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Pedro Varanda: “Nesta fase, gostar é estar longe”
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Pedro Varanda: “Nesta fase, gostar é estar longe”

Entrevistas

2020-04-20 às 09h00

Rui Miguel Graça Rui Miguel Graça

Pedro Varanda é médico e cirurgião director do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital de Braga, Coordenador de Ortopedia do Instituto CUF Porto, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia, Coordenador da Secção de Coluna da SPOT e membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral, e aborda o actual momento.

Que palavras poderá um médico dizer nesta altura em que um país vive afundado na incerteza e no medo?
Como médico e cirurgião, sendo prático e objectivo, tenho apenas duas palavras: Respeito e Confiança.
Respeito. Pelo próprio, pela sua família e pelos outros. Respeitar escrupulosamente as orientações que são dadas pelas instituições que estão a gerir esta pandemia. O cumprimento escrupuloso do distanciamento social, do ‘ficar em casa’ e da higiene respiratória, nomeadamente o uso de máscara por todos, serão os pilares da resistência a esta pandemia. Desta forma, protegemo-nos e aos nossos e, assim sendo, protegemos também os outros.
Confiança. Confiança nos profissionais de saúde e nas entidades competentes. Temos um dos melhores sistemas de saúde do mundo e muito à custa das suas pessoas. Perdoem-me a imodéstia, mas temos profissionais de excelência em todas as áreas, pelo que o esforço que está a ser desenvolvido deve ser, no mínimo, respeitado. Confiar nestas pessoas que, apesar de tantas vezes menosprezadas e maltratadas quer pela opinião pública quer pela própria tutela, abnegadamente e diariamente vão cumprir a sua missão de tratar dos seus doentes, muitas vezes a grandes expensas familiares e pessoais. Esta confiança de que juntos conseguiremos ultrapassar esta crise devastadora.

Qual é o sentimento que persiste nos corredores do hospital de Braga?
Já passámos por várias fases ao longo destes últimos meses. Inicialmente apreensão e medo do desconhecido. Uma doença nova, um vírus novo, sem cura, sem vacina, sem armas... Que obriga a novos equipamentos, a novos procedimentos... Uma fase de preparação para o que aí vinha. Depois, uma fase de constatação, de aceitação. “Temos que lidar com isto da melhor forma que conseguirmos”, muitos sacrifícios, muito isolamento, muito esforço físico e psicológico.
Ainda estamos e estaremos nesta fase, mas agora também com confiança e esperança. Alguns indicadores mostram que estamos no bom caminho, estamos a conseguir dar resposta sem esgotar os recursos de saúde. Falta o mais difícil, que é a perseverança, manter este esforço dia após dia, vai ser o mais difícil, para profissionais e também para a população, mas é crucial.

Estava o sistema de saúde português, e, em especial, o Hospital de Braga preparado para esta pandemia?
Nenhum sistema de saúde está preparado para uma crise deste género, diria mesmo mais, nenhum sistema de saúde nem nenhum país está completamente preparado para uma pandemia, veja-se o que se passa em países até com muito mais recursos económicos e de saúde do que nós. Em Portugal tivemos a sorte de que o vírus chegou mais tarde e tivemos bem presentes os exemplos da China e de Itália, e mesmo de Espanha, o que nos permitiu antecipação. O encerramento das escolas e o estado de emergência (na minha opinião até demasiado permissivo e tardio) foram duas medidas fundamentais.
Ao nível hospitalar, todos se foram preparando, uns melhores e mais rápido do que outros, mas globalmente foram reestruturados circuitos, alocados recursos e feita a preparação possível. O nosso Hospital de Braga fez o mesmo, medidas muito importantes e difíceis foram adoptadas precocemente, como a suspensão das visitas aos doentes internados e a diminuição marcadíssima de toda a actividade programada, ficando apenas a actividade urgente, permitiu reduzir a exposição e poupar recursos, físicos e humanos.

Quais são as maiores lacunas existentes naquele que é dos maiores hospitais do país?
Há que perceber que houve uma autêntica revolução no hospital, converteram-se espaços para finalidades que não tinham, redefiniram-se circuitos, realocaram-se pessoas e material, alteraram-se horários e até as actividades habituais dos profissionais. Claro que houve pequenas falhas de comunicação, medidas que têm que ser corrigidas e adaptadas à realidade, alguma dificuldade em ter equipamento de protecção individual em abundância, algumas instalações que foram adaptadas e que não têm ainda todos os pormenores para o seu perfeito funcionamento, mas não consigo apontar grandes ‘lacunas’.

O que até há pouco tempo achávamos previsível é agora uma realidade de suor, muito sangue e lágrimas por parte dos profissionais de saúde?
Muito muito suor, pouco sangue (felizmente não faz parte desta doença), mas muitas lágrimas.
Os elementos do meu Serviço que tenho a honra e o orgulho de dirigir, são de uma total disponibilidade e estão todos os dias na linha da frente no Serviço de Urgência, no Bloco Operatório, na Consulta Externa onde orientam os casos prioritários, no Internamento onde se continua a passar visita e orientar os doentes, inclusive os que estão internados nas chamadas áreas Covid. (...)

(...) Não estou, obviamente, na primeira linha, mas vou ajudando, muito modestamente, os colegas da Infeciologia. Esses sim, que estão totalmente dedicados a este problema. Essa área, até agora se calhar desconhecida de muitos portugueses, e que é crucial, agora recruta elementos de todas as especialidades para colaborar e que tão necessários são (Anestesistas, Intensivistas, Internistas, Pneumologistas, etc...)
Quero ainda aproveitar para deixar uma palavra especial e que é transversal ao Hospital de Braga e aos hospitais e unidades de saúde do país, uma palavra a todos aqueles que estão dia e noite dedicados a esta pandemia, que deixam muitas vezes de ver e estar com filhos e mulher/marido, dias e semanas. Que não vêm a família há meses a não ser através de um vidro ou de um ecrã. Festas, comunhões, casamentos cancelados, aniversários sozinhos. Porque nesta fase, gostar é estar longe.
A todos os que deixam tudo e todos pelo cuidar do outro, um agradecimento especial, um agradecimento que deve ser de todos, e, principalmente, que perdure, que não se esgote no dia que a pandemia acabar e tudo regressar à normalidade. Que não se esfume. Cuide-se sempre de quem cuida.

Quais poderão ser os cenários dos próximos tempos?
Ainda vamos piorar antes de melhorar. Os indicadores mostram que o crescimento de casos novos e de óbitos está a abrandar, isso é muito bom. Significa que as medidas, duras, estão a resultar. No entanto, ainda vamos continuar a ver estes números a aumentar todos os dias, vamos chegar ao tal ‘planalto’ da curva de que todos falam, mas ainda não estamos lá.

Sente, como médico e cidadão que há pessoas que ainda não perceberam que devem ficar em casa?
Infelizmente sinto. Houve uma grande mobilização dos meios de comunicação, das autarquias, das empresas e de toda a sociedade civil que se uniram em torno de objectivos comuns. No entanto, apesar de toda a informação, continuo a ver muitas pessoas que não cumprem. Como já disse, as medidas restritivas e a vigilância do seu cumprimento deviam ir um pouco mais além, os ditos “passeios higiénicos” ou “práticas desportivas desde que sozinho” não deviam ser permitidas, há sempre quem vá passear o cãozinho 6 vezes por dia e parece que todos agora são atletas e têm que ir correr para a marginal...
Há até situações bem graves de doentes Covid +, que não cumprem o isolamento e contribuem para agravar a disseminação da doença. Ficar em casa é obrigatório. Queriam muitos profissionais de saúde poder fazê-lo e estar com as famílias.

Como profissional de saúde que opinião tem acerca deste isolamento social e do quanto pode ser nocivo à saúde mental?
Há inúmeros textos de colegas psiquiatras sobre este tema, sabemos que o isolamento social é nocivo, ainda mais num povo tão social como o nosso, somos gente de tocar, abraçar, beijar. Para além do distanciamento físico, também o confinamento a um espaço é prejudicial à nossa saúde mental, há que contrariar o sentimento depressivo e repressivo que nos pode provocar esta situação, criar ocupações durante o dia, manter a mente activa, ler um livro, ir buscar os jogos de tabuleiro arrumados há muito, pintar e brincar com as crianças, tentar dar alguma normalidade como vestir-se como habitualmente e não passar o dia de pijama. E, manter-se activo fisicamente, mas em casa, também é importante.
Sem dúvida que esta doença altera profundamente os hábitos sociais enraizados e deixará cicatrizes na forma como nos relacionaremos no futuro.

Como médico ortopedista o verbo mexer está certamente no seu receituário. Que conselhos daria à população que se mantém em casa em isolamento?
Um pouco na sequência do que disse na resposta anterior, é importantíssimo que as pessoas se mantenham activas fisicamente, mesmo dentro de casa. Temos hoje à disposição inúmeros meios de fazer exercício em casa, há aulas gratuitas online nas várias plataformas sociais, há aplicações com esquemas de treinos para fazer em casa de acordo com os diferentes objectivos de cada um, aulas de meditação, de yoga, de pilates.... Enfim, um sem número de opções para novos e menos novos. Não são necessários aparelhos sofisticados nem dispendiosos, não há desculpa para não se exercitarem em casa.

A vacina é, sem sombra de dúvida, a coisa mais desejada por todo o mundo. Como vê os fundamentalistas que continuam a ser contra a vacinação?
A estupidez deveria ser criminalizável, neste assunto em particular. O Mundo está um caos pela falta de uma única vacina. Imaginem o que seria sem nenhuma...

A actual pandemia é a prova de que as grandes doenças podem sempre voltar a afectar o nosso mundo?
Sem qualquer dúvida. O Homem, último dos predadores, esquece-se muitas vezes da sua fragilidade e das suas limitações, vivemos num ecossistema interdependente altamente complexo e um vírus, uma partícula microscópica de cerca de 120 mm, com uma simples cadeia de RNA, conseguiu desequilibrar toda a nossa sociedade tão avançada. Pensarmos que uma gota de álcool em cima do primeiro vírus o destruiria e terminaria a sua existência. Esta é prova da nossa fragilidade e volatilidade. A saúde é, de facto, um bem inestimável. E é frágil. E tudo o que nós damos como certo e controlável, de facto, não o é.

Que conselhos deixaria a todos os bracarenses?
Volto ao início desta entrevista. Respeitem as indicações dos profissionais de saúde e confiem neles. Mais uma vez, perdoem-me ser juiz em causa própria, mas o Hospital de Braga é um dos melhores e mais bem equipados hospitais do País e o melhor recurso são os seus profissionais, ao nível do que melhor existe.
Por isso, o meu conselho para os Bracarenses é: confiem, respeitem e fiquem em casa

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