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Maria José Fernandes: "Com fundação ficaremos menos dependentes de Lisboa"
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Entrevistas

2018-07-07 às 06h00

José Paulo Silva

A cumprir um ano como presidente do Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA), Maria José Fernandes confia na mudança de estatuto da instituição de ensino superior para garantir mais autonomia e mais recentes. Depois dos cursos técnicos superiores profissionais, uma “aposta ganha” , o IPCA pode vir a leccionar doutoramentos. A Escola-Hotel, a nova Escola Superior de Design, instalações desportivas e uma residência de estudantes são prioridades do mandato de Maria José Fernandes.

P - O Instituto Politécnico do Cávado e Ave (IPCA) é o primeiro do país a ter o estatuto de fundação pública de direito privado. O que é que isto significa para o IPCA em termos de gestão?
R - Significa sobretudo alguma flexibilidade na gestão patrimonial e dos recursos humanos. Continuaremos a ser balizados pelas regras da contratação pública, m,as passamos foi a ter mais alguma autonomia, a estar menos dependentes de algumas decisões que estão muito centralizadas em Lisboa.

P - Essa situação tem condicionado o desenvolvimento do IPCA?
R - De alguma forma, sim. Esse processo de passagem a fundação iniciou-se há cerca de dois anos atrás pelo convite do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior a três institutos politécnicos: IPCA, Porto e Leiria. Na altura, o presidente do IPCA, João Carvalho, abraçou este desafio.

P - O IPCA foi mais rápido?
R - Dos três institutos politécnicos foi o que avançou com o processo. O IPCA fez o seu trabalho de casa. Houve uma larga discussão. Quando iniciei funções, a proposta, que não tinha sido minha, estava em discussão pública e tinha de ser finalizada. Fui falar com o ministro Manuel Heitor, que entendeu que o IPCA não podia ser prejudicado por os outros dois politécnicos não avançarem. Em Novembro de 2017 apresentei nova proposta em que assumi que seria presidente do IPCA com ou sem fundação. A proposta foi aprovada por larga maioria dos membros do Conselho Geral.

P - A experiência de universidades que já passaram para o regime funcional serviu de factor de avaliação para o IPCA?
R - Sim. O reitor da Universidade de Aveiro foi ao nosso Conselho Geral, também foi o administrador da Universidade do Porto. Durante cinco anos estaremos à experiência. Eu assumi isso no Conselho Geral.
P - Outro argumento dos defensores do regime fundacional é o de uma maior capacidade de captação de receitas próprias. O seu antecessor reivindicou sempre maior investimento estatal. A fundação pode resolver esse problema de escassez de financiamento público?
R - Eu faço parte da história do IPCA há mais de 20 anos. O nosso financiamento do Orçamento de Estado por aluno é metade do financiamento normal. Recebemos cerca de 1 300 euros, quando a média nacional anda quase nos 3 000 euros. Porquê? Primeiro, porque o IPCA é a instituição de ensino superior público mais jovem do país. Quando nasceu já estávamos em crise. Toda a orçamentação foi feita com base no número de alunos. O IPCA começou há 23 anos com 64 alunos e hoje tem 4 300. O aumento de alunos não foi acompanhado do aumento de financiamento público. As nossas transferências do Orçamento de Estado estão nos seis milhões de euros, quando politécnicos com metade dos alunos recebem 11 milhões. O IPCA é o que menos recebe a nível nacional.
P - E não há vontade política de corrigir essa situação?
R - O senhor ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sempre disse que não ia tirar a uns para dar a outros. Neste momento o que vejo é que temos de ter capacidade de aumentar as receitas próprias.

P - E a fundação pode dar outras armas nessa competição?
R - Pode. Dou um exemplo: em Abril, o IPCA adquiriu o edifício do ex-Idite Minho, em Braga. Estivemos quase dois anos à espera de autorização quando tínhamos dinheiro para a compra. Só que precisávamos de uma autorização do Ministério das Finanças. Estes são processos que nos limitam muito. Se as coisas tivessem sido mais ágeis, poderíamos já ter as obras de adaptação do edifício feitas. O mesmo se passou com a compra de um terreno junto ao campus de Barcelos para a instalação de equipamentos desportivos. Estivemos quase dois anos à espera de autorização.

P - A aquisição do edifício do Idite Minho é um sinal de que o IPCA veio para ficar em Braga?
R - Não tenho dúvidas disso.

P - E pode avançar para além dos cursos técnicos superiores profissionais?
R - Não é nossa ideia. Ao longo da nossa existência sempre soubemos respeitar e ocupar o nosso lugar. A Universidade do Minho já cobre um leque enorme de formações. Em Braga, queremos responder a uma necessidade das empresas em termos de quadros técnicos. Temos em Braga quase 500 alunos a frequentar cursos técnicos superiores profissionais. Não está na nossa estratégia vir a oferecer licenciaturas em Braga. Pós-graduações, cursos de formação avançada e actualizações, sim. O nosso grande investimento está no ‘campus’ de Barcelos e, futuramente, na Escola-Hotel de Guimarães.

P - Em Guimarães, só no próximo ano lectivo?
R - Não, só em 2019-2020. É um investimento enorme. A Quinta do Costeado foi adquirida e cedida pela Câmara Municipal de Guimarães, que vai fazer toda a reabilitação. Visitámos algumas das melhores escolas de hotelaria do mundo para fazer algo inovador em Portugal. O turismo tem vindo a crescer e nós temos de nos afirmar pela qualidade. Há falta de mão-de-obra qualificada. Já temos dois cursos a funcionar, mas a Escola-Hotel terá equipamentos fixos para a formação prática. Temos também já protocolado com a Câmara Municipal de Esposende a criação de uma Escola de Verão. Temos aí a intenção de ministrar formações específicas para cobrir as necessidade do Vale do Cávado.

P - Vão iniciar agora cursos técnicos superiores profissionais em Vila Nova de Famalicão?
R - Sim, alojados no CITEVE. A nossa ideia não é multiplicar áreas nem deslocalizar equipamentos. Não queremos esvaziar Barcelos.

P - Há outros politécnicos com esta presença em quatro concelhos?
R -?Nós temos a sorte de ter gente no território e queremos especializar-nos em áreas estratégicas. Uma área que ainda não cobrimos suficientemente é a têxtil.

P - O IPCA foi a primeira instituição em criar uma licenciatura em jogos digitais. Tem procura?
R - Tem. É uma área muito apelativa. Tem mercado.

P - Recentemente houve uma conjugação de atitudes para o congelamento das vagas em várias institutos politécnicos, incluindo o IPCA. Isto não entra em choque com a disseminação do IPCA?
R - Não. O Governo fixou que as instituições do ensino superior de Porto e Lisboa, que absorvem 40 % dos alunos, têm menos 5% das vagas. Ao nível das 15 instituições do ensino politécnico, o que decidimos foi não afectar mais vagas aos estabelecimentos do litoral, excepto na área das tecnologias de informação. No nosso caso, a nova licemciatura de Engenharia e Gestão Industrial vai abrir com 25 ou 30 vagas. Politicamente, o Governo deu um sinal que nós reforçámos.

P - Está a decorrer o processo de transferência da Escola Superior de Design do ‘campus’ para o centro da cidade de Barcelos. Esse é também um objectivo estratégico do IPCA?
R - Sim, com o apoio da Câmara Municipal de Barcelos, que nos cedeu, em regime de comodato, a antiga escola primária Gonçalo Pereira e financia a reabilitação através de um programa de recuperação de espaços colectivos.

P - Há alguma perspectiva para a mudança?
R - Já há projecto, já sabemos o valor da obra, falta apenas um desbloqueio burocrático. A Escola de Design está ainda num pré-fabricado do ‘campus’. O que se pretende é chamar o IPCA ao centro da cidade de Barcelos. Pôr uma escola desta área no centro da cidade tem grandes vantagens, porque vai permitir desenvolver uma actividade cultural.

P - Espera que este processo seja muito mais célere do que outros que envolveram o IPCA, nomeadamente o da construção de acessos ao ‘campus’?
R - Muito mais. Temos os alunos de Design a reclamar. Vamos inaugurar agora a nova Escola de Tecnologia, estamos a construir um laboratório para os cursos técnicos superiores profissionais, o ‘Lab Factory’, e temos a Escola de Design ainda em instalações provisórias. Por outro lado, precisamos de deitar abaixo os pré-fabricados para criar estacionamento quenos faz muita falta.

P - Estes são investimentos de alguma expressão. De onde vem o dinheiro?
R - Das receitas próprias, de projectos e prestação de serviços, é também com as receitas das propinas.

P -?Que continuam as mais baixas do país?
R - Sim, 830 euros. Foram aumentadas o ano passado para a aquisição de terrenos para equipamentos desportivos.

P - Com a passagem a fundação pública de direito privado, a prestação de serviços, o vender de conhecimento, pode aumentar as receitas do IPCA?
R -?Vai aumentar. Só em projectos em copromoção com empresas, sobretudo na área tecnológica, temos candidaturas no valor de 3,5 milhões de euros. Temos dois centros de investigação que esperamos venham a ser aprovados, um na área da robótico e outro na área da contabilidade/fiscalidade. Com o novo regime jurídico teremos condições para pensar em doutoramentos próprios.

P - Essa possibilidade foi agora aberta pelo Governo?
R - Com condições, como é evidente. E bem balizadas pela qualidade da investigação.

P - Antevê algumas áreas em que o IPCA possa avançar?
R - Vejo nas áreas da contabilidade e da robótica, porque temos dois centros autónomos e temos centros em parceria com as universidades de Aveiro e do Porto.

P - O processo de avaliação da capaci-dade científica das instituições para a criação de doutoramentos vai ser moroso?
R - Estará pronto até ao final do ano. Os nossos dois centros estão em processo de avaliação. Para terem doutoramentos têm de ser classificados pelo menos com ‘muito bom’, o que faz sentido.

P -?Esta é uma questão pacífica, ou pensa que possa surgir alguma areia na engrenagem da parte das universidades?
R - Essa opção de indexar os doutoramentos não ao subsistema mas à investigação coloca-nos no mesmo pé de igualdade. A investigação foi sempre associada às universidades. A dignificação do ensino politécnico já vem do tempo do ministro Mariano Gago, que muito contribuiu para o enriquecimento da carreira docente. Acho que deve haver uma diferenciação entre o que se faz no ensino politécnico e o que se faz no ensino universitário. Todos os estudos apontam para a necessidade de termos dois sistemas de ensino.

P - A contabilidade e a fiscalidade estiveram na criação do IPCA. Ainda são áreas de grande especialização e reconhecimento da instituição?
R - O IPCA começou com cursos de contabilidade pública e contabilidade empresarial. Depois nasceram os cursos de gestão, finanças e consultadoria. Conseguimos manter-nos firmes num princípio: trabalhar para a qualidade e para a disseminação do conhecimento. Nestas áreas estamos sempre na vanguarda porque nos preparámos para isso.

P - Nos últimos anos o IPCA destacou- -se, de alguma forma, pela capacidade de atrair alunos estrangeiros.
R -?Essa continua a ser uma área em que temos de apostar. Temos de nos centrar na internacionalização.

P -Mas a falta de uma residência académica não prejudica?
R - Se for a Barcelos, o que está a acontecer à volta do IPCA foi o que aconteceu à volta da Universidade do Minho. Mesmo à nossa porta estão a surgir novas habitações.

P - A maior parte dos alunos do IPCA?são da região Norte, do Minho?
R - Grande parte são de Braga, Barcelos e Esposende, mas também temos alunos de Lisboa. Fruto da aposta na internacionalização, temos muitos mais alunos estrangeiros. A maior dificuldade tem sido a obtenção de vistos.

P - Não teme que, a médio e longo prazo, possa haver uma inflexão das políticas governamentais que ponha em causa o grande investimento nos cursos técnicos superiores profissionais?
R - Estes cursos foram lançados pelo anterior e o actual acarinhou esta iniciativa e vem desenvolvendo-a. Esta foi uma aposta ganha, porque não temos alunos para as solicitações das empresas. O que eu acho é que temos de ter a capacidade de, se um curso se esgota, estar preparados para mudar. Quando lançámos estes cursos fizemos um estudo no Cávado e no Ave com todas as escolas profissionais para ver o que era preciso para a região. O que se verifica é que todos os nossos alunos ficam nas empresas.

P - O IPCA tem cursos em regime pós- -laboral?
R - Tem. O IPCA chegou a ter 60% dos alunos em pós-laboral. A situação inverteu-se com a crise, porque naturalmente quem é mãe e pai, entre estudar e pôr os filhos a estudar, opta por esta segunda via. Nós temos no IPCA muitos casos de pais e filhos a estudar ao mesmo tempo. O ano passado tivemos um aumento de candidatos, vamos ver o que se vai passar este ano.

P - Quando serão inauguradas as novas instalações da Escola Superior de Tecnologia do IPCA?
R - No final do ano. Agora temos de pensar nas obras no edifício do ex-Idite Minho, em Braga que estão em fase de orçamentação. Outro projecto que quero fazer avançar urgentemente é o da nova residência de estudantes. Espero ter a residência a funcionar no final do meu mandato.

P - É uma carência que continua...
R - Que eu acho que vamos conseguir resolver, finalmente. Há boas perspectivas

P - Será um edifício de raiz?
R - Sim. E para além de instalações desportivas: um recinto polidesportivo e um campo de ténis, estamos a pensar em obras de adaptação para abrir o nosso restaurante ao público.

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