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Potencial C, projecto de apoio aos empreendedores das artes

Entrevistas

2010-03-07 às 06h00

Rui Serapicos Rui Serapicos

A formação de empreendedores na área das artes é tema para a entrevista com Jorge Cerveira Pinto, director-geral da Agência INOVA. O Potencial C beneficia de apoios comunitários

“Somos a única estrutura que em Portugal promove, de forma activa e continuada, o desenvolvimento da política, economia e gestão cultural, através da formação, da informação e de projectos transversais de apoio ao sector cultural, artístico e criativo nacional”, diz em entrevista ao Correio do Minho Jorge Cerveira Pinto, director gera da Agência INOVA.

Autor de artigos publicados em revistas nacionais e internacionais, o nosso entrevistado é licenciado em Gestão pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Fez uma pós-graduação em Gestão Cultural nas Cidades (ISCTE), mestrado em Cultura, Comunicação e Tecnologias de Informação (ISCTE) e é doutorando pela Universidade de Roterdão.

Desde 1999, desenvolve trabalho como consultor de várias instituições nacionais e internacionais, tendo colaborado no desenvolvimento de planos de marketing, no lançamento de novos produtos e serviços e na avaliação de performance. É responsável pela coordenação do programa de formação CultDigest e de inúmeras acções de formação, na área do marketing, vendas, relações públicas, marketing de serviços bancários, marketing para instituições sem fins lucrativos, auditoria de marketing e marketing de novas tecnologias.

Membro da Associação Portuguesa de Marketing, da European Evaluation Society (EES), da European Network of Cultural Administration Training Centres (encatc), da Association for Cultural Economics International (ACEI) e da Association Internationale de Management Culturel (AIMAC). É auditor do Curso de Defesa Nacional (2007), formador certificado e Accredited Lobbyist junto do Parlamento Europeu em Bruxelas.

Correio do Minho — O Projecto Potencial C, que a vossa agência desenvolve, creio que com fundos comunitários, em termos concretos traduz-se em que tipo de acções?

Jorge Cerveira Pinto — O Potencial C é um projecto de promoção e apoio ao empreendedorismo e inovação no sector das Artes, Cultura e Indústrias Criativas, co-financiado pelo COMPETE - Programa Operacional de Factores de Competitividade, QREN. Este projecto é composto por um conjunto integrado e abrangente de actividades que, ao longo de 24 meses, procurará estimular a criação de empresas no sector. O Potencial C desenvolverá múltiplas acções, por todo o território nacional, no âmbito de sete actividades, designadamen-te acções de informação no âmbito de empreendedorismo e propriedade intelectual, o programa de mentoring (na área de gestão), o programa de capacitação de empreendedores e ainda a criação de uma Base de Dados para o sector e actividades de benchmarking.

Exige uma frequência assídua como um curso, ou é compatível com o desempenho de actividades profissionais? Possibilita financiamentos, por exemplo, para um início de actividade, ou para acções concretas como a realização de um concerto ou de uma exposição?

As actividades do Potencial C não configuram cursos de formação pelo que estas actividades não têm todas o mesmo formato ou duração. Cada uma delas terá uma abordagem diferenciada e mais flexível, ou seja, as acções de informações decorrem com formato de seminário, no programa de mentoring e de capacitação de empreendedores o apoio será personalizado e próximo dos beneficiários e as actividades de benchmarking tanto podem ser uma viagem a uma capital europeia ou a participação num workshop. Ora, os candidatos poderão perfeitamente conciliar as suas actividades profissionais com a participação nas diversas actividades. Quanto à segunda parte da pergunta, o Potencial C não financia financeiramente o início de uma empresa ou de uma actividade concreta, como um concerto ou uma exposição, pretende sim dotar os beneficiários de instrumentos ou ferramentas para fazerem face às dificuldades que sentem quando pretendem criar o seu próprio negócio, ou então, já tendo criado a sua empresa recentemente necessitem de apoio de variada índole.

'Muito do impacto da economia criativa numa determinada cidade ou região está relacionado com a sua capacidade de comunicação e divulgação' e 'todo potencial da economia criativa está nas pessoas. Neste sentido, não é possível desenvolver qualquer projecto nesta área sem ter em conta as populações'. Estas são mensagens que parecem óbvias. O facto de estarem publicadas na vossa página da internet significa que se trata de conceitos que não têm sido devidamente considerados?

Sim, demasiadas vezes os projectos de desenvolvimento da responsabilidade, por exemplo, das autarquias não tem em devida conta as características culturais, educativas, sociais e económicas das populações com as quais os projectos têm que se relacionar. A economia criativa de uma região precisa de recursos humanos - infra-estruturas - meio ambiente social, o que constitui um ecossistema criativo. Todos estes elementos devem ser considerados e não existe sustentabilidade do desenvolvimento sem este equilíbrio. O que vemos é a grande preocupação com as infra-estruturas (uma vez mais o cimento…), como se a simples existência destas fosse o suficiente para provocar a mudança. Hoje sabemos, que na maioria das vezes, isto não é verdade…

“Em cultura, muitas vezes a oferta domina o mercado”

A vossa apresentação foca a relação com o território e com a população. A integração europeia e as novas tecnologias introduziram novas questões? Uma reavaliação de conceitos como 'cultura local'?

Claro que a integração europeia - com tudo o que isso trouxe de mudanças positivas e negativas - e o brutal impacto das tecnologias de comunicação e informação obrigam a pensar o conceito de “Cultura Local”. E co- mo quase tudo na vida, as consequências deste fenómeno de “globalização do eu e do outro”, estão a ser em alguns casos positivas - há de facto uma valorização do nível local, onde reside a diferença - noutros negativas - o ritmo de desaparecimento de povos, línguas e cultura acele-rou-se nas últimas décadas. Mas eu vejo mais oportunidades para Portugal na globalização do que ameaças, só que as oportunida-des em si não chegam se nada for feito para as aproveitarmos.

A Agência Inova define-se como um organismo capaz de 'criar pontes' entre os diferentes agentes. Tem sido fácil? Ou os parceiros tendem a defender-se nos seus feudos?

Não é fácil, mas é cada vez mais fácil. Uma das vantagens da crise e da globalização é que mostra quão pequenos e frágeis somos. E isso é um excelente incentivo - se não existir mais nenhum - para a cooperação entre os diversos agentes culturais, educativos, sociais, económicos e políticos.

Pode dar exemplos de membros da CultDigest?

A Rede CultDigest é constituída por membros institucionais e individuais. Actualmente, a maioria dos membros é institucional e inclui teatros, empresas municipais, associações, museus, empresas, ateliers, autarquias, fundações, institutos públicos, instituições do ensino superior, etc. O número crescente de membros individuais é constituído por agentes culturais, outros profissionais e estudantes.

Têm desenvolvido actividade em cidades Braga, Guimarães ou Viana do Castelo?

Em Braga, sim. Já desenvolvemos algumas iniciativas de formação na área da ges-tão cultural e algumas acções de informação, em co-organização com o PCC - Ponto de Contacto Cultural do Ministério da Cultura. Estas últimas, abordaram na sua maioria a temática das fontes de financiamento nacional e comunitário para a cultura. Em Guimarães, até à data, participamos em seminários e conferências, mas na qualidade de oradores e não em iniciativas organizadas pela Agência INOVA. Em Viana do Castelo, ainda não. Mas, gostaria de referir que, por motivos de escala e acessibilidade, a nossa programação anual (que pretende ter uma abrangência nacional) centra-se em três cidades: Porto, Lisboa e Faro. Acrescento ainda que, para além do nosso programa anual, estamos sempre disponíveis a desenvolver acções de formação e informação específicas em qualquer ponto do país.

Um artesão, um actor ou um músico pode subsistir numa cidade com 150 mil habitantes?

Não vejo porque não! A vida cultural das cidades médias é cada vez mais rica, mais sustentada e menos dependente do que se produz nos grandes centros urbanos. De qualquer forma, a carreira artística vive de intercâmbios e itinerâncias que permitem o desenvolvimento profissional e pessoal, mas também a subsistência dos artistas. Uma dependência exclusiva dos públicos locais, poderá nem sempre ser possível, mas isso também é verdade para a grande maioria das outras profissões.

Em Portugal há mercado com escala para o desenvolvimento de profissões na área da animação e agenciamento artístico e cultural?

Ambas as profissões têm um potencial de progressão importante, especialmente numa lógica de segmentação e de mercados de nicho. Como referi antes, as actividades culturais e de lazer tendem a disseminar-se pelo país, ao mesmo tempo que nos grandes centros urbanos, a procura se vai especializando. Ainda assim, este é ainda um mercado muito específico, onde nem sempre é fácil entrar.

A existência da Inova deve-se a insuficiências das estruturas públicas (administração central e autarquias) na organização de eventos culturais?

Não, de forma alguma. A Agência INOVA não organiza eventos culturais, não somos produtores culturais, na acepção mais frequente da palavra. Mas somos a única estrutura que em Portugal promove, de forma activa e continuada, o desenvolvimento da política, economia e gestão cultural, através da formação, da informação e de projectos transversais de apoio ao sector cultural, artístico e criativo nacional.

As casas de espectáculo, construídas de raiz ou requalificadas cuja proliferação se acentuou nos finais dos anos 90, vieram oferecer novos problemas?

Sim, mas também muitas novas oportunidades. Claro que em muitos casos, o mau planeamento e as más decisões políticas (principalmente a nível local) conduziram a erros facilmente evitáveis. Mas felizmente a grande maioria dos equipamentos culturais construídos ou recuperados, foi capaz de imprimir novas dinâmicas e ocupar hoje um espaço importante na vida dos cidadãos. Claro que para funcionarem, necessitam de recursos, principalmente financeiros, e esses raramente existem aos níveis necessários. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para optimizar a gestão financeira e da programação destes equipamentos, pois necessariamente muitos destes equipamentos não conseguem sobreviver se não estiverem integrados em redes de cooperação. E já temos em Portugal alguns bons exemplos de cooperação, principalmente ao nível dos teatros.

O conceito 'indústrias criativas' sugere produção em série. É assim?

Neste caso, e no contexto em que correntemente falamos de “indústria criativa” - no limite toda a sociedade e toda a actividade económica é criativa - o termo refere-se às actividades que utilizam como inputs para a sua produção, conteúdos culturais e artísticos. Falamos por isso de actividades como a arquitectura, o design, o cinema, a moda, vídeo, televisão, multimédia, música, as artes visuais e o património. Por isso a questão de ser ou não ser em série, não é relevante. Pelo contrário, nestas indústrias podemos verificar que tanto existe aquele pequeno negócio quase artesanal, mas de elevado valor acrescentado e as grandes empresas, voltadas para o mercado nacional e internacional, com produções de grande escala. O que é relevante é a ideia de que para a sustentabilidade da “indústria criativa”, esta diversidade de actores é fundamental. É uma vez mais a ideia do ecossistema criativo…

Artes e expressões culturais tendem a ser propostas numa lógica de procura e oferta como outro produto qualquer?

Em alguns casos, sim. Por exemplo, a programação da grande maioria dos canais de televisão em Portugal, infelizmente é quase que inteiramente determinada pelas audiências… E vemos que os resultados em termos da qualidade e diversidade da oferta não são muito positivos. O que acontece na cultura, é que muitas vezes a oferta domina. Isto é, não existem considerações de mercado, como noutros sectores, a determinar o que deve ou não ser oferecido. Existem outros objectivos - como a diversidade de oferta, a inovação permanente - que são considerados tão ou mais importantes que o objectivo de ter audiências. Não podemos contudo esquecer que qualquer oferta só faz sentido se servir para satisfazer necessidades de algum público, mesmo que sejam poucos. E em Portugal, durante demasiado tempo, esquecemo-nos do público e da importância que este tem. O problema do subsídio e dos apoios aos agentes culturais é que frequentemente os afastam dos seus públicos: os agentes culturais não precisam mais deles para produzirem as suas obras, pois outro agente - normalmente o Estado - financia esta produção. A longo prazo, este modelo não é sustentável. Mas mudar o modelo de financiamento não é fácil e exige persistência e vontade política que não tem existido…

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