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Entrevistas

2018-10-13 às 07h00

Rui Alberto Sequeira

“Outubro Rosa” é uma campanha de sensibilização com o objectivo de alertar para a prevenção precoce do cancro da mama. Os eventos ao longo deste mês são na sua maioria dinamizados pela Associação 'Rosa Vida'. O seu presidente, Paulo Morais, destaca a realização de um Congresso de Oncologia e o trabalho que tem sido desenvolvido pelo Gabinete de Apoio Oncológico,com a perspectiva de melhorar a qualidade de vida do doente e apoiar as respectivas famílias.

P -Discutir o cancro era até há uns anos quase tabu. As pessoas têm dificuldade em abordar esta doença, quer os familiares de doentes oncológicos, quer o próprio doente. Os números apontam para um aumento de casos nos próximos anos, mas fica a esperança de que muitos podem não ter um fim trágico devido à detecção precoce e à evolução da medicina.
R – Sim, podemos falar de um certo retraimento em relação ao cancro. Os próprios meios de comunicação social nunca dizem que determinada figura pública morreu com um problema oncológico, mas que foi vítima de doença prolongada. Não vejo problema em se dizer que o óbito foi provocado por um cancro, porque muitas vezes esse alerta pode despertar a prevenção.

P – O ‘Outubro Rosa’ tem muito a ver com a prevenção.
R – Trata-se de uma iniciativa muito feliz da Câmara Municipal de Braga, porque reuniu todas as associações que trabalham a temática do cancro e incentivou-as a empenharem-se na elaboração de um programa único. A Associação 'Rosa Vida' chamou a si a realização de alguns momentos. A designação 'Outubro Rosa' surge porque é este é o 'mês rosa', de sensibilização e prevenção do cancro da mama. Embora falemos do cancro da mama, a associação, com a criação do Gabinete de Apoio Oncológico (GAO) aborda também outro tipo de cancros. Cada vez temos mais incidência de casos de cancro devido a factores como o sedentarismo e a gordura abdominal, estilos de vida pouco saudáveis, má nutrição. Estes aspectos estão a ser estudados em países mais desenvolvidos porque são factores que contribuem para a baixa produtividade e uma maior recorrência de problemas de saúde. A boa noticia é que com os novos tipos de tratamento cada vez se consegue mais que o cancro seja uma doença crónica. Quando alguém recebe a informação de que tem uma doença oncológica a reacção inicial é pensar, “isto é o fim”. Depois existe aquele tipo de pessoas que vão lutar para que não seja o fim e há as que não têm essa atitude.

P – Houve mudanças para melhor no tratamento da doença oncológica? No plano do acompanhamento psicológico do doente também se registaram alterações?
R – Antigamente, a pessoa recebia a notícia de que tinha cancro, era tratada no hospital, mas depois, em casa, não fazia mais nada além dos tratamentos. Actualmente - daí a importância do congresso que vamos organizar no Altice Fórum Braga no dia 20 de Outubro - as unidades de investigação estão a tentar saber de que maneira se podem efectuar tratamentos que melhorem a qualidade de vida do doente oncológico. Se não houver o envolvimento de uma equipa transdisciplinar é normal que o tratamento, que muitas vezes leva à perda de autoestima, devido a efeitos secundários como a queda do cabelo e a mastectomia, não seja suficiente.

P – A existência da equipa transdisciplinar obriga a haver uma ligação forte entre os serviços públicos e privados de saúde e um outro tipo de respostas que a sociedade tem de dar. O aparecimento da 'Rosa Vida' vai nesse sentido?
R – Começou exactamente por aí. Em conversas informais, sempre respeitando a ética, concluímos que era necessário um trabalho comum. Por exemplo, temos um programa de treino de força, orientado e devidamente prescrito, para mulheres que tiverem de retirar o seio. O que se verifica em outros países é que essa actividade física consegue reduzir até 47% uma recidiva.

P – 'O Rosa Vida'l ançou um programa específico de exercício físico.
R – Temos um projecto que neste momento é gratuito, porque está numa fase de estudo e que nunca foi realizado em Portugal. O professor Tiago Rafael Moreira é quem coordena esse estudo. No próximo dia 20 de Outubro vamos apresentar resultados concretos. Esse projetco vai ser transformado em programa para ser replicado ao longo do país. Os resultados deste projecto vão ser apresentados no Congresso de Oncologia em Braga.

P – É uma experiência-piloto que está a decorrer em Braga?
R - São 90 pessoas, divididas em três grupos de 30 por Braga, Guimarães e Vila Real .Em Braga fazem um trabalho especifico de treino de força .Em Vila Real é um grupo sedentário de mulheres .Vamos depois analisar e comparar os resultados dos grupos de mulheres que têm treino, com aquelas que não fazem nada .Para pertencerem a este programa têm de ser mulheres mastectomizadas e que estejam também a fazer quimioterapia. Queremos observar qual o grau de influência do exercício físico durante o tratamento.

P – O ideal seria que este tipo de acompanhamento e tratamento com programas de exercício físico fosse incluído na oferta do Serviço Nacional de Saúde?
R – Seria espectacular, mas temos de dar um passo de cada vez. A associação portuguesa de ginásios que representa tanto o setcor privado como o não lucrativo, criou o movimento 'Começa por Começar”, porque, de acordo com o 'Euro barómetro', em Portugal temos uma percentagem muito elevada de pessoas que não fazem qualquer actividade física e a tendência não é para melhorar.

P – A realização de um Congresso de Oncologia, no próximo dia 20, no Altice Fórum Braga, é, provavelmente, o momento mais importante das iniciativas programadas para o 'Outubro Rosa' O que é que traz de diferente na abordagem ao acompanhamento do doente oncológico?
R – O congresso é inovador porque juntam-se pela primeira vez três áreas essenciais no tratamento da doença oncológica: prevenção, tratamento e a sobrevida, que é algo que nós já fazemos no GAO, onde criámos uma equipa transdisciplinar. Não são apenas as temáticas que são inovadoras, é o conseguir juntar a área da medicina, do exercício físico e da psicologia, sendo que a ideia base é a qualidade de vida do doente oncológico. Ter um doente oncológico em casa, que não regressa á vida activa, profissional, e que até compromete a sua vida familiar que sentido faz?

P – O tema central do Congresso de Oncologia é a 'A Qualidade de Vida do Doente Oncológico'. Estão agendadas comunicações científicas e isso não é muito comum quando a organização parte de movimentos da sociedade civil, neste caso da Associação 'Rosa Vida'.
R – Quando tive a ideia deste congresso, a primeira reacção de quem me rodeia foi de pânico (risos), porque pensou-se que não era possível. Os portugueses são solidários – o 'Jantar Rosa Vida' esgotou em 72 horas – às vezes não têm é tempo ou não têm vocação. Eu achei que devia usar os conhecimentos de gestão e empresariais, para gerir uma associação que fosse auto-suficiente. Não recebemos nenhuma verba do Estado. Tudo o que é feito deve-se à nossa capacidade organizativa.

P – De onde é que vêm os apoios para financiar as iniciativas do movimento 'Rosa Vida'?
R - A classe empresarial bracarense percebeu que o foco da 'Rosa Vida' é o apoio imediato ao doente oncológico. Por isso há um grande envolvimento ao nível logístico. Todo o dinheiro que é angariado resulta das diversas iniciativas que nós promovemos. Nós não fazemos peditórios.

P - Não quer retirar deste entrevista mais valias pessoais e profissionais, mas tem em Braga um ginásio que é o unico nesta região que permite aos doentes oncológicos terem sessões de hidroterapia.
R - O tratamento cem por cento com ultravioletas é no 'Gym Tónico', porque permite trabalhar em piscina com doentes que fazem quimioterapia ,uma vez que a água é desprovida de produtos químicos. Tenho uma equipa de hidroterapeutas preparados só para este tipo de exercícios. Por isso, o segundo bloco de intervenções do Congresso de Oncologia é dedicado ao exercício físico e à nutrição. No fundo, é chamar a atenção de que se os ginásios querem ter um papel essencial, têm de se especializar.

P - Para as pessoas com dificuldades económicas que necessitem desse tratamento...
R - Têm o apoio do 'Rosa Vida'.

P - Mas são tratamentos que não têm comparticipação do Estado?
R - Infelizmente não porque o Estado ainda encara este sector como sendo destinado à beleza. Para mim, IVA de 23% não faz sentido porque os ginásios são saúde e temos de ser encarados nessa perspectiva.

P - No caso da utilização da piscina de ultravioletas, sendo que o Estado não tem esse tipo de respostas, existe uma comparticipação do SNS, dado ser um tratamento prescrito pelos médicos?
R - Há isenção de IVA, porque o tratamento é realizado por hidroterapeutas da área da fisioterapia, mas se tiver de fazer um complemento no ginásio com um técnico habilitado na área oncológica já paga 23% de IVA. Para hidroterapia ainda existem alguns serviços na área da saúde que vão comparticipando e também algumas seguradoras. Custa mais ao Estado as pessoas não regressarem à vida activa, ficarem em casa dependentes, do que subsidiar estes tratamentos aos doentes oncológicos.

P - O congresso tem ainda uma terceira parte dedicada á psicologia.
R - Tendo o cancro um estigma tão forte, o ideal é que numa consulta de diagnóstico estivesse uma equipa de psicologia para acompanhar a pessoa. No congresso vamos ouvir falar não só da psicologia do utente, mas também dos cuidadores informais e dos cuidados paliativos, isto é, dar vida aos dias.

P - Ainda esta semana, a Ordem dos Psicólogos alertava para a carência destes profissionais no SNS.
R - O ideal era que o Estado pagasse tudo, mas nós sabemos que isso não é possível. Se o sector privado tem capacidade de resposta tem de participar. É nosso dever ter uma tabela de preços social,: Mesmo para quem tem uma vida estável, uma doença oncológica abala o orçamento familiar.

P - Como é a relação entre o movimento 'Rosa Vida' e a Liga Portuguesa Contra o Cancro?
R - A Liga tem um trabalho muito importante no país ao nível da prevenção através das campanhas que fazem e no domínio do voluntariado nos hospitais. São trabalhos distintos, o da Liga e o nosso. Se a Liga precisar de apoio em alguns dos nossos serviços nós ajudamos e o contrário também se verifica. Dos 'kits' vendidos pela Liga para a 'Pink Run', metade da verba vai para a Liga. A 'Pink Run' (21 de Outubro) é da responsabilidade da 'Rosa Vida', que fez 3000 'kits', sendo que muitos particulares e empresas compram, mas depois não os levantam e dizem-nos para os revender, o que permite aumentar as verbas angariadas.

P - O dinheiro angariado nas diversas iniciativas da 'Rosa Vida' vai basicamente para o GAO. É suficiente para as valências que dispõe?
R - Tem chegado. Queríamos que muito mais pessoas recorressem aos serviços do GAO. Em apoios à medicação, só este ano já disponibilizamos cerca de cinco mil euros a doentes oncológicos que não têm condições de os adquirir, fora as próteses e as consultas. O que eu noto é que as pessoas ainda não percebem muito bem o que é o GAO. Este ano estamos a apostar fortemente no programa de exercício físico, porque os dados que vêm de outros países comprovam que as pessoas recuperam a funcionalidade, a mobilidade e animicamente também melhoram.

P - Os números apontam para um aumento considerável de casos de cancro a nível global nos próximos anos. Em Portugal, com as limitações do sector público, poderá ser o setor privado a dar uma resposta mais completa?
R - Eu penso que deveríamos trabalhar em conjunto. Se o Estado encarar o trabalho dos ginásios como algo sério, complementar e se isso for considerado como sendo do domínio da saúde e passar a ser comparticipado, só tinha a ganhar, porque um regresso do doente oncológico à vida activa é benéfico. Não podemos obrigar o Estado a comparticipar tudo, mas também não podemos querer que os privados ofereçam os serviços. Temos é de acabar com a hipocrisia de dizer que os privados não podem ser apoiados porque querem lucro. O lucro para nós é o ordenado que qualquer privado recebe quando trabalha. Por exemplo, o programa 'Let´s be active', lançado a nível europeu, em que associação de ginásios portugueses participa, cede gratuitamente os seus serviços a 20/30 pessoas. É um programa de seis semanas. Vamos depois ver qual foi a sua influência em pessoas sedentárias dos 18 aos 55 anos.




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