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Entrevistas

2020-02-29 às 06h00

Rui Alberto Sequeira Rui Alberto Sequeira

Teresa Andresen lamenta a incapacidade de se adoptarem políticas que contrariem o abandono da gestão da paisagem, colocando cada vez mais em causa a existência de solo fértil. A arquitecta paisagista coordenou elaboração da candidatura do Bom Jesus a Paisagem Cultural da Humanidade e deixa o alerta para o aumento crescente da pressão automóvel naquele espaço. Em mãos, a convidada do programa ‘Primeiro Plano’ tem o desenho do futuro ecoparque das Sete Fontes, em Braga.

P - Como é que surge na sua vida o interesse pelo paisagismo e pela arquitectura?
R - Tenho muita sorte pela profissão que desenvolvo enquanto arquitecta paisagista e também com formação na área da engenharia agronómica, uma formação de base importante. Quando descobri que existia arquitectura paisagista, já tinha outra orientação para a minha formação profissional e foi preciso refazer caminhos. Isso acabou por ser importante porque levou-me aquilo que eu queria: ser arquitecta paisagista. Tinha um interesse muito grande pelos jardins enquanto laboratório por excelência do arquitecto paisagista. Mas, de facto, a minha vida profissional nem foi tanto pela área dos jardins. Acabei por me dedicar aos grandes temas do ordenamento do território, da gestão da paisagem.

P - Venceu a primeira edição do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem. O arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles foi provavelmente uma das primeiras pessoas em Portugal a lançar para o debate político questões do ordenamento do território e ambientais.
R - O prémio é uma homenagem a Gonçalo Ribeiro Telles e expressa uma vontade de perpetuar um legado que ele nos deixou, focado nas áreas do ambiente e da paisagem. Gonçalo Ribeiro Telles é, incontornavelmente ,uma grande referência naquilo que foi e que ainda continua a ser a luta ambiental, a defesa dos valores ecológicos, os valores culturais da paisagem. Faz parte da primeira geração dos arquitectos paisagistas, formados pelo mestre Francisco Caldeira Cabral. Gonçalo Ribeiro Telles interiorizou o discurso do mestre que ainda hoje é um discurso fresco, actual. Gonçalo Ribeiro Telles teve o mérito de transpor esse discurso para o discurso político.

P - Antecipou muitas políticas governamentais e práticas municipais no domínio do ordenamento territorial da ecologia.
R - Uma das maiores ousadias de Gonçalo Ribeiro Telles foi criar a Reserva Ecológica Nacional (REN). 
P - É um legado que ainda se mantém? 
R - É um legado que se mantém, mas existem diversos aspectos a considerar. A REN, tal como foi concebida em 1982, é um documento com uma visão humanista, integradora, consciente das dinâmicas da paisagem. Na sua última revisão, em 2012, a REN tornou-se mais tecnicista e isso assusta-me um pouco, porque o que temos agora são representações da realidade, perdemos a visão integradora, holística e humanista que o documento concebido por Gonçalo Ribeiro Telles apresentava.

or detrás de tudo isto está o papel do ser humano e o seu comportamento colectivo e individual. A REN, para muitos, não foi um instrumento amado, mas eu tenho a convicção de que a paisagem portuguesa estaria muito pior se não tivéssemos a REN de Gonçalo Ribeiro Telles. Quando surgiram os Planos Diretores Municipais (PDM), no início da década de 90, foi obrigatório delimitar a REN ao nível municipal. Essa não era, no entanto, a ideia de Ribeiro Telles, que passava por delimitar a Reserva Ecológica a nível regional ou nacional, impedindo a fragmentação dos recursos naturais do país. Perdeu-se o todo para se ter um somatório de partes.

P - É possível conciliar a preservação da paisagem com o desenvolvimento e com os desequilíbrios que a vivência humana provoca nos territórios?
R - Essa conciliação faz-se negociando. Nós convergimos muito mais do que divergimos. Nós temos muita dificuldade - de uma forma sistemática - em concertarmos sobre aquilo em que estamos de acordo e depois conseguir discutir sem preconceitos aquilo em que não conver-gimos. Há coisas que são essenciais e tão básicas como termos a percepção de que a água é um recurso escasso. Compreender o ciclo da água na paisagem é determinante para as decisões que se tomam. A qualidade do ar as pessoas também percepcionam.

P - O que é que falha na percepção?
R - Falha a perceção do verdadeiro interesse do recurso, provavelmente o mais escasso e mais ameaçado, que é o solo, em particular o solo fértil. E aqui é que devia ser muito fácil obter um consenso.

P - A ausência de percepção da importância do solo é do cidadão comum? Dos decisores políticos?
R - É generalizada. Há uma grande dificuldade em perceber que um solo fértil é um habitat extremamente rico e tem uma dinâmica extraordinária.

P - O solo fértil tem sido utilizado sem critério para a construção?
R - Construiu-se muito. A Reserva Agrícola Nacional (RAN) - outro instrumento ao qual o Ribeiro Telles esteve ligado - foi muito mais permissiva do que a REN. Basta subir ao cimo do Monte da Assunção ou ao Monte de Espinho e olhar para baixo para ver que construímos em cima dos nossos melhores solos agrícolas.
P - Em Braga, o Vale de Lamaçães é um exemplo paradigmático dessa utilização dos solos agrícolas para a construção?
R - É, mas há muitos outros à volta de Braga ou de Barcelos. O Vale do Ave tem muitos exemplos desses. Nós, no Entre-Douro e Minho. temos um sistema de gestão muito inteligente dos recursos naturais, chamado sistema de ‘campo e bouça’, que foi praticado pelas populações que ao longo de gerações construíram o solo agrícola. 
P - Como é que se pode manter esse equilíbrio entre os solos e os novos hábitos de vida?
R - Foi pena que se tivesse ocupado da forma como nós fizemos as grandes áreas de solo fértil da RAN. Isso é irreversível. 

P - Há formas atenuar essa realidade?
R - Não. É irreversível e é isso que não é perceptível.

P - Relativamente às florestas, Portugal tem uma mancha florestal assinalável. Que avaliação faz?
R - Temos uma expressiva mancha florestal, mas temos áreas que estão geridas e outras que estão abandonadas, Isso é um grande problema. A falta de gestão da paisagem, do território, é, porventura, o problema mais grave da sociedade portuguesa neste momento. 

P - Temos uma floresta muito permissiva aos interesses económicos?
R - Ainda bem que a floresta é um recurso económico, porque senão a estaria ainda mais abandonada. Nós temos muita dificuldade em ler a paisagem, a literacia da paisagem é muito escassa e as pessoas têm uma grande dificuldade em distinguir uma paisagem gerida de uma que está abandonada. Uma paisagem que está abandonada é uma paisagem em que a vegetação entra no seu processo de evolução natural e aquela massa vegetal que se desenvolve é combustível. Está ali para arder. Sempre soubemos no passado lidar com o fogo e agora esquecemos. O problema de vivermos na cidade é que temos pouca relação com os elementos naturais. Hoje já não olhamos para o céu, para as nuvens, para vermos como está o tempo, olhamos para o telemóvel.

P - A relação da floresta portuguesa com o fogo nos últimos anos tem sido dramática.
R - Eu acho que não existe melhor exemplo do que o que sucedeu a 15 de Outubro de 2017. Foi dramático em Braga e Guimarães. Podia ter sido ainda muito mais trágico do que aquilo que foi.

P - E aprendeu-se alguma coisa com esses acontecimentos?
R - Acho que aprendemos muito pouco.

P - Olhamos para a Falperra e constatamos que está tudo na mesma.
R - Está o material combustível a acumular-se. Se se reunirem as circunstâncias de temperaturas elevadas e ventos quentes, só há um caminho e, infelizmente, sabemos qual. É necessário gerir a paisagem e contrariar o abandono. O problema é que neste momento temos um modelo de posse da terra completamente desadequado. É um tema muito complicado. Se me perguntarem quais as soluções que preconizo, eu não as tenho no imediato.

P - Fala-se da possibilidade de o Estado poder compensar os proprietários pelos trabalhos de manutenção e preservação de alguns espaços florestais.
R - Sabem quanto custa manter limpo um hectare de floresta? Daqui a quantos meses ou anos volta a ter de se fazer a lim-peza? Se começarem a fazer contas per-cebe-se que a tarefa é brutal. Nós domes- ticámos os animais e tínhamos uma grande ciência da sua gestão. Os animais andavam no monte - as vacas, as cabras - eram recolhidos, havia uma gestão comunitária e eram eles que faziam essa tarefa por nós.

P - Mas quando fala de soluções é voltar ao mundo rural e ao pastoreio, por exemplo?
R - Não. Encontrarmos esquemas alternativos de termos rebanhos na paisagem concertados com outras práticas como fogo controlado. O problema é que muitas vezes a propriedade é privada. Eu não posso invadir a propriedade privada.

P - Deveria ser o estado a alterar o regime de propriedade?
R - Terá de haver um quadro legal que implique uma alteração desse tipo, mas mais importante é sabermos como é que as comunidades se querem organizar e eu acho que nós revelamos uma grande incapacidade de nos organizarmos.

P - Ainda sobre o incendio que ocorreu ás portas de Braga em outubro de 2017, a arquiteta Teresa Andresen fez parte da equipa que preparou a can- didatura do Bom Jesus a património mundial. Sentiu que o Bom Jesus estava em risco?
R - Há uma homenagem a fazer aos funcionários do Bom Jesus que foram heroicos nessa noite a assegurar a segurança.

P - A cerca do Bom Jesus era um espaço que já na altura tinha alguma gestão, algum ordenamento.
R - É um espaço gerido, que é regado. Há um controlo de infestantes significativo, mas mesmo ao lado os vizinhos não fazem esse controlo.

P - Continua preocupada?
R - Preocupadíssima. Esta semana fui até á Falperra, passei por Pedralva e só basta reunir as circunstâncias para que tudo arda outra vez.

P - Temos o Bom Jesus do Monte (BJM) património mundial da humanidade.
R - O BJM está inscrito na lista de património mundial. O estado português classificou como monumento nacional e a UNESCO inscreveu na sua lista de património da humanidade.
P - Mas é uma inscrição que pode ser revogada se não forem cumpridos determinados critérios?

R - A UNESCO pediu e as duas autarquias, Braga e Guimarães têm o compromisso de desenvolver uma estratégia conjunta de defesa contra incêndios.

P - Através do projeto dos "Sacro Montes".
R - Exatamente

P - Mas voltando um pouco atrás, aparentemente ainda não aprendemos a lição de 2017?
R - Já passaram dois anos e meio, experimentem lá ir e o que é que vêm: eucaliptos que arderam mas que aguenta- ram o fogo estão viçosos, o sub-bosque instalou-se novamente e portanto basta existirem condições climatéricas pro- picias.

P - Quem é que tem de "arregaçar as mangas " e resolver os problemas?
R - Nós falamos muito do estado, mas o estado está muito distanciado deste tipo de problemas. Neste caso as autarquias têm um papel fundamental. Não enveredámos por um processo de regionalização que seguramente traria as questões para mais perto das populações. Hoje temos as Comunidades Intermunicipais e embora elas se articulem, tenham estratégias, projetos de investimento conjunto é a uma escala mais reduzida. Há uma reflexão feita neste momento a nível nacional que é preciso testar. Nós vivemos uma grande crise institucional, houve uma grande desorganização, desestruturação das instituições principalmente as nacionais e por isso eu sinto aí uma grande fragilidade.

P - Coordenou a equipa que apresentou a candidatura do BJM a património da humanidade. Há um trabalho permanente de preservação do património ambiental e construído?
R - A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). em 1972 criou a Convenção do Património Mundial que é um documento que vai sendo atualizado e tem as suas orientações técnicas e é esse o grande trabalho: a implementação das orientações técnicas, as boas práticas de conservação, as boas práticas de gestão da visitação. É muito preocupante a carga de visitantes sobre os lugares que são património da humanidade. A inscrição é um nome que se acrescenta a uma lista e foi isso que sucedeu com o BJM. Mas o BJM assumiu uma série de compromissos e a Confraria vai ter de entregar ao estado português um conjunto de compromissos que a UNESCO lhe colocou quando aprovou a inscrição: querem mais detalhe sobre os planos de plantação, a estratégia de defesa de fogo, modelo de gestão. O BJM é património de Portugal e é o governo português que tem de responder por ele porque é quem faz a articulação com a UNESCO em Paris. É um processo complexo e estamos muito vigiados.

P - O BJM está a aguentar a pressão de aumento de visitantes?
R - A Confraria e a Câmara de Braga estão conscientes. É preciso corrigir, qualificar, clarificar várias coisas como a circulação, como é que se chega ao BJM, já tem existido nos dias de maior afluência no Verão situações muito complexas de trânsito. Nós hoje temos obrigação de ter soluções.

P - Seria aconselhável limitar a circulação automóvel?
R - A Confraria felizmente introduziu a entrada paga mas mesmo assim há muita gente que estaciona fora, em sítios inde-vidos e temos agora um estacionamento caótico á volta do BJM. Seguramente vai ter de ter respostas porque não vai ser sustentável.

P - A arquiteta Teresa Andresen integra a equipa que projeta o parque ecomonumental das Sete Fontes. Há ‘matéria-prima’ para fazer naquele local um parque diferente?
R - Eu não sei se terá de ser um parque diferente de outros. Uma vez mais estamos a falar de um monumento nacional e tendo esse estatuto deve ser tratado como tal. A equipa que tem trabalhado em articulação com a Câmara Municipal de Braga (CMB) privilegiou uma solução de dar prioridade ao monumento. A existência do parque - com um certo desafogo - é uma solução evidente e corajosa, estamos a falar de propriedade privada. Nesse aspeto a CMB tem sido muito corajosa e muito persistente. Temos de compreender todos os lados.

P - Do que já desenhou para o parque das Sete Fontes o que é os bracarenses poderão esperar?
R - É um parque rodeado de urbanidade. O Hospital de Braga (HB) não é uma construção feliz. Sendo necessário, não foi construído de acordo com as boas práticas urbanísticas e há uma frente do Parque das Sete Fontes que está sempre muito condicionada pelo acesso ao HB. O que os visitantes podem esperar é um parque que tem uma particularidade muito interessante porque distribui-se em altitude, há matas frescas, zonas de transição e uma zona seca. Existe uma sucessão muito bonita de ecossistemas e do ponto de vista paisagístico é de uma grande qualidade. Vão encontrar percursos, pequenas matas, pequenos bosques. A população, as associações, as juntas de freguesia sempre falaram muito na memória das Sete Fontes, não apenas do monumento nacional, da água que abasteceu Braga mas também da memória rural, agrícola que ali se encontra. Neste seculo os parques recuperaram uma componente de cultivo e produtiva, as hortas, o tal solo fértil. Este é um parque que terá essa vertente e procura colocá-la ao serviço da população. O parque é um museu a céu aberto e não existe a necessidade de musealizar a história que ali está. A proposta está ancorada em quatro entradas diferentes para as Sete Fontes que fazem a ligação com a urbanidade. É também ai que vão estar alguns pontos de recreio, os cafés, os parques infantis e assim deixar o monumento mais livre. Depois, permitir que exista uma área suficiente grande não edificada.

P - Há pouco jardins em Portugal?
R - Tem muitos estão é abandonados. Há uma tradição muito grande de jardins enquanto espaço público. Braga é muito rica nesse capítulo. Dentro das muralhas o espaço era escasso e á volta instalaram-se os campos das feiras. Com o derrubar das muralhas esses espaços deram lugar às alamedas e depois aos parques públicos. A avenida Central foi o primeiro passeio público de Braga já teve inúmeros projetos e é um daqueles espaços na cidade que merecia ter uma intervenção de fundo.

P - É presidente da Associação Portuguesas dos Jardins Históricos.
R - Foi criada em 2003 e teve por objetivo congregar aqueles que gostam dos jardins e por outro lado os proprietários dos jardins históricos, para criar massa critica sobre um património que é talvez o mais desconhecido, o mais belo e o mais frágil. Em 2022 fará 40 anos que foi publicada a Carta de Florença para a preservação dos jardins históricos. Houve o entendimento que o jardim tinha um património vivo, um património vegetal, efémero. De um modo geral falamos de espaços limitados. São espaços que estão sempre em transformação e renovação e que por vezes estão em estado de abandono ou foram destruídos. Nascem, crescem reproduzem-se e morrem.

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