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Nuno Pontes: Gestão dos Caminhos de Santiago deve ser rigorosa

Entrevistas

2020-02-01 às 13h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

E m 2021 assinala-se o Ano Jacobeu em Santiago de Compostela, que acontece quando o 25 de Julho, data atribuída ao martírio do apóstolo, coincide com um domingo. Vão ser muitos milhares de romeiros a calcorrear os Caminhos de Santiago que em Portugal estão a merecer mais atenção. Nuno Pontes, presidente da Associação Espaço Jacobeus, explica que a criação de uma comissão que certifica os caminhos portugueses será fundamental na sua regulação e valorização. Entretanto, aguarda-se o desfecho da candidatura a Património da Humanidade.

P - O Caminho Português de Santiago é cada vez mais procurado por pessoas que peregrinam com diferentes motivações. Em Portugal e com sede em Braga existe uma entidade denominada Associação Espaço Jacobeus (AEJ). Qual é a sua razão de ser?
R - Somos uma associação de fiéis peregrinos. Iniciámos o nosso percurso em 2004.

P - Tem sede em Braga?
R - Exactamente. Foi um grupo de amigos que, após a realização de uma peregrinação a Santiago de Compostela, decidiram constituir uma associação para promoção do Caminho e a sua divulgação.

P - Tudo isso acontece numa altura em que a projecção dos Caminhos de Santiago era menor do que aquela que tem hoje.
R - Não tinham a relevância que têm agora e nem sequer estavam devidamente marcados ao longo do percurso.

P - E a AEJ surgiu também por essa necessidade de fazer um levantamento e um estudo dos diferentes caminhos que existem em território português?
R - Sim. Também havia outras pessoas a realizarem algum desse trabalho mas efectivamente os Caminhos de Santiago não tinham a mesma mediatização que têm na actualidade. Começou a fazer-se a marcação dos Caminhos a partir de Braga e a levar mais pessoas a percorrê-los. Hoje, a AEJ é a maior associação portuguesa dos Caminhos de Santiago.

P - Quantas delegações espalhadas pelo país?
R - Já vamos nas 16.

P - Com mais presença no Norte?
R - Sim. Temos as nossas delegações mais concentradas no Norte Litoral, nos Açores e na Madeira e temos uma em Itália.

P - Qual é o papel destas delegações da AEJ?
R - A função destas delegações é a distribuição da credencial do peregrino e ajudar a preparar a peregrinação. Nas nossas delegações há sempre pessoas que já percorreram os Caminhos de Santiago e que podem ajudar os outros, em função do Caminho a percorrer, a fazer as melhores escolhas, sobre o que se deve ou não levar. Nem todos os Caminhos são iguais e alguns são até fisicamente mais exigentes. Ao vir ter com a AEJ, o peregrino pode receber essa informação e minimizar qualquer dificuldade que possa encontrar.

P - Em Portugal, quantos Caminhos de Santiago é que estão assinalados?
R - Na lista indicativa a Património da Humanidade estão quatro. O Caminho de Torres, o Caminho Central, o Caminho da Costa e o Caminho Interior.

P - Recentemente, tem-se falado mais do Caminho de Santiago da Geira dos Arrieiros.
R - Esse não se encontra incluído na lista.

P - A candidatura a Património Mundial envolve apenas o Caminho Português de Santiago?
R - O Caminho Francês já está classificado, assim como outros em Espanha. A candidatura de que eu estava a falar é transfronteiriça, envolve também a Galiza e essa é uma mais-valia da nossa candidatura a Património Mundial.

P - Os quatro Caminhos que mencionou começam em território nacional?
R -À excepção do Caminho de Torres, que se inicia em Salamanca (Espanha). Entra em Portugal por Almeida, Trancoso, Régua, Amarante, Guimarães, Braga e em Ponte de Lima une com o Caminho Central que vem do Porto e de Barcelos .

P - Essa candidatura dos Caminhos de Santiago em Portugal e de alguns da Galiza está numa fase embrionária?
R - Não sei exactamente em que fase é que está, mas encontra-se já na lista indicativa para que exista o reconhecimento da UNESCO do valor dos Caminhos como património da Humanidade.

P - O facto de o Caminho Francês a Santiago de Compostela se encontrar classificado como Património Mundial da Humanidade pode ajudar a um desfecho positivo da candidatura portuguesa e galega?
R - Vai ajudar certamente. O crescimento da procura do Caminho Francês deveu-se muito a esse reconhecimento patrimonial. O Caminho Português de Santiago tem algumas mais-valias pelo facto de passar por locais que já são Património da Humanidade: Guimarães, o Alto Douro Vinhateiro, o Bom Jesus de Braga, o Porto. Esses aspectos valorizam a nossa candidatura e o Caminho Português.

P - Na sua opinião, tem existido um trabalho em rede entre as entidades ligadas aos diversos Caminhos, ou só agora começa a existir um maior interesse e um maior investimento no Caminho Português?
R - Efectivamente, tem-se assistido, nos últimos dois anos, a uma maior atenção em relação ao Caminho.

P - Uma maior atenção das autarquias?
R - Das câmaras municipais, do Governo, das próprias entidades ligadas ao turismo.

P - A Galiza tem já uma estrutura própria (Jacobeu) de promoção dos Caminhos de Santiago. Portugal ainda não tem uma entidade equivalente.
R - Portugal criou, no final do ano passado, uma Comissão da Gestão dos Caminhos de Santiago, que tem como competências a certificação dos Caminhos. Até agora existiam alguns municípios que já estavam despertos para a necessidade de valorizar e promover os Caminhos de Santiago.

P - Será essa comissão que vai, a partir de agora, trabalhar no sentido certificar os traçados, com algum rigor histórico?
R - Procura-se, a partir de agora, que esse rigor exista, não basta criar o Caminho. Olha-se para o peregrino e vêem-se euros a passar, é preciso erradicar esse tipo de atitude. Deve-se fazer a promoção e nós, enquanto associação, trabalhamos para despertar os municípios para a necessidade de valorização e manutenção dos Caminhos, mas, por outro lado, há a tentação de desviar os peregrinos para lojas ou para a restauração. A maior parte das vezes não é isso que o peregrino procura.

P - Na sua opinião, existia uma desorganização na definição dos Caminhos, na promoção, na valorização?
R - Sim. O grande início de valorização do Caminho de Santiago começou na zona de Barcelos, embora haja quem defenda que o Caminho viria primeiro por Braga e só depois por Barcelos.

P - Barcelos despertou primeiro do que Braga para o Caminho de Santiago?
R - Passam mais peregrinos por Barcelos em direcção a Ponte de Lima do que por Braga porque houve trabalho feito. Quando se deu o ressurgimento dos Caminhos - creio que podemos referir-nos assim-, Barcelos agarrou mais cedo a ideia de aproveitar o Caminho, dando outras condições aos peregrinos que o percorrem. Nos últimos tempos, Braga tem demonstrado mais afinco ,melhorando os percursos.

P - A comissão recentemente criada, com envolvimento de entidades oficiais, irá rectificar algumas situações ao nível dos traçados dos Caminhos?
R - Poderá haver algumas situações pontuais em que tal venha a suceder. Muitos dos caminhos medievais sofreram alterações devido á construção de novas estradas e não é possível reconstituir o Caminho, utilizando esses antigos percursos. Muitas vezes, é necessário proceder a desvios para gerar segurança aos peregrinos, evitando que progridam ao longo de estradas muito movimentadas.

P - Existe, por isso, a preocupação de rectificar esses Caminhos.
R - Exactamente. Desviar os percursos 200, 300 metros tornando-os um pouco mais longos mas justificados pela segurança e não por razões economicistas. É fundamental do meu ponto de vista, aproveitando o Caminho de Santiago, fazer a divulgação do património existente. Muitas vezes, passamos ao lado de monumentos, de paisagens de uma beleza impar que se não formos despertos para a sua presença, não vamos visitar. Muitas vezes, na entrada das localidades um painel informativo para os peregrinos relativo á cidade ou vila é muito útil. Se a pessoa tem disponibilidade ou interesse, pode interromper o percurso e visitar ou então assimilar a informação que é transmitida nesse painel sobre o local por onde está a passar e seguir na sua peregrinação e um dia mais tarde regressar mas com outro espirito.

P - Quem é que se responsabiliza pela sinalética dos Caminhos de Santiago?
R - Há associações ou grupos de amigos que revêem a sinalética e fazem uma rectificação, pintando uma seta com tinta amarela. Os azulejos que normalmente também se vêm nos Caminhos de Santiago são colocados pelas autarquias. Muitas vezes, elas pedem-nos para auxiliar. Existe um padrão para colocar a vieira e a seta. Acontece que quem não se encontra familiarizado faz uma colocação errada e contraditória, criando dúvidas aos peregrinos sobre as direções a tomar.

P - A nova entidade de certificação poderá também ter um papel na normalização da sinalética?
R - Também. Saiu um decreto-lei que determina de que forma a sinalização deve ser colocada. Quem colocar a sinalética referente ao Caminho de Santiago tem de estar reconhecido. Hoje já dá multa.

P - Voltando um pouco atrás e ao papel da comissão de gestão, a AEJ faz parte desta entidade? Ela vai igualmente certificar instituições que se disponham a fazer a gestão dos Caminhos?
R - Vamos dar como exemplo a autarquia de Braga e pensar que ela pretende certificar os seus Caminhos. Irá elaborar um projecto com o itinerário correcto, designar os pontos onde é colocada a sinalética. Envia a candidatura e a comissão dará um parecer sobre se o itinerário corresponde a uma realidade histórica e se, eventualmente, houver um desvio daquilo que é considerado o percurso histórico, se esse desvio é justificável por razões de segurança. Em Braga havia muitas vias romanas que, com o crescimento da cidade, ou já desapareceram ou estão irreconhecíveis. A comissão de gestão terá de ser criteriosa na avaliação das candidaturas. A Geira, na saída de Braga, é comum ao Caminho de Torres, depois um percurso segue em direcção a Amares e a outra para Prado. Se a sinalética for idêntica e não existir mais nenhuma informação, o peregrino pode ficar confuso e seguir a direcção menos apropriada.

P - Isso é importante, porque os itinerários são distintos e podem ser mais ou menos exigentes.
R - Se seguir pela Geira, o peregrino terá de dispor de mais dias de caminhada do que se for por Ponte de Lima. O nível de esforço pela Geira é superior, embora este percurso não esteja devidamente marcado. Na AEJ não recomendamos este caminho, especialmente aos peregrinos menos experientes.

P - Mas o Caminho de Santiago pela Geira está ser muito procurado?
R - Sim, andam muitos peregrinos a fazer esse caminh,o mas andam acompanhados de outros que já o fizeram e que sabem onde existem a maiores dificuldades. Não há alojamento suficiente, não existem pontos de apoio, zonas onde não existe rede de telemóvel. Tem de se ter alguma preparação física.

P - Um peregrino que quisesse fazer pela primeira vez o Caminho de Santiago, chegado a Braga deveria optar pelo percurso de Ponte de Lima e não pelo Caminho da Geira, pelo Gerês?
R - Exactamente. Tem ainda a particularidade de poder fazer uma paragem em Goães (Vila Verde), aproveitando uma antiga escola primária que foi reconvertida para servir de albergue aos peregrinos. Algumas escolas primárias que ficaram sem alunos foram aproveitadas precisamente com esse fim.

P - A AEJ faz um levantamento das motivações que levam as pessoas a peregrinar pelo Caminho de Santiago?
R - Além de vendermos as credenciais...

P - Qual é a finalidade das credenciais?
R - Servem para certificar que a pessoa está a fazer a peregrinação. É esse documento que o vai identificar enquanto peregrino. Ao longo do percurso, em estabelecimentos e lojas das cidades e vilas por onde vai passando, o peregrino carimba a credencial atestar a sua presença. O ideal é que a credencial seja carimbada três vezes ao dia: no inicio da jornada, a meio e no final. No Caminho Francês exige-se pelo menos três carimbos diários. A credencial dá ainda acesso aos albergues de peregrinos. Se não a tiver, não poderá pernoitar nesses espaços de acolhimento. Chegando a Santiago de Compostela, é a credencial que dá ao peregrino o direito de receber um certificado, a "compostela", que valida a peregrinação no seu todo.

P - Tem uma ideia de quantas credenciais foram entregues pela AEJ?
R - Ao longo do ano de 2018 entregámos 5400 credenciais e no ano passado registámos um aumento de mais 400 credencias pedidas por quem quer peregrinar até Santiago de Compostela.

Nós também disponibilizamos as credenciais por correio e solicitamos aos futuros peregrinos que nos dêem um testemunho sobre as razões que os levam a peregrinar. Questões de fé, experienciar algo novo, uma introspeção, procurar respostas para situações de vida. são diversas as motivações e as convicções religiosas.

P - A maior parte dos peregrinos escolhem fazer o Caminho, sozinhos ou em grupo?
R - Um pouco de tudo. Nós, enquanto associação, procuramos ajudar os grupos e a criar grupos de peregrinos nomeadamente para aqueles que estão numa primeira experiência e que aceitam vir connosco, porque sentem mais segurança.

P - O alojamento é fundamental nos Caminhos. A oferta está em sintonia com a procura?
R - Existem zonas que, de facto, necessitavam de algum investimento, mesmo pelo lado municipal. Muitas vezes, não é necessário criar grandes espaços de albergue. Em Espanha pernoitar num albergue público fica por 8 euros nesta altura e a tendência é aumentar até ao Ano Santo em 2021. Em Portugal, o valor que o peregrino paga para ficar num albergue público é idêntico, se for para um privado, com a vantagem de fazer a reserva, o preço sobe.

P - Há necessidade de reforçar essa rede. Aqui no Minho que zonas é que estão ainda a descoberto ?
R - Em Braga, existe um albergue na zona da Sé que justificava umas obras profundas. Braga e Guimarães têm hostels que também acolhem peregrinos. Em Barcelos já existem alguns albergues, apesar de não serem municipais, são de carácter associativo, com preços mais suavizados. O de Goães funciona no sistema de donativo. O valor mínimo que aconselhamos a dar são 5 euros.

P - E que nacionalidades se encontram nos Caminhos do lado português?
R - No Caminho Central e no Caminho da Costa há muitos asiáticos, alemães, polacos, brasileiros. O aeroporto Sá Carneiro e as viagens "low cost" tiveram um contributo enorme para a chegada dos peregrinos que começam a percorrer os Caminhos a partir do Porto. O Caminho Central e o Caminho da Costa têm muita procura e há já quem opte por fazer a peregrinação por percursos menos movimentados. Daí terem começado a passar por Braga.

P - O Caminho de Torres, que passa por Guimarães e Braga, tem sido o aquele que tem tido maior incremento?
R - É o que está agora a ser mais promovido e como ainda não existem muitos peregrinos a percorrê-lo, a maior dificuldade nesse Caminho tem a ver com o alojamento.

P - No caso de Braga, vê como necessária a requalificação do albergue que existe na denominada Casa da Roda? Uma oferta hoteleira mais clássica acaba por não responder às necessidades dos peregrinos por ser mais dispendiosa?
R - Sim. Os proprietários de hotéis e outros alojamentos têm as portas abertas para obter lucro, o que é natural.

P - É um tipo de actividade que não tem por objetivo a rentabilidade económica.
R - Na alimentação, a situação é idêntica. Em Espanha, é frequente existirem os menus para peregrinos. Do lado português vão aparecendo essas ofertas mais diferenciadas. Nem todos os peregrinos podem pagar quase diariamente 60 euros ou um valor próximo por dormida e refeições.

P - Na nova comissão, as associações como aquela a que preside têm um papel activo, por exemplo no domínio da certificação?
R - Sim. Dessa entidade fazem parte a AEJ e a Via Lusitana, as duas maiores em Portugal, para além de instituições públicas e privadas.

P - Pelo facto de 2021 ser um Ano Santo, o denominado Jacobeu, a procura, mesmo pelo lado português vai ser mais intensa?
R - Esperamos ter muitos peregrinos, mesmo estrangeiros, e acredito que algumas rivalidades que possam existir entre os diversos Caminhos sejam atenuadas e todos trabalhem para um objectivo comum. O pedido de informações e de credenciais tem vindo em crescendo. Nesta altura, temos inúmeros pedidos de credenciais para Maio e Junho. O ano passado, emitimos alguns milhares de credenciais. Há outras entidades em Portugal que também as distribuem.

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