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Ser mãe, dona de casa e professora em tempo de confinamento social

As Nossas Escolas

2020-04-25 às 06h00

Paula Maia Paula Maia

Famílias estão a viver uma autêntica aventura dramática em casa. Além das tarefas domésticas, assumem o papel de professores, muitas vezes sem recursos informáticos e com o ordenado reduzido a 66%. Muitos estão ainda em regime de teletrabalho.

‘Donas de Casa Desesperadas’ ou ‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’ são os dois títulos de comédia que bem se poderiam ajustar aos tempos em que vivemos, embora tivéssemos de mudar a ‘agulha’ quanto ao género, transformando-as, no mínimo, em aventuras dramáticas.
Experiências exaustivas, que vão desde o desespero ao cansaço extremo, é o que as famílias - onde as mulheres assumem um pilar essencial - estão a viver nestes tempos de pandemia, onde os papéis sem acumulam e, por vezes, até se invertem.

Muitos progenitores estão hoje em casa, com o salário reduzido, assumindo o papel de professores (ou o seu complemento), donas de casa, pai/mãe. No meio de tudo isto ainda têm de fazer a gestão emocional dos tempos conturbados que vivenciamos, com a tentativa de não transmitir a ansiedade e medo que experienciam para os seus filhos, olhando para o futuro com a incerteza de quem não sabe quando poderão regressar ao trabalho (e se ele ainda permanecer).
Outros ainda, acumulam o regime de teletrabalho, confrontando-se com a difícil gestão de conciliar o trabalho com o apoio aos filhos.

O CM recolheu dois testemunhos que espelham bem estas duas situações.
O primeiro é o de Conceição Pereira. Em casa desde 16 de Março, dia em que encerram as escolas, a bracarense viu literalmente a sua vida mudar “da noite para o dia”.
Com dois filhos, um com 8 anos e a frequentar o terceiro ano do 1.º Ciclo, e outro com 16 anos a frequentar o 10.º ano, a preocupação de Conceição, especialmente desde o início do terceiro período, é acompanhar o ritmo das aulas e dos trabalhos. Para agravar a situação, em casa existe apenas um computador. “Neste momento está o mais velho no computador a ter aulas e o mais novo com uma aula de Inglês marcada para a mesma hora. O mais velho vai tentar sair mais cedo da aula para o mais novo ter um bocadinho de Inglês.?Estamos a tentar gerir as coisas desta forma”, diz a mãe.

Além da gestão de recursos informáticos, o acompanhamento didáctico que tem de dar aos filhos, sobretudo ao mais novo, é um dos papéis mais difíceis que teve de desempenhar até agora. É um papel novo - pelo menos com esta carga - que não estava habituada. “Está a ser muito, muito complicado. Muitas vezes as crianças nem entendem o que estamos a dizer porque não é assim que os professores explicavam na escola. Não podemos substituir os professores que têm os seus métodos de ensino”, argumenta.

Conceição assume que a situação gera ansiedade e frustração tanto nos pais, como nas crianças. “ O peso que estamos a sentir é muito, mas tento não transmiti-lo aos meus filhos”, continua. A somar a esta condição está o facto de estar a receber 66% do seu ordenado desde Março, sendo que as férias da Páscoa ficaram fora deste ‘pacote’. “Nesses 15 dias perdi tudo porque não podia deixar o meu filho mais novo sozinho. Tinha um ATL assegurado para esse período que também teve de encerrar portas, mas que tive de pagar”, conta. E vai mais longe: “ninguém sabe quando é que isso vai parar. O final do terceiro período é no dia 26 de Junho. Só que muitas famílias, como é o meu caso, estavam a contar com o ATL’s até Agosto para pudermos trabalhar. Vamos ficar sem nada! Quinze dias a maior parte aguentou, mas um mês e meio não. Ninguém está a ver essa situação”, adverte esta bracarense. E reforça a ideia: “ continuamos a pagar o ATL para ter uma vaga no mês de Setembro se abrir. Está a ser-nos imposto isso, o que é muito complicado”, diz esta mãe bracarense.

“Por mim o terceiro período não existia”

Conceição Pereira confessa que nem sempre consegue apoiar os filhos nos estudos, particularmente o mais novo que necessita de apoio. Apesar de perceber que a actual situação de ensino à distância é a possível em tempos de confinamento social, a progenitora assume que os resultados ficarão muito aquém dos pretendidos. “Por mim o terceiro período não existia. Preferia, como mãe, que os nossos filhos repetissem o ano. Ou seja, o ano acabava e, para o ano, iniciavam onde estavam. Isto para o terceiro como para o 10.º ano. Seria tudo muito mais fácil para as crianças, para os professores”, diz.

“Pais deveriam receber o ordenado por inteiro”
Obrigados a ficar em casa para tomar conta dos filhos devido ao encerramento das escolas, Conceição Pereira defende que os pais não deveriam ser penalizados por uma situação para qual não opinaram e na qual tem de assumir também o papel de professor “sem sermos pagos por isso”. “Estamos em casa com os nossos ordenados reduzidos e estamos a fazer um papel extra. Foi algo que nos foi imposto, não pedimos nada. Não foi uma decisão nossa, logo o ordenado deveria ser pago a 100%”. Conceição não tem dúvidas de que no final do período muitos terão de “pedir ajuda psicológica”, sem que tenham dinheiro para procurar esse apoio.

“Os meus dias têm sido um perfeito caos”

A casa de Alexandra Barbosa transformou-se, desde 16 de Março, num centro de dia, numa crehe, numa escola primária e numa extensão da empresa onde trabalha.
Um centro de dia porque está a cuidar da mãe com Alzheimer que viu a instituição onde passava o dia fechar. Numa creche porque passou a cuidar 24 horas da sua filha mais nova, de 5 anos. Uma escola primária porque tem de acompanhar diariamente as aulas à distância do seu filho de 8 anos, que tem Déficite de Atenção. Numa extensão da sua empresa porque está em regime de teletrabalho.

“Tenho que me por a pé às 6.30 horas para começar a trabalhar. Até às 8.30 consigo fazer o meu trabalho normalmente. É nessa que procuro fazer as reuniões com o pessoal da Alemanha, por volta das 8 porque lá já são nove e estou mais tranquila”, conta-nos esta bracarense que trabalha no departamento de gestão de uma empresa local que, nesta altura, exige uma atenção redobrada.
É por volta às 8.30 que Alexandra se prepara para acordar o filho mais velho que inicia as suas aulas às 9.15 horas. A partir daqui o dia torna-se mais intenso, a desempenhar várias tarefas, sendo que acompanhar as aulas do filho é que exige mais de si. “O meu filho tem alguma dificuldade de concentração. Essa é uma das minhas maiores dificuldades. Estar em frente ao computador não é a mesma coisa que estar com a professora num ambiente de sala de aula. Por isso, para ele é muito mais difícil focar-se”, explica Alexandra, confessando que passa “parte do tempo a perceber se está dentro da matéria”, admitindo que entre as aulas e as fichas de trabalho “fica algumas coisas para trás”.

Vale-lhe a ajuda do marido, a trabalhar na emas empresa, que quando chega revê a matéria. “Não consigo acompanhar tudo”, diz.
No meio desta azáfama, Alexandra admite também que tanto a mãe como a filha ficam “em auto-gestão”. “Não consigo fazer nada com a minha filha. Havia a regra de em casa de não brincar com o tablet mas, neste momento, infelizmente está completamente viciada porque não consigo tomar conta dela quanto gostaria”, continua.
Cabe, uma vez mais, ao marido brincar no jardim de casa quando chega a casa e depois de auxiliar também o filho mais velho.

“O pouco tempo que tenho para estar com a menina é no intervalo da aula do mais velho, das 10.45 às 11.15 horas. Paro com o meu trabalho e vou mesmo brincar com os dois. Às 12.30 paro novamente para fazer o almoço, altura em que os dois vão para o jardim com a minha mãe”, diz ainda.
As aulas prosseguem da parte da tarde, assim como o trabalho laboral de Alexandra que se intensifica neste período devido ao volume de videoconferências. “Nesta altura já não consigo dar tanta atenção ao meu filho. Daí dizer que falho um pouco com ele”, confessa.

Para tentar compensar estas ausências, Alexandra e o marido acordaram que ele começaria a trabalhar às 7 para estar em casa às 15.30 horas, de modo a que Alexandra se consiga concentrar mais no seu trabalho. “Em alturas de preparação de dados cheguei a trabalhar até à uma da manhã porque as coisas têm de ficar prontas e nessa altura a casa está mais sossegada”, conta. Mas confessa:“Não sei quanto tempo mais aguentarei esta situação. Só ainda não optei pelo regime de assistência à família porque a minha posição é de responsabilidade e não tenho mais ninguém que faça esta tarefa. Mas, sinceramente, pondero ir eu para a empresa e o meu marido fica em asssitência à família.?Prefiro perder rendimento, mas ter alguém que cuide inteiramente deles”, remata.

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