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O nosso corpo responde melhor do que vacinas
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Entrevistas

2020-04-03 às 06h00

Rui Miguel Graça Rui Miguel Graça

Hugo Sousa, Investigador do Instituto de Investigação e Ciências da Vida e Saúde da Escola de Medicina e também especialista em virologia. É além disso médico e investigador do Serviço de Virologia do Instituto Português de Oncologia do Porto. Em 2017 recebeu o prémio de Diagnóstico Clínico em Virologia 'Abbott Diagnostic Award'.

Neste momento a evolução do coronavírus está naquilo que era expectável ou há algum elemento surpresa?
É uma infecção que trouxe alguns desafios novos e que nos permite repensar. É uma infecção que começou na China há praticamente três meses e meio e que se espalhou rapidamente pelo planeta. Esse aspecto, que levou a existirem cerca de 800 mil casos em todo o mundo, significa que estamos perante uma infecção que surpreendeu a comunidade. O facto mais surpreendente é a rapidez de disseminação na população. Só assim que se justifica que em países como Itália e Espanha se tenham atingido números que em pouco prováveis de acontecer, que em termos de incidência, quer em termos de mortalidade.

Em Espanha mais de 100 mil infectados, mais de 10 mil mortes. Itália também numa situação calamitosa. Portugal está em que fase?
Podemos dizer que quando começamos a olhar para os números de Itália há pouco mais de três semanas atrás também estaríamos um pouco longe de imaginar para onde é que isto ia. A Espanha estaria muito longe de imaginar que iria pelo mesmo caminho de Itália. Em Portugal, felizmente tomamos algumas medidas um bocadinho antes destes países pode ter ajudado a controlar. Estamos ainda numa fase em que o número de casos vai aumentar, mas esperamos que este aumento de número de casos tenha o mesmo reflexo que esses países. Pelos dados dos últimos dias temos tido alguma oscilação, mas olhando para as curvas estamos a desviar-nos no bom sentido das curva perigosa, isto é, há um desvio em favor do controlo da infecção.

É ainda cedo para entrar em 'euforia' em Portugal?
Temos mais 35 mil pessoas suspeitas, entre as que fizeram testes e as que estão a aguardar. Temos um número muito grande. Isso significa que vão aparecer muitos 'positivos' nos próximos tempos e, o que esperamos, é que o número de infecções diárias não dispare e que seja relativamente semelhante todos os dias. É aí que nós queremos a tal fase de 'planato' que as próprias entidades têm pedido, que é o achatamento da curva do pico máximo de incidência. Se isso acontecer significa que estamos a começar a controlar a infecção. Contudo ainda estamos numa fase em que o número de casos vai aumentar porque só temos cerca de 15/20 dias de medidas preventivas. Espera-se que a partir do meio de Abril o número esteja controlado.

Os nossos números relativamente aos doentes curados são aparentemente baixos…
Mais uma vez o facto de estarmos apenas com cerca de quinze dias de evolução, significa que só agora é que começaremos a ter um aumento de número de casos recuperados, porque só agora é que esses casos estarão a ser retestados para confirmar se já estão negativos ou não. Em Portugal estamos praticamente há três semanas com casos de doença activa, o que significa que estamos no período que é suposto esperar pela repetição dos testes, de maneira a perceber se as pessoas estão ou não curadas. Outro aspecto importante é o número de casos de internamento, que não tem disparado em Portugal, em comparação com o que acontece em outros países. A grande batalha é impedir que o número de casos dispare por dia. Tornaria-se muito pior para o serviço de saúde e para a população.

No plano teórico 14 dias são indicativos da doença?
Temos aprendido algumas coisas com o que tem acontecido em Itália e Espanha. Aquilo que tínhamos da China era que catorze dias eram, mais ou menos, necessários para ter o curso da infecção, para termos a certeza que o doente podia estar curado. Os dados da Itália e da Espanha mostram que muitos doentes, apesar da terem recuperado, ainda são positivos para o vírus ao final de três semanas. Portanto, temos que perceber que temos que dar uma folga maior para assumir o estado de cura.

Este é um vírus que está a sofrer mutações, alterações. Fica adormecido no estado imunidade?
Neste caso estamos a falar de um vírus respiratório que tem um comportamento muito semelhante ao vírus da gripe, com as devidas diferenças naturalmente. É um vírus que é transmitido muito facilmente, que tem uma apetência por células do aparelho respiratório, as nossas células à medida que vão morrendo o vírus vai também morrendo. Se tivermos um bom sistema imunológico é que vamos produzir anti-corpos contra o vírus e vai proteger-nos da infecção se tornar uma situação mais complicada. À partida, uma pessoa que seja infectada por este vírus vai eliminá-lo do seu organismo com o passar do tempo e, por outro lado, vai ganhar memória para a infecção. Temos vacinas novas todos os anos, este próprio vírus nestes três meses e meio tem sofrido mutações, porque os que circulam agora já são diferentes daqueles que circulavam em Janeiro na China. É perfeitamente normal que o vírus possa voltar a aparecer no próximo ano, mas já não com um contexto tão forte como é agora, uma vez que a grande maioria da população já terá tido contacto. Não parece ficar adormecido, parece ser absolutamente eliminado e nós desenvolvemos uma resposta imunológica prolongada no tempo.

As vacinas estão a ser preparadas para as mutações?
Normalmente o que se faz é, apesar do vírus ter tido algumas mutações, que a vacina seja o mais abrangente possível, isto é, que seja o mais protectora possível. É exactamente aquilo que está a acontecer aqui. As vacinas estão a ser preparadas com base na estrutura mais estável possível do vírus, mas não seria de descartar que ele no próximo ano possa aparecer novamente e que aí a vacina não seja eficaz. Nesse cenário já estamos a contar com a nossa resposta imunológica, que é muito mais abragente do que uma vacina que é feita para uma característica do vírus.


Máscaras e luvas? Devem ser usadas?
Têm havido muita discussão em torno dessas matérias. Há dois aspectos que temos que perceber que o uso desse material de protecção deve ser mais aplicado à situação de contacto directo com os doentes, por outro, lado aquilo que temos que perceber é que pessoas que estejam em locais onde haja uma grande afluência de população, em que se esteja exposto, no nosso dia-à-dia, a um risco de ser infectados, portanto se tivermos todos as medidas de precaução, ou seja de lavagem das mãos, de protecção respiratória vamos reduzir muito.
A utilização de máscaras de luvas tem muito a ver com a forma que as utilizamos, porque podemos usar a máscara e podemos usar durante o dia, mas o importante perceber é que a máscara vai-nos impedir de transmitir grande parte das partículas para outras pessoas, mas não nos vai proteger a 100 por cento de sermos contaminados pelas outras pessoas, a menos que elas estejam também a usar máscara.
Por outro lado, se eu usar máscara e a retirar constantemente para comer ou outras coisas e pousar a máscara posso estar a aumentar o risco de contaminação. A mesma coisa com as luvas, por exemplo se colocar duas luvas para ir ao supermercado e vou pegando nas coisas do supermercado, mas quando chegar a hora de pagar eu tenho que tirar pelo menos uma das luvas, porque senão estou a expor os meus objectos ao risco de exposição. Por isso, a recomendação que dou é ter uma luva na mão e a outra sem luva.

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