalhar no nosso plano estratégico, que ainda vai demorar mais alguns meses até ficar concluído. Colocamos muito o foco nos sub-destinos que já referi, associando-lhes um conjunto de produtos turísticos, alguns deles transversais a toda a região. O turismo religioso é estratégico, tem vindo a crescer muito. Braga, em 2018, teve meio milhão de dormidas. Braga tem outro produto que pode ser valorizado: os eventos empresariais. Estamos a trabalhar em conjunto com a autarquia para atrair esse género de iniciativas. O turismo náutico, a gastronomia, os vinhos, o enoturismo são apostas incontornáveis. O surf era um segmento estranhamente mal trabalhado na região. Aquilo que dizem os nossos melhores praticantes é que para treinar em Portugal há duas boas ondas e uma delas é a de Espinho. É preciso trabalhar, promovendo esse destino.

P - Qual é a importância da sustentabilidade na estratégia turística do Porto e Norte?
R - A tendência dos novos turistas dá pistas muito interessantes e uma delas tem a ver com a preocupação ambiental. Porque as novas gerações são muito tecnológicas, cai-se no erro de pensar que não se preocupam com a sustentabilidade. Essa conclusão é incorrecta, porque são aqueles que mais procuram hábitos de vida saudáveis, o regresso à natureza e destinos que correspondam a essas expectativas ambientais.

P - O Norte de Portugal tem matéria-prima nesse domínio?
R - Tem, mas é importante ir sensibilizando aqueles que trabalham no terreno para a problemática da sustentabilidade ambiental. Hoje já existem destinos turísticos mundiais que apresentam essa bandeira.

P - Como é que analisa a polémica à volta das explorações de lítio e o seu impacto ambiental e paisagístico na região?
R - O tema ainda não foi discutido no seio da TPNP. Enquanto cidadão, preocupa-me que se possa alterar a qualidade de vida das pessoas e locais, porque nesse caso vai implicar com a sustentabilidade e com a autenticidade e aí pode afetar negativamente o turismo. 
P - Já há cidades em Portugal a viverem com stress devido ao grande aumento de turistas?
R - Há quem fale disso, mas eu não sinto esse stress provocado pelo turismo. Acho que existe exagero. No entanto, ainda bem que fazemos essa discussão nesta altura, antes do fenómeno acontecer. O turismo não é o mau da fita. Trouxe emprego, desenvolvimento económico, está a conseguir fixar jovens. É preciso encontrar soluções digitais e outras que preparem as cidades.

P - Qual é o ponto da situação das Lojas Interativas de Turismo no Porto e Norte de Portugal?
R - As lojas foram uma boa ideia da equipa que me antecedeu. Ajudam a promover melhor o destino, ajudam um turista que em qualquer ponto da região pode ter acesso ao que acontece em todo o Norte e isso ser um contributo para a distribuição dos turistas. Neste momento há um processo judicial a decorrer e eu não me vou pronunciar. Quero crer que todos os autarcas que apoiaram o conceito, apoiaram genuinamente porque era de facto uma boa ideia. É uma boa ideia.

P - Assim sendo, qual vai ser o futuro?
R - Temos três lojas da nossa responsabilidade: no Aeroporto Sá Carneiro, na Estação de S.Bento e em Santiago de Compostela. Estamos neste momento a actualizar software e hardware e queremos continuar a valorizar a ideia. No TPNP estamos a fazer um processo de reorganização, temos o núcleo do marketing, das lojas, da estruturação de produto. Queremos que as lojas sejam mais interactivas, usando ainda mais os suportes digitais, mas queremos também mais dinamismo, mais animação, mais festa.

P - O brexit vai ter algum impacto no turismo na região norte?
R - Teria no Algarve, se o meu homólogo naquela região e as entidades nacionais não tivessem trabalhado tão bem, criando um plano de contingência. Dos nove milhões de turistas britânicos que entram em Portugal, seis vão para o Sul, Os restantes três milhões distribuem-se maioritariamente pela Madeira e os restantes por Lisboa e resto do país. O impacto do brexit no Porto e Norte de Portugal será extremamente reduzido ,mas isso não quer dizer que não me interesse trabalhar o mercado britânico. Já agora, dizer que o nosso primeiro mercado é o espanhol, o segundo é o francês e o terceiro mercado emissor de turistas é o Brasil. Estamos a crescer muito nos mercados americano, canadiano e asiático, para além do alemão.

P - O Norte de Portugal tem recebido dois grandes eventos desportivos mundiais, o Rally de Portugal e o Air Race, este com menos frequência. Há novidades para este ano?
R - A prova de aviões não se deverá realizar, porque o principal patrocinador retirou o apoio á competição. O Rally de Portugal traz um retorno económico muito importante, na ordem dos 40 milhões de euros só em impostos directos, tem uma ampla transmissão televisiva e tem grande contributo promocional. A questão é a capacidade da região estar permanentemente a financiar o mesmo evento. É uma discussão que está a acontecer. Quando se faz uma candidatura a fundos europeus, ela não pode ser feita mais do que três vezes. O ano passado conseguimos apoiar, este ano estamos a tentar novamente, mas não o conseguiremos fazer sem o apoio do Turismo de Portugal. É um acontecimento desportivo que absorve grandes recursos.

P - Poderá ter de acontecer um esforço acrescido por parte das autarquias?
R - É impensável fazer sem uma articulação entre as câmaras municipais, TPNP e o Turismo de Portugal.

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