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Uma vida de trabalho

Entrevistas

2010-04-17 às 06h00

Ricardo Miguel Vasconcelos Ricardo Miguel Vasconcelos

'Vida de Trabalho' é uma viagem alucinante pelo dia-a-dia de profissionais que, nas mais diversas áreas, se destacam pelo seu empenho e dedicação. Todos rejeitam a ideia de que o trabalho é um vício. É uma forma de todos se sentirem úteis na concretização de metas, muitas delas bem aliciantes. André Magalhães, Jorge Amado, Jorge Vieira e a psicóloga Joana Alves são os protagonistas.

André Magalhães, de 55 anos, é enfermeiro-chefe da Clínica de Santa Tecla, em Braga. Representa uma área onde os horários são rotativos, em que a dedicação aos outros fala sempre mais alto. O trabalho é um prazer porque significa ajudar o próximo.

O despertador cedo dá a alvorada para mais um dia de trabalho. A área da saúde representa uma vida dedicada aos outros onde os ponteiros do relógio apenas assinalam horas certas para mais uma medicação, mais uma volta na cama, mais uma esponja a percorrer o corpo do doente. André Magalhães é enfermeiro-chefe na Clínica de Santa Tecla, em Braga. “Gosto imenso da minha profissão, este era o meu sonho desde pequeno, já me estava no sangue”, diz.

Estas longas horas de trabalho não são problema para André. Desde muito novo que se habituou a uma vida de serviço aos outros. Esteve nos primeiros grupos de jovens na paróquia de São Victor, percorreu montes e vales a espalhar um espírito cristão único, sempre acompanhado da sua viola. “Poder-me dedicar aos outros é fundamental no meu viver”, revela. “Na minha profissão posso dizer que sou viciado no trabalho, é uma maneira de estar na vida”, sublinha o enfermeiro, enumerando vários aspectos que servem de base à sua felicidade profissional: recebe mais do que aquilo que dá, tem mais alegrias que tristezas, ajuda os outros com espírito de missão, gosta de partilhar emoções com aqueles que mais precisam, estão sozinhos...

Apesar de admitir que a classe está a atravessar uma fase difícil, reconhece que há mais consciência sobre o papel do enfermeiro. “Hoje em dia, em várias especialidades os familiares podem acompanhar o doente, logo é normal que as pessoas observem o nosso trabalho”.
Os turnos rotativos desregulam os horários, a vida familiar e social do enfermeiro, mas importa sempre um trabalho de equipa em processos de grande risco e responsabilidade. Mas André Magalhães elege o processo de humanização como pilar fundamental na saúde. “Ultimamente estamos a perdê-la porque as empresas, clínicas ou hospitais impõem um rácio que, devido à sobrecarga de trabalho, leva a uma desumanização dos serviços”, diz.

Problemas da classe

Solidário com os colegas mais novos da classe, defende que estes devem ter um patamar salarial semelhante aos restantes licenciados. A sobrecarga de trabalho e as constantes alterações na vida familiar podem ser focos de conflito, algo que, segundo o enfermeiro, podia ser combatido com a admissão de novos profissionais. “Porque a enfermagem não é bem paga, ainda há muitos que têm um segundo e terceiro emprego. Por isso, corrigidos os salários, seriam abertas novas portas para muitos enfermeiros que estão no desemprego”, explica.

André está na clínica há 23 anos, durante dez trabalhou num hospital público e mesmo assim acha que a sua vida familiar não foi prejudicada. Pai de duas filhas, diz que nunca esqueceu o seu papel na harmonia lá de casa. O segredo passa por explicar, no tempo certo, as condicionantes da profissão. Depois, importa dar qualidade aos pequenos momentos que passam juntos, na valorização do diálogo e da partilha. “Tem que haver uma cumplicidade com a família”, diz.



Jorge Amado: “Ser director de escola neste momento é doentio”

Jorge Amado tem 52 anos, e é director do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches. Abraçou o projecto de dirigir um dos maiores agrupamentos da região e isso tem os seus custos. O trabalho sob pressão, a quase total ausência de férias, as imensas horas de trabalho originam prejuízos para a vida familiar.

Dirigir o maior agrupamento de escolas da região de Braga não é tarefa fácil. Jorge Amado, licenciado em História, é o director do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, em Braga. Aos 52 anos, e com longos anos dedicados à arte de ensinar, abraçou, há algum tempo, esta nova missão.

Passa grande parte do dia na escola, inclusive tempos significativos do fim-de-semana. “Não há descanso porque há muitos conflitos a gerir, por exemplo dos pais para com os filhos, dos funcionários, dos professores”, diz.

O docente acha que ser director de escola neste momento “é doentio”, justificando que as férias acabam por ser um bem escasso, os momentos de descanso são quase inexistentes e, na hora da verdade, o director dá a cara por tudo: “qualquer coisa que aconteça eu tenho que responder”.

Por outro lado, Jorge Amado defende que há uma série de situações referentes à própria gestão e organização da escola que têm de ser repensadas. “Não me cabe a mim decidir, isso compete ao Ministério da Educação, mas torna-se urgente uma desborocratização do sistema que lança pressão sobre aqueles que trabalham nas escolas”, desabafa.

Esta constante ocupação com os assuntos da escola faz do professor uma pessoa ausente em casa, embora admita que, como já não tem filhos pequenos, o problema é menor, embora a sua esposa se inscreva em novos projectos para atenuar a solidão. “A minha mulher, neste momento, meteu-se a fazer um novo mestrado, já é o segundo, mas como tenho um filho casado e eu nunca estou em casa, ela sente a necessidade de se manter ocupada, de contactar com outras pessoas”, diz.
Ao domingo, tudo é diferente. Amado diz que este “é sagrado e não prescindo dele”.

Relativamente aos problemas que atravessa a classe docente, refere que estes em nada ajudam à harmonia na escola. Por isso, até a saúde do professor já sofreu alterações. Hoje, tem problemas de hipertensão, que, na sua opinião, resultam de um trabalho exaustivo e sob pressão. “As pessoas, não bem sei porquê, são muito conflituosas. Estão sempre a ver onde podem apontar alguma coisa. Se errarmos temos que corrigir e fazer melhor. Mas é certo que muitas vezes a crítica resulta de problemas em casa ou no trabalho, os baixos salários. Devíamos viver todos na paz de Deus, e se assim fosse, tudo seria melhor”, lamenta.

O director da escola contextualiza ainda o seu excesso de trabalho com as recentes mudanças na escola a vários níveis. “Tive que gerir, nos últimos tempos, muitos conflitos, até um certo desequilíbrio emocional”.

Arranque do novo ano

O arranque do ano lectivo rouba o tempo para o merecido descanso. Essa fase acaba por ser de intenso trabalho e, por muito que se faça, há sempre muito ainda por fazer. Horários de professores, turmas, horários, escala de serviços para auxiliares, etc.. E este ano vai ser ainda pior. Tal como foi noticiado, a escola vai entrar em obras. “Acordei com a senhora ministra da Educação a situação das instalações desta escola com um edifício centenário. Nessa reunião, disse-me que o resultado desse pedido, esta escola e a André Soares iriam ter direito a obras.”

Porém, os problemas poderão ser mais difíceis de resolver. Para onde mandar os alunos? Como gerir os espaços? E os horários? E a falta de funcionários?
Toda esta situação faz com a que a vida do professor Amado se resuma à escola e a algo que ele procura não descurar: a família. Gosta de visitar a sua mãe, que tem 88 anos, e falar pacientemente com ela. O filho casado e a sua esposa são os outros dois pilares da sua acção.

Durante muitos anos, colaborou com a Paróquia de São Victor na educação de jovens, como foi o seu trabalho na Pastoral de Jovens. Depois, fez parte do projecto ‘SA’ (Sem Abrigo), mas a falta de tempo fez com que o professor tivesse que congelar, por tempo indeterminado, essa sua vontade de fazer voluntariado junto dos mais pobres.



Jorge Vieira: “Trabalho com prazer”

Jorge Vieira é director geral da Construções Europa Arlindo - Espanha. Licenciado em
Administração Pública pela Universidade do Minho, sente-se realizado na sua profissão, cumprindo metas, não tendo limites para o sonho de ser, dia-a-dia, cada vez melhor.

Aos 33 anos de idade, Jorge Vieira é um caso de sucesso no mercado de trabalho. Licenciado em Administração Pública pela Universidade do Minho, este bracarense de gema teve sempre engenho e arte para encontrar plataformas seguras para colocar em prática todo o seu talento.

Director-geral das Construções Europa-Arlindo (Espanha), move-se num mercado motor da economia onde o tempo dedicado ao trabalho é imenso. Mas não se queixa. 'É o tempo que considero fundamental para desempenhar com rigor as funções que me estão atribuídas. O muito ou o pouco tempo tem a ver com as responsabilidades que temos e os objectivos que pretendemos atingir'.

Admitindo que há dias mais le-ves, onde as tarefas podem não sobrecarregar tanto o próprio trabalhador, o director defende que o realmente importante é ter focado um objectivo', diz. 'Devemos medir o objectivo e não o número de horas', defende.

Relativamente ao seu trabalho, explica que costuma lançar um desafio. 'Tenho por hábito dizer a quem trabalha na empresa e colabora comigo que nós devemos ter um racio elevado de acertividade, ou seja, quando nos empenhamos em determinado projecto, este tem que ser bem sucedido. No meu caso, que faço muito a área comercial, temos que aumentar o número de projectos em que nos envolvemos para podermos manter o objectivo', diz.

Ou seja, em termos de racio, se antigamente precisava de ir a quatro concursos, quatro obras públicas, três privadas, e realizar algumas delas, hoje o rácio é superior. 'Se calhar é a minha acertividade que diminuiu pelos mais diversos factores e esta pode ser uma explicação para passarmos mais tempo no trabalho', diz.

Fundamentalmente, acha que consumimos em demasia tempo uns aos outros, até com alguma 'leviandade'. Reuniões em ciclo, com atrasos sucessivos, que funciona como uma espécie de cadeia de consumir minutos e horas. Diz que esta é uma situa-ção cultural que o nosso país tem que resolver rapidamente.

'Nós não estamos organizados, estamos desorganizados. Este consumo excessivo de horas não produtivas é que, de facto, poderiam e deveriam ser minimizadas. Não está certa a forma como as nossas sociedades, as empresas, o próprio Estado se organiza. É quase como irmos ao médico e termos que reservar a manhã. Isto não faz qualquer sentido. Deveria ser como ir a qualquer outro lado, com um objectivo, com um determinado propósito. Há uma hora para começar, outra para terminar'.

O director tem a opinião de que o povo português trabalha muito e bem, mas há que arranjar novas formas das pessoas se organizarem, das reuniões serem mais produtivas, que haja mais objectividade, mais acertividade nas acções. 'Com tudo isto conjugado, podemos atingir outros objectivos. No fundo, podemos fazer o mesmo, ou até mais, em menos tempo'.

Futuro longínquo

Jorge Vieira, não se imagina na reforma. A actividade cerebral ou outra qualquer é fundamental. Nessa altura, talvez se dedique a projectos que, por agora, estão congelados. 'Gostava de não ter que esperar pelo fim da vida para atingir uma estabilidade financeira, já que essa é uma variável muito importante. Depois, poderia dedicar-me a projectos de natureza social, como ajudar nos grupos de jovens cristãos ou em trabalho de voluntariado', revela. Mas para já, isso está fora de hipótese. Assume estar 'numa fase de aceleração na sua vida'.

Considera que, em termos profissionais, temos uma janela de oportunidade que andará entre os 30 e 40 anos. Passada essa fase, 'ou estamos em velocidade de cruzeiro ou nunca mais lá chegamos'.
Jorge Vieira admite que é muito metódico e organizado. Faz plano a três, cinco e 10 anos. Três é o tempo que se envolve em projectos profissionais. Depois, vem a reavaliação. 'É uma questão de métrica e metodologia. Temos que ter este lado aventureiro de fazermos escolhas muito difíceis. Temos que ser sérios. Se for o caso, devemos assumir as derrotas e sair, porque andar um passo para trás pode significar dois à frente no futuro', refere.

Tempos de universidade

O director falou ainda dos seus tempos de universidade como jovem aluno, dirigente associativo. Esteve a um passo de se candidatar à Associação Académica. No quarto ano, depois de constituir uma lista e reunir apoios, inclusive dos pais, reposicionou a sua vontade e hoje conclui que essa foi a opção certa. 'Seria mais um ano a gastar e menos um a ganhar', diz. Este raciocínio, visto à distância, parece-lhe fundamental. Em cada ano que passava havia muitos licenciados lançados no mercado. Logo, mais 12 meses no Ensino Superior poderia traduzir-se em menos oportunidades no mercado de trabalho.

Recusa a ideia de que é um profissional bem sucedido desde os tempos em que saiu da UMi-nho. Mesmo assim, defende que em tudo há um factor importante. O empenho incondicional no trabalho, numa atitude séria e honesta para com a entidade empregadora e para com o próprio.

'Não sou um viciado no trabalho, mas faço-o com muito prazer', refere, assumindo que age focado no objectivo da sua empresa estar cada dia melhor. 'O importante no desenvolvimento de qualquer actividade é nós não estarmos preocupados com aquilo que damos, mas com aquilo que recebemos.' Por isso, em vez de medir o tempo gasto no trabalho ou reclamar as horas-extra, prefere perguntar se os objectivos foram cumpridos. E se assim for, promove o jantar que servirá para todos se vangloriarem dos feitos alcançados. 'Acho que todos assumirmos este princípio pró-activo do sucesso da empresa, todos teremos sucesso', conclui.



‘Workaholics’ por opção ou novas necessidades...

Joana Alves, licenciada em Psicologia pelo Instituto Superior da Maia, explica que às pessoas que passam muito tempo no trabalho também se podem chamar workaholics, um fenómeno emergente que pode estar associado às novas necessidades dos mercados.

Apesar de considerar que as pesoas consideradas ‘workaholics’ são as viciadas no trabalho, a psicóloga Joana Alves, licenciada pelo Instituto Superior da Maia, explica que os que passam muito tempo no local de trabalho também podem ter essa denominação, um fenómeno emergente que pode estar associado às novas necessidades dos mercados. O instinto de sobrevivência, a crise mundial, a competitividade ou a luta pelos postos de trabalho fazem com que haja, cada vez mais pessoas que passam muito tempo no trabalho.

Porém, Joana Alves sublinha que há uns que assumem esse título por opção de vida, outros por mera necessidade. Por vezes, o prazer de trabalhar, o ‘ego’ de vencer barreiras, de atingir objectivos, de singrar numa profissão, utrapassa limites, e esse pode ser um problema.
As implicações que este fenómeno pode ter na vida do indivíduo podem ser várias. “Sobretudo a nível físico pode afectar o homem. A pessoa pode começar a experienciar aquilo que são sintomas de um fenómeno da Psicologia que é o Burnout que tem sido amplamente estudado por diversos autores que é o chamado síndrome de exaustão, que traduzido à letra, é aquilo que queima, que consome a pessoa', diz.

Tudo isto pode resultar em insónias, cansaço, falta de energia, perda de apetite, sentimento de esgotamento físico, no fundo, a pessoa arrasta-se.
Ao nível psicológico, existem outros sintomas que a pessoa pode começar a sentir, como a irritabilidade, a perda de sentido de humor, irritação com os ou-tros ou consigo mesmo, a diminuição da auto-estima. E no local de trabalho, o desempenho do indivíduo está claramente posto em causa. 'As tarefas inerentes à profissão vão sair, de alguma forma, prejudicadas', explica a psicóloga. E não só. O ambiente de trabalho com os colegas pode também sair lesado.

Educação dos filhos

A realidade mostra que os educadores passam cada vez menos tempo em casa. Há vários aspectos a ter em conta, principalmente no que à educação dos filhos diz respeito. 'O facto de os pais passarem muito tempo fora de casa acarreta consequências a nível familiar e até conjugal. É óbvio que alguém que passa muito tempo no trabalho vai despender pouco tempo para os outros', refere.

Joana Alves considera que a educação dos progenitores pode atingir um patamar de grande perfeição, mesmo nos casais que passam pouco tempo em casa. Está em causa a qualidade do tempo despendido, a necessária atenção sobre os filhos, os seus momentos de crescimento, os seus anseios e devoções.

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